Catecismo
Bíblia · ed. Ave Maria
Código de Direito Canónico
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§ 348–376

348

O Sábado está no coração da Lei de Israel. Guardar os Mandamentos é corresponder à sabedoria e à vontade de Deus, expressas na sua obra da criação.

Ver também§ 2172

349

O oitavo dia. Mas para nós, um dia novo surgiu: o dia da Ressurreição de Cristo. O sétimo dia acaba a primeira criação. O oitavo dia começa a nova criação. A obra da criação culmina, assim, na obra maior da Redenção. A primeira criação encontrou o seu sentido e cume ria nova criação em Cristo, cujo esplendor ultrapassa o da primeira214.

Ver também§ 2174§ 1046

  1. 214Cf. Vigília Pascal, oração depois da primeira leitura: Missale Romanum, editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1970), p. 276 [Missal Romano, Gráfica de Coimbra 1992, p. 304].
Resumindo:
350

Os anjos são criaturas espirituais que glorificam a Deus sem cessar e servem os seus planos salvíficos em relação às outras criaturas: «Ad omnia bona nostra cooperantur angeli – Os anjos prestam a sua cooperação a tudo quanto diz respeito ao nosso bem»215.

  1. 215São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 1, 114. 3, ad 3: Ed. Leon. 5, 535.
351

Os anjos assistem a Cristo, seu Senhor. Servem-n'O de modo particular no cumprimento da sua missão salvífica em relação aos homens.

352

A Igreja venera os anjos, que a ajudam na sua peregrinação terrestre e protegem todo o género humano.

353

Deus quis a diversidade das suas criaturas e a sua bondade própria, a sua interdependência e a sua ordem. Destinou todas as criaturas materiais para o bem do género humano. O homem, e através dele toda a criação, tem como destino a glória de Deus.

354

Respeitar as leis inscritas na criação e as relações derivantes da natureza das coisas, é princípio de sabedoria e fundamento da moral.

PARÁGRAFO 6
O HOMEM
355

«Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus. Ele o criou homem e mulher» (). O homem ocupa um lugar único na criação: é «à imagem de Deus» (I); na sua própria natureza, une o mundo espiritual e o mundo material (II); foi criado «homem e mulher» (III); Deus estabeleceu-o na sua amizade (IV).

Ver também§ 1700§ 343

I. «A imagem de Deus»
356

De todas as criaturas visíveis, só o homem é «capaz de conhecer e amar o seu Criador»216; é a «única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma»217; só ele é chamado a partilhar, pelo conhecimento e pelo amor, a vida de Deus. Com este fim foi criado, e tal é a razão fundamental da sua dignidade:

«Qual foi a razão de terdes elevado o homem a tão alta dignidade? Foi certamente o incomparável amor com que Vos contemplastes a Vós mesmo na vossa criatura e Vos enamorastes dela; porque foi por amor que a criastes, foi por amor que lhe destes um ser capaz de apreciar o vosso bem eterno»218.

Ver também§ 1703§ 2258§ 225§ 295

  1. 216II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 12: AAS 58 (1966) 1034.
  2. 217II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 24: AAS 58 (1966) 1045.
  3. 218Santa Catarina de Sena, Il dialogo della Divina provvidenza, 13: ed. G. Cavallini (Roma 1995) p. 43.
357

Porque é «à imagem de Deus», o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas. E é chamado, pela graça, a uma Aliança com o seu Criador, a dar-Lhe uma resposta de fé e amor que mais ninguém pode dar em seu lugar.

Ver também§ 1935§ 1877

358

Deus tudo criou para o homem219 mas o homem foi criado para servir e amar a Deus, e para Lhe oferecer toda a criação:

«Qual é, pois, o ser que vai chegar à existência rodeado de tal consideração? É o homem, grande e admirável figura vivente, mais precioso aos olhos de Deus que toda a criação; é o homem, para quem existem o céu e a terra e o mar e a totalidade da criação, e a cuja salvação Deus deu tanta importância, que, por ele, nem ao seu próprio Filho poupou. Porque Deus não desiste de tudo realizar, para fazer subir o homem até Si e fazê-lo sentar à sua direita»220.

Ver também§ 299§ 901

  1. 219Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 12: AAS 58 (1966) 1034: Ibid. 24: AAS 58 (1966) 1045; Ibid. 39: AAS 58 (1966) 1056-1057.
  2. 220São João Crisóstomo, Sermones in Genesim, 2, 1: PG 54, 587D-588A.
359

«Na realidade, só no mistério do Verbo Encarnado é que verdadeiramente se esclarece o mistério do homem»221:

«São Paulo ensina-nos que dois homens estão na origem do género humano: Adão e Cristo. [...] O primeiro Adão, diz ele, foi criado como um ser humano que recebeu a vida; o segundo é um ser espiritual que dá a vida. O primeiro foi criado pelo segundo, de Quem recebeu a alma que o faz viver. [...] O segundo Adão gravou a sua imagem no primeiro, quando o modelou. Por isso, veio a assumir a sua função e o seu nome, para que não se perdesse aquele que fizera à sua imagem. Primeiro e último Adão: o primeiro teve princípio; o último não terá fim. Por isso é que o último é verdadeiramente o primeiro, como Ele mesmo diz: "Eu sou o Primeiro e o Último"»222.

