Catecismo

§ 356–402

I. «A imagem de Deus»
356

De todas as criaturas visíveis, só o homem é «capaz de conhecer e amar o seu Criador»216; é a «única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma»217; só ele é chamado a partilhar, pelo conhecimento e pelo amor, a vida de Deus. Com este fim foi criado, e tal é a razão fundamental da sua dignidade:

«Qual foi a razão de terdes elevado o homem a tão alta dignidade? Foi certamente o incomparável amor com que Vos contemplastes a Vós mesmo na vossa criatura e Vos enamorastes dela; porque foi por amor que a criastes, foi por amor que lhe destes um ser capaz de apreciar o vosso bem eterno»218.

Ver também§ 1703§ 2258§ 225§ 295

  1. 216II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 12: AAS 58 (1966) 1034.
  2. 217II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 24: AAS 58 (1966) 1045.
  3. 218Santa Catarina de Sena, Il dialogo della Divina provvidenza, 13: ed. G. Cavallini (Roma 1995) p. 43.
357

Porque é «à imagem de Deus», o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas. E é chamado, pela graça, a uma Aliança com o seu Criador, a dar-Lhe uma resposta de fé e amor que mais ninguém pode dar em seu lugar.

Ver também§ 1935§ 1877

358

Deus tudo criou para o homem219 mas o homem foi criado para servir e amar a Deus, e para Lhe oferecer toda a criação:

«Qual é, pois, o ser que vai chegar à existência rodeado de tal consideração? É o homem, grande e admirável figura vivente, mais precioso aos olhos de Deus que toda a criação; é o homem, para quem existem o céu e a terra e o mar e a totalidade da criação, e a cuja salvação Deus deu tanta importância, que, por ele, nem ao seu próprio Filho poupou. Porque Deus não desiste de tudo realizar, para fazer subir o homem até Si e fazê-lo sentar à sua direita»220.

Ver também§ 299§ 901

  1. 219Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 12: AAS 58 (1966) 1034: Ibid. 24: AAS 58 (1966) 1045; Ibid. 39: AAS 58 (1966) 1056-1057.
  2. 220São João Crisóstomo, Sermones in Genesim, 2, 1: PG 54, 587D-588A.
359

«Na realidade, só no mistério do Verbo Encarnado é que verdadeiramente se esclarece o mistério do homem»221:

«São Paulo ensina-nos que dois homens estão na origem do género humano: Adão e Cristo. [...] O primeiro Adão, diz ele, foi criado como um ser humano que recebeu a vida; o segundo é um ser espiritual que dá a vida. O primeiro foi criado pelo segundo, de Quem recebeu a alma que o faz viver. [...] O segundo Adão gravou a sua imagem no primeiro, quando o modelou. Por isso, veio a assumir a sua função e o seu nome, para que não se perdesse aquele que fizera à sua imagem. Primeiro e último Adão: o primeiro teve princípio; o último não terá fim. Por isso é que o último é verdadeiramente o primeiro, como Ele mesmo diz: "Eu sou o Primeiro e o Último"»222.

Ver também§ 1701§ 388§ 411

  1. 221II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 22: AAS 58 (1966) 1042.
  2. 222São Pedro Crisólogo, Sermones 117, 1-2: CCL 24A, 709 (PL 52, 520) [2ª leit. do Ofício de Leituras de Sábado da XXIX Semana do Tempo Comum: Liturgia das Horas (Gráfica de Coimbra 1983), v. 4, p. 440].
360

Graças à comunidade de origem, o género humano forma uma unidade. Deus «fez, a partir de um só homem todo o género humano para habitar sobre toda a face da terra» (Act 17, 26)223:

«Maravilhosa visão, que nos faz contemplar o género humano na unidade da sua origem em Deus [...]; na unidade da sua natureza, em todos igualmente integrada dum corpo material e duma alma espiritual; na unidade do seu fim imediato e da sua missão no mundo; na unidade da sua habitação, a terra, de cujos bens todos os homens, por direito natural, podem servir-se para sustentar e desenvolver a vida; na unidade do seu fim sobrenatural. Deus, para o Qual todos devem tender, na unidade dos meios para atingir este fim; [...] na unidade da Redenção, para todos levada a cabo por Cristo»224.

