Catecismo

§ 2741–2761

2741

Jesus também ora por nós, em nosso lugar e em nosso favor. Todos os nossos pedidos foram reunidos, de uma vez por todas, no seu brado sobre a cruz e atendidos pelo Pai na sua ressurreição; e é por isso que Ele não cessa de interceder por nós junto do Pai29. Se a nossa oração estiver resolutamente unida à de Jesus na confiança e na audácia filial, obteremos tudo o que pedirmos em seu nome e muito mais do que isto ou aquilo: o próprio Espírito Santo que inclui todos os dons.

  1. 29Cf. Heb 5, 7; 7, 25; 9, 24.
IV. Perseverar no amor
2742

«Orai sem cessar» (1 Ts 5, 17), «dai sempre graças por tudo a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo» (Ef 5, 20), «servindo-vos de toda a espécie de orações e preces, orai em todo o tempo no Espírito Santo; e, para isso, vigiai com toda a perseverança e com preces por todos os santos» (Ef 6, 18). «Não nos foi mandado que trabalhemos, velemos e jejuemos constantemente, mas temos a lei de orar sem cessar»30 Este fervor incansável só pode vir do amor. Contra a nossa lentidão e preguiça, o combate da oração é o do amor humilde, confiante e perseverante. Este amor abre os nossos corações a três evidências de fé, luminosas e vivificantes:

  1. 30Evágrio do Ponto, Capita practica ad Anatolium, 49: SC 171, 610 (PG 40, 1245).
2743

Orar é sempre possível: O tempo do cristão é o de Cristo Ressuscitado, que está «connosco todos os dias» (Mt 28, 20), sejam quais forem as tempestades31. O nosso tempo está na mão de Deus:

«É possível, mesmo no mercado ou durante um passeio solitário, fazer oração frequente e fervorosa; sentados na vossa loja, a tratar de compras e vendas, até mesmo a cozinhar»32.

  1. 31Cf. Lc 8, 24.
  2. 32São João Crisóstomo, De Anna, sermo 4, 6: PG 54, 668.
2744

Orar é uma necessidade vital. A demonstração do contrário não é menos convincente: se não nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo, recairemos na escravidão do pecado33. Ora, como pode o Espírito Santo ser a «nossa vida» se o nosso coração estiver longe d'Ele?

«Nada iguala o valor da oração; ela torna possível o impossível, fácil o difícil. [...] É impossível [...] que o homem que ora caia no pecado»34. «Quem reza salva-se, de certeza; quem não reza condena-se, de certeza»».

  1. 33Cf. Gl 5, 16-25.
  2. 34São João Crisóstomo, De Anna, sermo 4, 5: PG 54, 666.
2745

Oração e vida cristã são inseparáveis, porque se trata do mesmo amor e da mesma renúncia que procede do amor; da mesma conformidade filial e amorosa com o desígnio de amor do Pai; da mesma união transformante no Espírito Santo que nos conforma sempre mais com Cristo Jesus; do mesmo amor para com todos os homens, desse amor com que Jesus nos amou. «Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros» (Jo 15, 16-17).

«Ora sem cessar, aquele que une a oração às obras e as obras à oração. Só assim é que podemos considerar como realizável o preceito de orar incessantemente»36.

  1. 36Orígenes, De oratione, 12, 2: GCS 3, 324-325 (PG 11, 452).
V. A oração da Hora de Jesus
2746

Ao chegar a sua «Hora», Jesus ora ao Pai37. A sua oração, a mais longa que nos é transmitida pelo Evangelho, abraça toda a economia da criação e da salvação, bem como a sua morte e ressurreição. A oração da «Hora» de Jesus continua sempre sua, tal como a sua Páscoa, acontecida «uma vez por todas», continua presente na liturgia da sua Igreja.

  1. 37Cf. Jo 17.
2747

A tradição cristã chama-lhe, a justo título, a oração «sacerdotal» de Jesus. Ela é, de facto, a oração do nosso Sumo-Sacerdote, inseparável do seu sacrifício, da sua «passagem» (páscoa) deste mundo para o Pai, em que é inteiramente «consagrado» ao Pai38.

  1. 38Cf. Jo 17, 11.13.19.
2748

Nesta oração pascal, sacrificial, tudo está «recapitulado» n'Ele39: Deus e o mundo, o Verbo e a carne, a vida eterna e o tempo, o amor que se entrega e o pecado que o atraiçoa, os discípulos presentes e os que n'Ele hão-de crer pela palavra deles, a humilhação e a glória. É a Oração da Unidade.

  1. 39Cf. Ef 1, 10.
2749

Jesus cumpriu perfeitamente a obra do Pai e a sua oração, como o seu sacrifício estende-se até à consumação do tempo. A oração da «Hora» preenche os últimos tempos e leva-os à sua consumação. Jesus, o Filho a Quem o Pai tudo deu, entrega-Se todo ao Pai; e, ao mesmo tempo, exprime-Se com uma liberdade soberana40, segundo o poder que o Pai Lhe deu sobre toda a carne. O Filho, que Se fez Servo, é o Senhor, o Pantocrátor. O nosso Sumo-Sacerdote que ora por nós é também Aquele que em nós ora e o Deus que nos atende.

  1. 40Cf. Jo 17, 11.13.19.24.
2750

É entrando no santo nome do Senhor Jesus que podemos acolher, desde dentro, a oração que Ele nos ensina: «Pai nosso!». A sua oração sacerdotal inspira, a partir de dentro, as grandes petições do Pai-nosso: a preocupação com o nome do Pai41, a paixão pelo seu Reino (a glória)42, o cumprimento da vontade do Pai, do seu desígnio de salvação43 e a libertação do mal44.