Ver também§ 1701§ 388§ 411

  1. 221II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 22: AAS 58 (1966) 1042.
  2. 222São Pedro Crisólogo, Sermones 117, 1-2: CCL 24A, 709 (PL 52, 520) [2ª leit. do Ofício de Leituras de Sábado da XXIX Semana do Tempo Comum: Liturgia das Horas (Gráfica de Coimbra 1983), v. 4, p. 440].
360

Graças à comunidade de origem, o género humano forma uma unidade. Deus «fez, a partir de um só homem todo o género humano para habitar sobre toda a face da terra» ()223:

«Maravilhosa visão, que nos faz contemplar o género humano na unidade da sua origem em Deus [...]; na unidade da sua natureza, em todos igualmente integrada dum corpo material e duma alma espiritual; na unidade do seu fim imediato e da sua missão no mundo; na unidade da sua habitação, a terra, de cujos bens todos os homens, por direito natural, podem servir-se para sustentar e desenvolver a vida; na unidade do seu fim sobrenatural. Deus, para o Qual todos devem tender, na unidade dos meios para atingir este fim; [...] na unidade da Redenção, para todos levada a cabo por Cristo»224.

Ver também§ 225§ 404§ 775§ 831§ 842

  1. 223Cf. .
  2. 224Pio XII, Enc. Summi Pontificatus: AAS 31 (1939) 427: II Concílio Vaticano, Decl. Nostra aetate, 1: AAS 58 (1966) 740.
361

«Esta lei de solidariedade humana e de caridade»225, sem excluir a rica variedade das pessoas, das culturas e dos povos, assegura-nos que todos os homens são verdadeiramente irmãos.

Ver também§ 1939

  1. 225Pio XII. Enc. Summi Pontificatus: AAS 31 (1939) 426.
II. «Corpore et anima unus» – Unidade de corpo e alma
362

A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual. A narrativa bíblica exprime esta realidade numa linguagem simbólica, quando afirma que «Deus formou o homem com o pó da terra, insuflou-lhe pelas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se num ser vivo» (). O homem, no seu ser total, foi, portanto, querido por Deus.

Ver também§ 1146§ 2332

363

Muitas vezes, a palavra alma designa, nas Sagradas Escrituras, a vida humana226, ou a pessoa humana no seu todo227. Mas designa também o que há de mais íntimo no homem228 e de maior valor na sua pessoa229, aquilo que particularmente faz dele imagem de Deus: «alma» significa o princípio espiritual no homem.

Ver também§ 1703

  1. 226Cf. ; Jo 15. 13
  2. 227Cf. .
  3. 228Cf. ; .
  4. 229Cf. ; .
364

O corpo do homem participa na dignidade da «imagem de Deus»: é corpo humano precisamente por ser animado pela alma espiritual, e a pessoa humana na sua totalidade é que é destinada a tornar-se, no Corpo (Místico) de Cristo, templo do Espírito230:

«Corpo e alma, mas realmente uno, o homem, na sua condição corporal, reúne em si mesmo os elementos do mundo material, que assim nele encontram a sua consumação e nele podem louvar Livremente o seu Criador. Por isso, não é lícito ao homem menosprezar a vida do corpo. Pelo contrário, deve estimar e respeitar o seu corpo, que foi criado por Deus e que há-de ressuscitar no último dia»231.

Ver também§ 1004§ 2289

  1. 230Cf. ; 15, 44-45.
  2. 231II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 14: AAS 58 (1966) 1035.
365

A unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a «forma» do corpo232; quer dizer, é graças à alma espiritual que o corpo, constituído de matéria, é um corpo humano e vivo. No homem, o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza.

  1. 232Cf. Concílio de Viena (ano 1312), Const. «Fidei catholicae»: DS 902.
366

A Igreja ensina que cada alma espiritual é criada por Deus de modo imediato233 e não produzida pelos pais; e que é imortal234, isto é, não morre quando, na morte, se separa do corpo; e que se unirá de novo ao corpo na ressurreição final.

Ver também§ 1005§ 997

  1. 233Cf. Pio XII, Enc. Humani generis (ano 1950): DS 3896; Paulo VI, Sollemnis Professio fidei, 8: AAS 60 (1968) 436.
  2. 234Cf. V Concílio de Latrão (ano 1513), Bulla Apostolici regiminis: DS 1440.
367

Encontra-se às vezes uma distinção entre alma e espírito. São Paulo, por exemplo, ora para que «todo o nosso ser, o espírito, a alma e o corpo», seja guardado sem mancha até à vinda do Senhor (). A Igreja ensina que esta distinção não introduz uma dualidade na alma235, «Espírito» significa que o homem é ordenado, desde a sua criação, para o seu fim sobrenatural236, e que a alma é capaz de ser gratuitamente sobreelevada até à comunhão com Deus237.