Ver também§ 225§ 404§ 775§ 831§ 842

  1. 223Cf. Tb 8, 6.
  2. 224Pio XII, Enc. Summi Pontificatus: AAS 31 (1939) 427: II Concílio Vaticano, Decl. Nostra aetate, 1: AAS 58 (1966) 740.
361

«Esta lei de solidariedade humana e de caridade»225, sem excluir a rica variedade das pessoas, das culturas e dos povos, assegura-nos que todos os homens são verdadeiramente irmãos.

Ver também§ 1939

  1. 225Pio XII. Enc. Summi Pontificatus: AAS 31 (1939) 426.
II. «Corpore et anima unus» – Unidade de corpo e alma
362

A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual. A narrativa bíblica exprime esta realidade numa linguagem simbólica, quando afirma que «Deus formou o homem com o pó da terra, insuflou-lhe pelas narinas um sopro de vida, e o homem tornou-se num ser vivo» (Gn 2, 7). O homem, no seu ser total, foi, portanto, querido por Deus.

Ver também§ 1146§ 2332

363

Muitas vezes, a palavra alma designa, nas Sagradas Escrituras, a vida humana226, ou a pessoa humana no seu todo227. Mas designa também o que há de mais íntimo no homem228 e de maior valor na sua pessoa229, aquilo que particularmente faz dele imagem de Deus: «alma» significa o princípio espiritual no homem.

Ver também§ 1703

  1. 226Cf. Mt 16, 25-26; Jo 15. 13
  2. 227Cf. Act 2, 41.
  3. 228Cf. Mt 26, 38; Jo 12, 27.
  4. 229Cf. Mt 10, 28; 2 Mac 6, 30.
364

O corpo do homem participa na dignidade da «imagem de Deus»: é corpo humano precisamente por ser animado pela alma espiritual, e a pessoa humana na sua totalidade é que é destinada a tornar-se, no Corpo (Místico) de Cristo, templo do Espírito230:

«Corpo e alma, mas realmente uno, o homem, na sua condição corporal, reúne em si mesmo os elementos do mundo material, que assim nele encontram a sua consumação e nele podem louvar Livremente o seu Criador. Por isso, não é lícito ao homem menosprezar a vida do corpo. Pelo contrário, deve estimar e respeitar o seu corpo, que foi criado por Deus e que há-de ressuscitar no último dia»231.

Ver também§ 1004§ 2289

  1. 230Cf. 1 Cor 6, 19-20; 15, 44-45.
  2. 231II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 14: AAS 58 (1966) 1035.
365

A unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a «forma» do corpo232; quer dizer, é graças à alma espiritual que o corpo, constituído de matéria, é um corpo humano e vivo. No homem, o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, mas a sua união forma uma única natureza.

  1. 232Cf. Concílio de Viena (ano 1312), Const. «Fidei catholicae»: DS 902.
366

A Igreja ensina que cada alma espiritual é criada por Deus de modo imediato233 e não produzida pelos pais; e que é imortal234, isto é, não morre quando, na morte, se separa do corpo; e que se unirá de novo ao corpo na ressurreição final.

Ver também§ 1005§ 997

  1. 233Cf. Pio XII, Enc. Humani generis (ano 1950): DS 3896; Paulo VI, Sollemnis Professio fidei, 8: AAS 60 (1968) 436.
  2. 234Cf. V Concílio de Latrão (ano 1513), Bulla Apostolici regiminis: DS 1440.
367

Encontra-se às vezes uma distinção entre alma e espírito. São Paulo, por exemplo, ora para que «todo o nosso ser, o espírito, a alma e o corpo», seja guardado sem mancha até à vinda do Senhor (1 Ts 5, 23). A Igreja ensina que esta distinção não introduz uma dualidade na alma235, «Espírito» significa que o homem é ordenado, desde a sua criação, para o seu fim sobrenatural236, e que a alma é capaz de ser gratuitamente sobreelevada até à comunhão com Deus237.

