Catecismo
Bíblia · ed. Ave Maria
Código de Direito Canónico
Cân.
Documento

§ 436–469

II. Cristo
436

Cristo vem da tradução grega do termo hebraico «Messias», que quer dizer «ungido». Só se torna nome próprio de Jesus porque Ele cumpre perfeitamente a missão divina que tal nome significa. Com efeito, em Israel eram ungidos, em nome de Deus, aqueles que Lhe eram consagrados para uma missão d'Ele dimanada. Era o caso dos reis25, dos sacerdotes26 e, em raros casos, dos profetas27. Este devia ser, por excelência, o caso do Messias, que Deus enviaria para estabelecer definitivamente o seu Reino28. O Messias devia ser ungido pelo Espírito do Senhor29, ao mesmo tempo como rei e sacerdote30 mas também como profeta31. Jesus realizou a expectativa messiânica de Israel na sua tríplice função de sacerdote, profeta e rei.

Ver também§ 690§ 695§ 711–716§ 783

  1. 25Cf. ; 10, 1; 16, 1.12-13: 1 Rc 1, 39.
  2. 26Cf. ; .
  3. 27Cf. .
  4. 28Cf. ; .
  5. 29Cf. .
  6. 30Cf. ; 6, 13.
  7. 31Cf. ; .
437

O anjo anunciou aos pastores o nascimento de Jesus como sendo o do Messias prometido a Israel: «nasceu-vos hoje, na cidade de David, um salvador que é Cristo, Senhor» (). Desde a origem, Ele é «Aquele que o Pai consagrou e enviou ao mundo» (), concebido como «santo» no seio virginal de Maria32. José foi convidado por Deus a «levar para sua casa Maria, sua esposa», grávida d'«Aquele que nela foi gerado pelo poder do Espírito Santo» (), para que Jesus, «chamado Cristo», nascesse da esposa de José, na descendência messiânica de David ()33.

Ver também§ 525§ 486

  1. 32Cf. .
  2. 33Cf. ; : Ap 22. 16.
438

A consagração messiânica de Jesus manifesta a sua missão divina. «Aliás, é o que indica o seu próprio nome; porque no nome de Cristo está subentendido Aquele que ungiu. Aquele que foi ungido e a própria Unção com que foi ungido. Aquele que ungiu é o Pai, Aquele que foi ungido é o Filho, e foi-o no Espírito que é a Unção»34. A sua eterna consagração messiânica revelou-se no tempo da sua vida terrena, quando do seu baptismo por João, altura em que «Deus O ungiu com o Espírito Santo e poder» (), «para que se manifestasse a Israel» () como seu Messias. As suas obras e palavras dá-lo-ão a conhecer como «o santo de Deus»35.

Ver também§ 727§ 535

  1. 34Santo Ireneu de Lyon, Adversus Haereses 3, 18, 3; SC 211, 350 (PG 7, 934).
  2. 35Cf. ; ; .
439

Numerosos judeus, e mesmo alguns pagãos que partilhavam da sua esperança, reconheceram em Jesus os traços fundamentais do messiânico «filho de David», prometido por Deus a Israel36. Jesus aceitou o título de Messias a que tinha direito37, mas não sem reservas, uma vez que esse título era compreendido, por numerosos dos seus contemporâneos, segundo um conceito demasiado humano38, essencialmente político39.

Ver também§ 528§ 529§ 547

  1. 36Cf. ; 9, 27; 12, 23; 15, 22; 20, 30; 21, 9.15.
  2. 37Cf. ; 11, 27.
  3. 38Cf. .
  4. 39Cf. ; .
440

Jesus aceitou a profissão de fé de Pedro, que O reconhecia como o Messias, anunciando a paixão próxima do Filho do Homem40. Revelou o conteúdo autêntico da sua realeza messiânica, ao mesmo tempo na identidade transcendente do Filho do Homem «que desceu do céu» ()41 e na sua missão redentora como Servo sofredor: «O Filho do Homem [...] não veio para ser servido, veio para servir e dar a vida como resgate pela multidão» ()42. Foi por isso que o verdadeiro sentido da sua realeza só se manifestou do cimo da cruz43. E só depois da ressurreição, a sua realeza messiânica poderá ser proclamada por Pedro perante o Povo de Deus: «Saiba, com absoluta certeza, toda a casa de Israel, que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes» ().

Ver também§ 552§ 550§ 445

  1. 40Cf. .
  2. 41Cf. ; .
  3. 42Cf. .
  4. 43Cf. ; .
III. Filho único de Deus
441

Filho de Deus, no Antigo Testamento, é um título dado aos anjos44, ao povo eleito45 aos filhos de Israel46 e aos seus reis47. Nestes casos, significa uma filiação adoptiva, que estabelece entre Deus e a sua criatura relações de particular intimidade. Quando o Rei-Messias prometido é chamado «filho de Deus»48, isso não implica necessariamente, segundo o sentido literal de tais textos, que Ele seja mais que um simples ser humano. Os que assim designaram Jesus, enquanto Messias de Israel49, talvez não tenham querido dizer mais50.

  1. 44Cf. Dt (LXX) 32, 8; Job 1. 6.
  2. 45Cf. ; ; : ; .
  3. 46Cf. ; .
  4. 47Cf. ; .
  5. 48Cf. ; Sl 2. 7.
  6. 49Cf. .
  7. 50Cf. .
442

Mas não é este o caso de Pedro, quando confessa Jesus como «Cristo, o Filho de Deus vivo»51, porque Jesus responde-lhe solenemente: «não foram a carne nem o sangue que to revelaram, mas sim o meu Pai que está nos céus» (). De igual modo, Paulo dirá, a propósito da sua conversão no caminho de Damasco: «Quando aprouve a Deus – que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça – revelar o seu Filho em mim, para que O anuncie como Evangelho aos gentios...» (). «E logo começou a proclamar nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus» (). Será este, desde o princípio52,o núcleo da fé apostólica53, primeiramente professada por Pedro como fundamento da Igreja54.

