Catecismo
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§ 153–159

III. As características da fé
A FÉ É UMA GRAÇA
153

Quando Pedro confessa que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, Jesus declara-lhe que esta revelação não lhe veio «da carne nem do sangue, mas do seu Pai que está nos Céus» ()16. A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele. «Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte o coração para Deus, abre os olhos do entendimento, e dá "a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade"»17.

Ver também§ 552§ 1814§ 1996§ 2606

  1. 16Cf. ; .
  2. 17II Concílio Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 5: AAS 58 (1966) 819.
A FÉ É UM ACTO HUMANO
154

O acto de fé só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo. Mas não é menos verdade que crer é um acto autenticamente humano. Não é contrário nem à liberdade nem à inteligência do homem confiar em Deus e aderir às verdades por Ele reveladas. Mesmo nas relações humanas, não é contrário à nossa própria dignidade acreditar no que outras pessoas nos dizem acerca de si próprias e das suas intenções, e confiar nas suas promessas (como, por exemplo, quando um homem e uma mulher se casam), para assim entrarem em mútua comunhão. Por isso, é ainda menos contrário à nossa dignidade «prestar, pela fé, submissão plena da nossa inteligência e da nossa vontade a Deus revelador»18 e entrar assim em comunhão intima com Ele.

Ver também§ 1749§ 2126

  1. 18I Concílio Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c.3: DS 3008.
155

Na fé, a inteligência e a vontade humanas cooperam com a graça divina: «Credere est actas intellectus assentientis veritati divinae ex imperio voluntatis, a Deo motae per gratiam» — «Crer é o acto da inteligência que presta o seu assentimento à verdade divina, por determinação da vontade, movida pela graça de Deus»19.

Ver também§ 2008

  1. 19São Tomás de Aquino. Summa theologiae II-II. q. 2. a. 9. c: Ed. Leon. 8. 37: cf. I Concílio Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 3: DS 3010.
A FÉ E A INTELIGÊNCIA
156

O motivo de crer não é o facto de as verdades reveladas aparecerem como verdadeiras e inteligíveis à luz da nossa razão natural. Nós cremos «por causa da autoridade do próprio Deus revelador, que não pode enganar-se nem enganar-nos»20. «Contudo, para que a homenagem da nossa fé fosse conforme à razão, Deus quis que os auxílios interiores do Espírito Santo fossem acompanhados de provas exteriores da sua Revelação»21. Assim, os milagres de Cristo e dos santos22, as profecias, a propagação e a santidade da Igreja, a sua fecundidade e estabilidade «são sinais certos da Revelação, adaptados à inteligência de todos»23, «motivos de credibilidade», mostrando que o assentimento da fé não é, «de modo algum, um movimento cego do espírito»24.

Ver também§ 1063§ 2465§ 548§ 812

  1. 20I Concílio Vaticano, Const. dogm.Dei Filius. c. 3: DS 3008.
  2. 21I Concílio Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 3: DS 3009.
  3. 22Cf. ; .
  4. 23I Concílio Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 3: DS 3009.
  5. 24I Concílio Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 3: DS 3010.
157

A fé é certa, mais certa que qualquer conhecimento humano, porque se funda na própria Palavra de Deus, que não pode mentir. Sem dúvida, as verdades reveladas podem parecer obscuras à razão e à experiência humanas; mas «a certeza dada pela luz divina é maior do que a dada pela luz da razão natural»25. «Dez mil dificuldades não fazem uma só dúvida»26.

Ver também§ 2088

  1. 25São Tomás de Aquino, Summa theologiae II-II. q. 171, 5, 3um: Ed. Leon. 10, 373.
  2. 26J. H. Newman, Apologia pro vita sua, c. 5. ed. M. J. Svaglic, Oxford 1967, p. 210.
158

«A fé procura compreender»27: é inerente à fé o desejo do crente de conhecer melhor Aquele em quem acreditou, e de compreender melhor o que Ele revelou; um conhecimento mais profundo exigirá, por sua vez, uma fé maior e cada vez mais abrasada em amor. A graça da fé abre «os olhos do coração» () para uma inteligência viva dos conteúdos da Revelação, isto é, do conjunto do desígnio de Deus e dos mistérios da fé, da íntima conexão que os Liga entre si e com Cristo, centro do mistério revelado. Ora, para «que a compreensão da Revelação seja cada vez mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a fé, mediante os seus dons»28. Assim, conforme o dito de Santo Agostinho, «eu creio para compreender e compreendo para crer melhor»29.

Ver também§ 2705§ 1827§ 90§ 2518

  1. 27Santo Anselmo da Cantuária, Proslogion. Prooemium: Opera omnia, ed. F. S. Schmitt. v. 1, Edimburgo 1946, p. 94.
  2. 28II Concílio Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 5: AAS 58 (1966) 819.
  3. 29Santo Agostinho, Sermão 43, 7, 9: CCL 41. 512 (PL 38. 258).
159

Fé e ciência. «Muito embora a fé esteja acima da razão, nunca pode haver verdadeiro desacordo entre ambas: o mesmo Deus, que revela os mistérios e comunica a fé, também acendeu no espírito humano a luz da razão. E Deus não pode negar-Se a Si próprio, nem a verdade pode jamais contradizer a verdade»30. «É por isso que a busca metódica, em todos os domínios do saber, se for conduzida de modo verdadeiramente científico e segundo as normas da moral, jamais estará em oposição à fé: as realidades profanas e as da fé encontram a sua origem num só e mesmo Deus. Mais ainda: aquele que se esforça, com perseverança e humildade, por penetrar no segredo das coisas, é como que conduzido pela mão de Deus, que sustenta todos os seres e faz que eles sejam o que são, mesmo que não tenha consciência disso»31.

Ver também§ 283§ 2293

  1. 30I Concílio Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 4: DS 3017.
  2. 31II Concílio Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 36: AAS 58 ((966) 1054.
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