Ver também§ 2083

  1. 235IV Concílio de Constantinopla (ano 870), canon 11: DS 657.
  2. 236Cf. I Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 2: DS 3005; II Concílio Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 22: AAS 58 (1966) 1042-1043.
  3. 237Cf. Pio XII, Enc. Humani generis (ano 1950): DS 3891.
368

A tradição espiritual da Igreja insiste também no coração,no sentido bíblico de «fundo do ser» («nas entranhas»: Jr 31, 33) em que a pessoa se decide ou não por Deus238.

Ver também§ 478§ 582§ 1431§ 1764§ 2517§ 2562§ 2843

  1. 238Cf. Dt 6, 5; 29, 3; Is 29, 13; Ez 36, 26; Mt 6, 21: Lc 8, 15; Rm 5, 5.
III. «Homem e mulher os criou»
IGUALDADE E DIFERENÇA QUERIDAS POR DEUS
369

O homem e a mulher foram criados, quer dizer, foram queridos por Deus: em perfeita igualdade enquanto pessoas humanas, por um lado; mas, por outro, no seu respectivo ser de homem e de mulher. «Ser homem», «ser mulher» é uma realidade boa e querida por Deus: o homem e a mulher têm uma dignidade inamissível e que lhes vem imediatamente de Deus, seu Criador239. O homem e a mulher são, com uma mesma dignidade, «à imagem de Deus». No seu «ser homem» e no seu «ser mulher», reflectem a sabedoria e a bondade do Criador.

  1. 239Cf. Gn 2, 7.22.
370

Deus não é, de modo algum; à imagem do homem. Não é nem homem nem mulher. Deus é puro espírito, no Qual não há lugar para a diferença de sexos. Mas as «perfeições» do homem e da mulher reflectem qualquer coisa da infinita perfeição de Deus: as duma mãe240 e as dum pai e esposo241.

Ver também§ 42§ 239

  1. 240Cf. Is 49, 14-15; 66, 13; Sl 131, 2-3.
  2. 241Cf. Os 11, 1-4; Jr 3, 4-19.
«UM PARA O OUTRO» – «UMA UNIDADE A DOIS»
371

Criados juntamente, o homem e a mulher são, na vontade de Deus, um para o outro. A Palavra de Deus no-lo dá a entender em diversos passos do texto sagrado. «Não convém que o homem esteja só: vou fazer-lhe uma ajudante que se pareça com ele» (Gn 2, 18). Nenhum dos animais pode ser este «par» do homem242. A mulher que Deus «molda» da costela tirada do homem e que apresenta ao homem, provoca da parte deste, uma exclamação admirativa, de amor e comunhão: «E osso dos meus ossos e carne da minha carne» (Ga 2, 23). O homem descobre a mulher como um outro «eu», da mesma humanidade.

Ver também§ 1605

  1. 242Cf. Gn 2, 19-20.
372

O homem e a mulher são feitos «um para o outro»: não é que Deus os tenha feito «a meias» e «incompletos»; criou-os para uma comunhão de pessoas, em que cada um pode ser «ajuda» para o outro, uma vez que são, ao mesmo tempo, iguais enquanto pessoas («osso dos meus ossos») e complementares enquanto masculino e feminino243. No matrimónio, Deus une-os de modo que, formando «uma só carne» (Gn 2, 24), possam transmitir a vida humana: «crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra» (Gn 1, 28). Transmitindo aos seus descendentes a vida humana, o homem e a mulher, como esposos e pais, cooperam de modo único na obra do Criador244.

Ver também§ 1652§ 2366

  1. 243Cf. João Paulo II, Ep. ap. Mulieris dignitatem, 7: AAS 80 (1988) 1664-1665.
  2. 244Cf. II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 50: AAS 58 (1966) 1070-1071.
373

Segundo o desígnio de Deus, o homem e a mulher são vocacionados para «dominarem a terra»245 como «administradores» de Deus. Esta soberania não deve ser uma dominação arbitrária e destruidora. A imagem do Criador, «que ama tudo o que existe» (Sb 11, 24), o homem e a mulher são chamados a participar na Providência divina em relação às outras criaturas. Daí a sua responsabilidade para com o mundo que Deus lhes confiou.

Ver também§ 307§ 2415

  1. 245Cf. Gn 1, 28.
IV. O homem no paraíso
374

O primeiro homem não só foi criado bom, como também foi constituído num estado de amizade com o seu Criador, e de harmonia consigo mesmo e com a criação que o rodeava; amizade e harmonia tais, que só serão ultrapassadas pela glória da nova criação em Cristo.