  1. 41Cf. Jo 17, 6.11.12.26.
  2. 42Cf. Jo 17, 1.5.10.22.23-26.
  3. 43Cf. Jo 17, 2.4.6.9.11.12.24.
  4. 44Cf. Jo 17, 15. 4.
2751

Finalmente, é nesta oração que Jesus nos revela e nos dá o «conhecimento» indissociável do Pai e do Filho45, que é o próprio mistério da vida de oração.

  1. 45Cf. Jo 17, 3.6-10.25.
Resumindo:
2752

A oração pressupõe esforço e luta contra nós mesmos e contra as ciladas do Tentador. O combate da oração é inseparável do «combate espiritual» necessário para agir habitualmente segundo o Espírito de Cristo: ora-se como se vive, porque se vive como se ora.

2753

No combate da oração, devemos enfrentar concepções erróneas, diversas correntes de mentalidades e a experiência dos nossos fracassos. A estas tentações, que lançam a dúvida sobre a utilidade ou até mesmo a possibilidade da oração, convém responder com humildade, confiança e perseverança.

2754

As principais dificuldades no exercício da oração são a distracção e a aridez. O remédio está na fé, na conversão e na vigilância do coração.

2755

Duas tentações frequentes ameaçam a oração: a falta de fé e a acédia, que é uma espécie de depressão devida ao relaxamento da ascese e que leva ao desânimo.

2756

A confiança filial é posta à prova quando temos a sensação de nem sempre ser atendidos. O Evangelho convida-nos a interrogarmo-nos sobre a conformidade da nossa oração com o desejo do Espírito.

2757

«Orai sem cessar» (1 Ts 5, 17). Orar é sempre possível. É, até, uma necessidade vital. Oração e vida cristã são inseparáveis.

2758

A oração da «Hora» de Jesus, justamente chamada «oração sacerdotal»46, recapitula toda a economia da criação e da salvação. É ela que inspira as grandes petições do «Pai-nosso».

  1. 46Cf. Jo 17.
SEGUNDA SECÇÃO
A ORAÇÃO DO SENHOR: «PAI NOSSO»
2759

«Um dia, estava Jesus em oração, em certo lugar. Quando acabou, disse-lhe um dos seus discípulos: "Senhor, ensina-nos a orar, como João Baptista também ensinou os seus discípulos"» (Lc 11, 1). Foi em resposta a este pedido que o Senhor confiou aos seus discípulos e à sua Igreja a oração cristã fundamental. São Lucas apresenta-nos um texto breve dessa oração (cinco petições)1; São Mateus, uma versão mais desenvolvida (sete petições)2. A tradição litúrgica da Igreja reteve o texto de São Mateus (Mt 6, 9-13):

Pai Nosso que estais nos céus,

santificado seja o vosso Nome,

venha a nós o vosso Reino,

seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje,

perdoai-nos as nossas ofensas

assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,

e não nos deixeis cair em tentação,

mas livrai-nos do Mal.

  1. 1Cf. Lc 11, 2-4.
  2. 2Cf. Mt 6, 9-13.
2760

Bem cedo o uso litúrgico concluiu a oração do Senhor por uma doxologia. Na Didakê: «Porque Vosso é o poder e a glória, pelos séculos»3. A esta doxologia, as Constituições Apostólicas acrescentam no princípio: «o Reino»4, e essa é a fórmula que se usa em nossos dias na oração ecuménica. A tradição bizantina acrescenta, depois de «a glória»: «Pai, Filho e Espírito Santo». O Missal Romano amplia a última petição5 na perspectiva explícita da «expectativa da bem-aventurada esperança»6 e da vinda de Jesus Cristo nosso Senhor, seguindo-se a aclamação da assembleia que retoma a doxologia das Constituições Apostólicas.

  1. 3Didakê 8, 2: SC 248, 174 (Funk, Patres apostolici 1, 20)
  2. 4Constitutiones apostolicae 7, 24, 1: SC 336, 174 (Fink, Didascalia et Constitutiones Apostolorum 1, 410).
  3. 5Cf. Rito da Comunhão, [Embolismo]: Missale Romanum, editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1970), p. 472 [Missal Romano, Gráfica de Coimbra 1992, p. 545].
  4. 6Cf. Tt 2, 13.
ARTIGO 1
«O RESUMO DE TODO O EVANGELHO»
2761

«A oração dominical é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho»7. «Depois de o Senhor nos ter legado esta fórmula de oração, acrescentou "Pedi e recebereis" (Jo 16, 24). Cada um pode, portanto, dirigir ao céu diversas orações segundo as suas necessidades, mas começando sempre pela oração do Senhor, que continua a ser a oração fundamental»8.

  1. 7Tertuliano, De Oratione, 1, 6: CCL 1, 258 (PL 1, 1255).
  2. 8Tertuliano, De Oratione, 10: CCL 1, 263 (PL 1, 1268-1269).
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Catecismo — texto oficial · © Libreria Editrice Vaticana · vatican.va

Sagrada Escritura — Bíblia Sagrada, edição Ave Maria

Padres da Igreja, Doutores e Suma Teológica · newadvent.org

S. Josemaría Escrivá · escriva.org

Concílios e documentos papais · Santa Sé · vatican.va

Índice analítico e índice litúrgico · catecismo.net
Do catecismo.net vêm só os índices: que parágrafos correspondem a cada termo e a cada dia litúrgico. O texto é sempre o do vatican.va.

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