Ver também§ 2083

  1. 235IV Concílio de Constantinopla (ano 870), canon 11: DS 657.
  2. 236Cf. I Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 2: DS 3005; II Concílio Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 22: AAS 58 (1966) 1042-1043.
  3. 237Cf. Pio XII, Enc. Humani generis (ano 1950): DS 3891.
368

A tradição espiritual da Igreja insiste também no coração,no sentido bíblico de «fundo do ser» («nas entranhas»: ) em que a pessoa se decide ou não por Deus238.

Ver também§ 478§ 582§ 1431§ 1764§ 2517§ 2562§ 2843

  1. 238Cf. ; 29, 3; ; ; : ; .
III. «Homem e mulher os criou»
IGUALDADE E DIFERENÇA QUERIDAS POR DEUS
369

O homem e a mulher foram criados, quer dizer, foram queridos por Deus: em perfeita igualdade enquanto pessoas humanas, por um lado; mas, por outro, no seu respectivo ser de homem e de mulher. «Ser homem», «ser mulher» é uma realidade boa e querida por Deus: o homem e a mulher têm uma dignidade inamissível e que lhes vem imediatamente de Deus, seu Criador239. O homem e a mulher são, com uma mesma dignidade, «à imagem de Deus». No seu «ser homem» e no seu «ser mulher», reflectem a sabedoria e a bondade do Criador.

  1. 239Cf. .
370

Deus não é, de modo algum; à imagem do homem. Não é nem homem nem mulher. Deus é puro espírito, no Qual não há lugar para a diferença de sexos. Mas as «perfeições» do homem e da mulher reflectem qualquer coisa da infinita perfeição de Deus: as duma mãe240 e as dum pai e esposo241.

Ver também§ 42§ 239

  1. 240Cf. ; 66, 13; .
  2. 241Cf. ; .
«UM PARA O OUTRO» – «UMA UNIDADE A DOIS»
371

Criados juntamente, o homem e a mulher são, na vontade de Deus, um para o outro. A Palavra de Deus no-lo dá a entender em diversos passos do texto sagrado. «Não convém que o homem esteja só: vou fazer-lhe uma ajudante que se pareça com ele» (). Nenhum dos animais pode ser este «par» do homem242. A mulher que Deus «molda» da costela tirada do homem e que apresenta ao homem, provoca da parte deste, uma exclamação admirativa, de amor e comunhão: «E osso dos meus ossos e carne da minha carne» (Ga 2, 23). O homem descobre a mulher como um outro «eu», da mesma humanidade.

Ver também§ 1605

  1. 242Cf. .
372

O homem e a mulher são feitos «um para o outro»: não é que Deus os tenha feito «a meias» e «incompletos»; criou-os para uma comunhão de pessoas, em que cada um pode ser «ajuda» para o outro, uma vez que são, ao mesmo tempo, iguais enquanto pessoas («osso dos meus ossos») e complementares enquanto masculino e feminino243. No matrimónio, Deus une-os de modo que, formando «uma só carne» (), possam transmitir a vida humana: «crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra» (). Transmitindo aos seus descendentes a vida humana, o homem e a mulher, como esposos e pais, cooperam de modo único na obra do Criador244.

Ver também§ 1652§ 2366

  1. 243Cf. João Paulo II, Ep. ap. Mulieris dignitatem, 7: AAS 80 (1988) 1664-1665.
  2. 244Cf. II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 50: AAS 58 (1966) 1070-1071.
373

Segundo o desígnio de Deus, o homem e a mulher são vocacionados para «dominarem a terra»245 como «administradores» de Deus. Esta soberania não deve ser uma dominação arbitrária e destruidora. A imagem do Criador, «que ama tudo o que existe» (), o homem e a mulher são chamados a participar na Providência divina em relação às outras criaturas. Daí a sua responsabilidade para com o mundo que Deus lhes confiou.

Ver também§ 307§ 2415

  1. 245Cf. .
IV. O homem no paraíso
374

O primeiro homem não só foi criado bom, como também foi constituído num estado de amizade com o seu Criador, e de harmonia consigo mesmo e com a criação que o rodeava; amizade e harmonia tais, que só serão ultrapassadas pela glória da nova criação em Cristo.

Ver também§ 54

375

A Igreja, interpretando de modo autêntico o simbolismo da linguagem bíblica à luz do Novo Testamento e da Tradição, ensina que os nossos primeiros pais, Adão e Eva, foram constituídos num estado de santidade e de justiça originais246. Esta graça da santidade original era uma participação na vida divina247.

Ver também§ 1997

  1. 246Cf. Concílio de Trento, Sess. 5.°. Decretum de peccato originali, canon 1: DS1511.
  2. 247Cf. I Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 2: AAS 57 (1965) 5-6.
376

Todas as dimensões da vida do homem eram fortalecidas pela irradiação desta graça. Enquanto permanecesse na intimidade divina, o homem não devia nem morrer248, nem sofrer249. A harmonia interior da pessoa humana, a harmonia entre o homem e a mulher250, enfim, a harmonia entre o primeiro casal e toda a criação, constituía o estado dito «de justiça original».

Ver também§ 1008§ 1502

  1. 248Cf. ; 3, 19.
  2. 249Cf. .
  3. 250Cf. .
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