Ver também§ 54

375

A Igreja, interpretando de modo autêntico o simbolismo da linguagem bíblica à luz do Novo Testamento e da Tradição, ensina que os nossos primeiros pais, Adão e Eva, foram constituídos num estado de santidade e de justiça originais246. Esta graça da santidade original era uma participação na vida divina247.

Ver também§ 1997

  1. 246Cf. Concílio de Trento, Sess. 5.°. Decretum de peccato originali, canon 1: DS1511.
  2. 247Cf. I Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 2: AAS 57 (1965) 5-6.
376

Todas as dimensões da vida do homem eram fortalecidas pela irradiação desta graça. Enquanto permanecesse na intimidade divina, o homem não devia nem morrer248, nem sofrer249. A harmonia interior da pessoa humana, a harmonia entre o homem e a mulher250, enfim, a harmonia entre o primeiro casal e toda a criação, constituía o estado dito «de justiça original».

Ver também§ 1008§ 1502

  1. 248Cf. Gn 2, 17; 3, 19.
  2. 249Cf. Gn 3, 16.
  3. 250Cf. Gn 2, 25.
377

O «domínio» do mundo, que Deus tinha concedido ao homem desde o princípio, realizava-se, antes de mais, no próprio homem como domínio de si. O homem era integrado e ordenado em todo o seu ser, porque livre da tríplice concupiscência251, que o sujeita aos prazeres dos sentidos, à ambição dos bens terrenos e à afirmação de si contra os imperativos da razão.

Ver também§ 2514

  1. 251Cf. 1 Jo 2, 16.
378

Sinal da familiaridade com Deus é o facto de Deus o colocar no jardim252. Ali vive «a fim de o cultivar e guardar» (Gn 2, 15): o trabalho não é um castigo253, mas a colaboração do homem e da mulher com Deus no aperfeiçoamento da criação visível.

Ver também§ 2415§ 2427

  1. 252Cf. Gn 2, 8.
  2. 253Cf. Gn 3, 17-19.
379

Toda esta harmonia da justiça original, prevista para o homem pelo plano de Deus, será perdida pelo pecado dos nossos primeiros pais.

Resumindo:
380

«Formastes o homem à vossa imagem e lhe confiastes o Universo, para que, servindo-Vos unicamente a Vós, seu Criador; exercesse domínio sobre todas as criaturas»254.

  1. 254Oração eucarística IV 118: Missale Romanum, editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1970), p. 467 [Missal Romano. Gráfica de Coimbra 1992. 538].
381

O homem foi predestinado para reproduzir a imagem do Filho de Deus feito homem –«imagem do Deus invisível» (Cl 1, 15) –, para que Cristo seja o primogénito duma multidão de irmãos e irmãs255.

  1. 255Cf. Ef 1, 3-6: Rm 8, 29.
382

O homem é «uma unidade de corpo e alma»256. A doutrina da fé afirma que a alma espiritual e imortal foi criada imediatamente por Deus.

  1. 256II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 14: AAS 58 (1966) 1035.
383

«Deus não criou o homem solitário: desde a origem "criou-os homem e mulher" (Gn 1, 27); a sociedade dos dois realiza a primeira forma de comunhão entre pessoas»257.

  1. 257II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 12: AAS 58 (1966) 1034.
384

A Revelação dá-nos a conhecer o estado de santidade e justiça originais do homem e da mulher, antes do pecado: da amizade de ambos com Deus derivava a felicidade da sua existência no paraíso.

PARÁGRAFO 7
A QUEDA
385

Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. No entanto, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males da natureza – que aparecem como ligados aos limites próprios das criaturas –, e sobretudo à questão do mal moral. Donde vem o mal? «Quaerebam unde malum et non erat exitus – Procurava a origem do mal e não encontrava solução», diz Santo Agostinho258. A sua própria busca dolorosa só encontrará saída na conversão ao Deus vivo. Porque «o mistério da iniquidade» (2 Ts 2, 7) só se esclarece à luz do «mistério da piedade»259. A revelação do amor divino em Cristo manifestou, ao mesmo tempo, a extensão do mal e a superabundância da graça260. Devemos, portanto, abordar a questão da origem do mal, fixando o olhar da nossa fé n'Aquele que é o seu único vencedor261.

Ver também§ 309§ 457§ 1848§ 539

  1. 258Santo Agostinho, Confissões 7, 7. 11: CCL 27. 99 (PL 32, 739).
  2. 259Cf. 1 Tm 3, 16.
  3. 260Cf. Rm 5, 20.
  4. 261Cf. Lc 11, 21-22: Jo 16, 11; 1 Jo 3, 8.
I. «Onde abundou o pecado, sobreabundou a graça»
A REALIDADE DO PECADO
386

O pecado está presente na história do homem. Seria vão tentar ignorá-lo ou dar outros nomes a esta obscura realidade. Para tentar compreender o que é o pecado, temos primeiro de reconhecer o laço profundo que une o homem a Deus, porque, fora desta relação, o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e oposição a Deus, embora continue a pesar na vida do homem e na história.

Ver também§ 1847

387

A realidade do pecado e, dum modo particular, a do pecado das origens, só se esclarece à luz da Revelação divina. Sem o conhecimento que esta nos dá de Deus, não se pode reconhecer claramente o pecado, e somos tentados a explicá-lo unicamente como falta de maturidade, fraqueza psicológica, erro, consequência necessária duma estrutura social inadequada, etc. Só no conhecimento do desígnio de Deus sobre o homem é que se compreende que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-Lo e amarem-se mutuamente.

Ver também§ 1848§ 1739

O PECADO ORIGINAL – UMA VERDADE FUNDAMENTAL DA FÉ
388

Com o progresso da Revelação, vai-se esclarecendo também a realidade do pecado. Embora o povo de Deus do Antigo Testamento tenha abordado a dor da condição humana à luz da história da queda narrada no Génesis, não podia atingir o significado último dessa história, o qual só se manifesta à luz da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo262. É preciso conhecer Cristo como fonte da graça para reconhecer Adão como fonte do pecado. Foi o Espírito Paráclito, enviado por Cristo ressuscitado, que veio «confundir o mundo em matéria de pecado» (Jo 16, 8), revelando Aquele que é o seu redentor.

Ver também§ 431§ 208§ 359§ 729

  1. 262Cf. Rm 5, 12-21.
389

A doutrina do pecado original é, por assim dizer, «o reverso» da Boa-Nova de que Jesus é o Salvador de todos os homens, de que todos têm necessidade da salvação e de que a salvação é oferecida a todos, graças a Cristo. A Igreja, que tem o sentido de Cristo263, sabe bem que não pode tocar-se na revelação do pecado original sem atentar contra o mistério de Cristo.

Ver também§ 422

  1. 263Cf. I Cor 2, 16.
PARA LER A NARRATIVA DA QUEDA
390

A narrativa da queda (Gn 3) utiliza uma linguagem feita de imagens, mas afirma um acontecimento primordial, um facto que teve lugar no princípio da história do homem264. A Revelação dá-nos uma certeza de fé de que toda a história humana está marcada pela falta original, livremente cometida pelos nossos primeiros pais265.

Ver também§ 289

  1. 264Cf. II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 13: AAS 58 (1966) 1034-1035.
  2. 265Cf. Concílio de Trento, Sess. 5.º, Decretum de peccato originali, canon 3: DS1513: Pio XII, Enc. Humani generis: DS 3897: Paulo VI, Alocução aos participantes no «simpósio» teológico sobre o pecado original (11 de Julho de 1966): AAS 58 (1966) 649-655.
II. A queda dos anjos
391

Por detrás da opção de desobediência dos nossos primeiros pais, há uma voz sedutora, oposta a Deus266, a qual, por inveja, os faz cair na morte267. A Escritura e a Tradição da Igreja vêem neste ser um anjo decaído, chamado Satanás ou Diabo268. Segundo o ensinamento da Igreja, ele foi primeiro um anjo bom, criado por Deus. «Diabolus enim et alii daemones a Deo quidem natura creati sunt boni, sed ipsi per se facti sunt mali – De facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si, é que se fizeram maus»269.

Ver também§ 2538

  1. 266Cf. Gn 3, 1-5.
  2. 267Cf. Sb 2, 24.
  3. 268Cf. Jo 8, 44; Ap 12, 9.
  4. 269IV Concílio de Latrão (ano 1215), Cap. 1, De fide catholica: DS 800.
392

A Escritura fala dum pecado destes anjos270. A queda consiste na livre opção destes espíritos criados, que radical e irrevogavelmente recusaram Deus e o seu Reino. Encontramos um reflexo desta rebelião nas palavras do tentador aos nossos primeiros pais: «Sereis como Deus» (Gn 3, 5). O Diabo é «pecador desde o princípio» (1 Jo 3, 8), «pai da mentira» (Jo 8, 44).

Ver também§ 1850§ 2482

  1. 270Cf. 2 Pe 2, 4.
393

É o carácter irrevogável da sua opção, e não uma falha da infinita misericórdia de Deus, que faz com que o pecado dos anjos não possa ser perdoado. «Não há arrependimento para eles depois da queda, tal como não há arrependimento para os homens depois da morte»271.

Ver também§ 1033–1037§ 1022

  1. 271São João Damasceno, Expositio fidei [De fide orthodoxa 2, 4]: PTS 12, 50 (PG 94, 877).
394

A Escritura atesta a influência nefasta daquele que Jesus chama «o assassino desde o princípio» (Jo 8, 44), e que chegou ao ponto de tentar desviar Jesus da missão recebida do Pai272. «Foi para destruir as obras do Diabo que apareceu o Filho de Deus» (1 Jo 3, 8). Dessas obras, a mais grave em consequências foi a mentirosa sedução que induziu o homem a desobedecer a Deus.

Ver também§ 539–540§ 550§ 2846–2849

  1. 272Cf. Mt 4, 1-11.
395

No entanto, o poder de Satanás não é infinito. Satanás é uma simples criatura, poderosa pelo facto de ser puro espírito, mas, de qualquer modo, criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus. Embora Satanás exerça no mundo a sua acção, por ódio contra Deus e o seu reinado em Jesus Cristo, e embora a sua acção cause graves prejuízos – de natureza espiritual e indirectamente, também, de natureza física – a cada homem e à sociedade, essa acção é permitida pela divina Providência, que com força e suavidade dirige a história do homem e do mundo. A permissão divina da actividade diabólica é um grande mistério. Mas «nós sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8, 28).

Ver também§ 309§ 1673§ 412§ 2850–2854

III. O pecado original
A PROVA DA LIBERDADE
396

Deus criou o homem «à sua imagem» e constituiu-o na sua amizade. Criatura espiritual, o homem só pode viver esta amizade na modalidade da livre submissão a Deus. É isso o que exprime a proibição feita ao homem de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, «pois no dia em que o comeres, morrerás» (Gn 2, 17). A «árvore de conhecer o bem e o mal» (Gn 2, 17) evoca simbolicamente o limite intransponível que o homem, como criatura, deve livremente reconhecer e confiadamente respeitar. O homem depende do Criador. Está sujeito às leis da criação e às normas morais que regulam o exercício da liberdade.

Ver também§ 1730§ 311§ 301

O PRIMEIRO PECADO DO HOMEM
397

Tentado pelo Diabo, o homem deixou morrer no coração a confiança no seu Criador273. Abusando da liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. Nisso consistiu o primeiro pecado do homem274. Daí em diante, todo o pecado será uma desobediência a Deus e uma falta de confiança na sua bondade.

Ver também§ 1707§ 2541§ 1850§ 215

  1. 273Cf Gn 3, 1-11.
  2. 274Cf. Rm 5, 19.
398

Neste pecado, o homem preferiu-se a si próprio a Deus, e por isso desprezou Deus: optou por si próprio contra Deus, contra as exigências da sua condição de criatura e, daí, contra o seu próprio bem. Constituído num estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente «divinizado» por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis «ser como Deus»275, mas «sem Deus, em vez de Deus, e não segundo Deus»276.

Ver também§ 2084§ 2113

  1. 275Cf. Gn 3, 5.
  2. 276São Máximo o Confessor, Ambiguorum liber: PG 91, 1156.
399

A Escritura refere as consequências dramáticas desta primeira desobediência: Adão e Eva perdem imediatamente a graça da santidade original277. Têm medo daquele Deus278 de quem se fizeram uma falsa imagem: a dum Deus ciumento das suas prerrogativas279.

  1. 277Cf. Rm 3, 23.
  2. 278Cf. Gn 3, 9-10.
  3. 279Cf. Gn 3, 5.
400

A harmonia em que viviam, graças à justiça original, ficou destruída; o domínio das faculdades espirituais da alma sobre o corpo foi quebrado280; a união do homem e da mulher ficou sujeita a tensões281; as suas relações serão marcadas pela avidez e pelo domínio282. A harmonia com a criação desfez-se: a criação visível tornou-se, para o homem, estranha e hostil283. Por causa do homem, a criação ficou sujeita «à servidão da corrupção»284. Enfim, vai concretizar-se a consequência explicitamente anunciada para o caso da desobediência285: o homem «voltará ao pó de que foi formado»286. A morte faz a sua entrada na história da humanidade287.

Ver também§ 1607§ 2514§ 602§ 1008

  1. 280Cf. Gn 3, 7.
  2. 281Cf. Gn 3, 11-13.
  3. 282Cf. Gn 3, 16.
  4. 283Cf. Gn 3, 17.19.
  5. 284Cf. Rm 8, 20.
  6. 285Cf. Gn 2, 17.
  7. 286Cf. Gn 3, 19.
  8. 287Cf. Rm 5, 12.
401

A partir deste primeiro pecado, uma verdadeira «invasão» de pecado inunda o mundo: o fratricídio cometido por Caim na pessoa de Abel288; a corrupção universal como consequência do pecado289. Na história de Israel, o pecado manifesta-se com frequência, sobretudo como uma infidelidade ao Deus da Aliança e como transgressão da lei de Moisés. Mesmo depois da redenção de Cristo, o pecado manifesta-se de muitas maneiras entre os cristãos290. A Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja não se cansam de lembrar a presença e a universalidade do pecado na história do homem.

«O que a Revelação divina nos dá a conhecer, concorda com os dados da experiência. Quando o homem olha para dentro do seu próprio coração, descobre-se inclinado também para o mal, e imerso em muitos males, que não podem provir do seu Criador, que é bom. Muitas vezes, recusando reconhecer Deus como seu princípio, o homem perturbou, por isso mesmo, a sua ordenação para o fim último e, ao mesmo tempo, toda a harmonia consigo próprio, com os outros homens e com toda a criação»291.

Ver também§ 1865§ 2259§ 1739

  1. 288Cf. Gn 4, 3-15.
  2. 289Cf. Gn 6, 5.12; Rm 1, 18-32.
  3. 290Cf. 1 Cor 1-6; Ap 2-3.
  4. 291I Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 13: AAS 58 (1966) 1035.
CONSEQUÊNCIAS DO PECADO DE ADÃO PARA A HUMANIDADE
402

Todos os homens estão implicados no pecado de Adão. É São Paulo quem o afirma: «pela desobediência de um só homem, muitos [quer dizer, a totalidade dos homens] se tornaram pecadores» (Rm 5, 19): «Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte atingiu todos os homens, porque todos pecaram» (Rm 5, 12). A universalidade do pecado e da morte, o Apóstolo opõe a universalidade da salvação em Cristo: «Assim como, pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só [Cristo], virá para todos a justificação que dá a vida» (Rm 5, 18).

Ver também§ 430§ 605

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Catecismo — texto oficial · © Libreria Editrice Vaticana · vatican.va

Sagrada Escritura — Bíblia Sagrada, edição Ave Maria

Padres da Igreja, Doutores e Suma Teológica · newadvent.org

S. Josemaría Escrivá · escriva.org

Concílios e documentos papais · Santa Sé · vatican.va

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Curso de doutrina católica em 10 sessões — aulas do Pe. Miguel Cabral · Oratório de São Josemaria
Vídeo e áudio pertencem ao Oratório; aqui só se liga a cada aula e se juntam as perguntas do Compêndio e os parágrafos do Catecismo.

Índice analítico e índice litúrgico · catecismo.net
Do catecismo.net vêm só os índices: que parágrafos correspondem a cada termo e a cada dia litúrgico. O texto é sempre o do vatican.va.

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