Ver também§ 552§ 424

  1. 51Cf. .
  2. 52Cf. .
  3. 53Cf. .
  4. 54Cf. .
443

Se Pedro pôde reconhecer o carácter transcendente da filiação divina de Jesus-Messias, foi porque Este lha deixou perceber nitidamente. Diante do Sinédrio, à pergunta dos seus acusadores: «Então, tu és o Filho de Deus?» Jesus respondeu: «É como dizeis, sou» ()55. Já muito antes, Ele Se designara como «o Filho» que conhece o Pai56, diferente dos «servos» que Deus anteriormente enviara ao seu povo57, superior aos próprios anjos58. Ele distinguiu a sua filiação da dos Seus discípulos, nunca dizendo «Pai nosso»59, a não ser para lhes ordenar: «vós, quando rezardes, dizei assim: Pai nosso» (); e sublinhou esta distinção: «o meu Pai e vosso Pai» ().

Ver também§ 2786

  1. 55Cf. ; .
  2. 56Cf. ; 21, 37-38.
  3. 57Cf. .
  4. 58Cf. .
  5. 59Cf. ; 6, 8; 7. 21; .
444

Os evangelhos referem, em dois momentos solenes, no baptismo e na transfiguração de Cristo, a voz do Pai, que O designa como seu «filho muito-amado»60. Jesus designa-Se a Si próprio como «o Filho único de Deus» (), afirmando por este título a sua preexistência eterna61. E exige a fé «no nome do Filho único de Deus» (). Esta profissão de fé cristã aparece já na exclamação do centurião diante de Jesus crucificado: «Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!» (); porque somente no Mistério Pascal o crente pode dar pleno significado ao título de «Filho de Deus».

Ver também§ 536§ 554

  1. 60Cf. ; 17, 5.
  2. 61Cf. .
445

É depois da ressurreição que a filiação divina de Jesus aparece no poder da sua humanidade glorificada: «Segundo o Espírito santificante, pela sua ressurreição de entre os mortos, Ele foi estabelecido como Filho de Deus em poder» ()62. E os Apóstolos poderão confessar: «Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como a Filho único, cheio de graça e de verdade» ().

Ver também§ 653

  1. 62Cf. .
IV. Senhor
446

Na tradução grega dos Livros do Antigo Testamento, o nome inefável sob o qual Deus Se revelou a Moisés63, YHWH, é traduzido por « Kyrios» («Senhor»). Senhor torna-se, desde então, o nome mais habitual para designar a própria divindade do Deus de Israel. É neste sentido forte que o Novo Testamento utiliza o título de «Senhor», tanto para o Pai como também – e aí é que está a novidade – para Jesus, assim reconhecido como sendo Ele próprio Deus64.

Ver também§ 209

  1. 6363 Cf. .
  2. 64Cf. .
447

O próprio Jesus veladamente atribui a Si mesmo este título, quando discute com os fariseus sobre o sentido do Salmo 11065, e também, de modo explícito, ao dirigir-Se aos Apóstolos66. Ao longo de toda a vida pública, os seus gestos de domínio sobre a natureza, sobre as doenças, sobre os demónios, sobre a morte e o pecado, demonstravam a sua soberania divina.

Ver também§ 548

  1. 65Cf. ; cf. também Act 2. 34-36; .
  2. 66Cf. .
448

Muitíssimas vezes, nos evangelhos, aparecem pessoas que se dirigem a Jesus chamando-lhe «Senhor». Este título exprime o respeito e a confiança dos que se aproximam de Jesus e d'Ele esperam socorro e cura67. Pronunciado sob a moção do Espírito Santo, exprime o reconhecimento do Mistério divino de Jesus68. No encontro com Jesus ressuscitado, transforma-se em adoração: «Meu Senhor e meu Deus» (). Assume então uma conotação de amor e afeição, que vai ficar como típica da tradição cristã: «E o Senhor!» ().

Ver também§ 208§ 683§ 641

  1. 67Cf. : 14, 30; 15, 22: etc.
  2. 68Cf. ; 2, 11.
449

Ao atribuir a Jesus o título divino de Senhor, as primeiras confissões de fé da Igreja afirmam, desde o princípio69, que o poder, a honra e a glória, devidos a Deus Pai, também são devidos a Jesus70, porque Ele é «de condição divina» () e o Pai manifestou esta soberania de Jesus ressuscitando-O de entre os mortos e exaltando-O na sua glória71.

Ver também§ 461§ 653

  1. 69Cf. .
  2. 70Cf. ; : .
  3. 71Cf. ; ; Fl 2. 9-11.
450

Desde o princípio da história cristã, a afirmação do senhorio de Jesus sobre o mundo e sobre a história72 significa também o reconhecimento de que o homem não deve submeter a sua liberdade pessoal, de modo absoluto, a nenhum poder terreno, mas somente a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo: César não é o «Senhor»73. «A Igreja crê... que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontra no seu Senhor e Mestre»74.

Ver também§ 668–672§ 2242

  1. 72Cf. .
  2. 73Cf.; .
  3. 74II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 10; AAS 58 (1966) 1033; cf. ibid., 45: AAS 58 (1966) 1066
451

A oração cristã é marcada pelo título de «Senhor», quer no convite à oração: «O Senhor esteja convosco», quer na conclusão da mesma: «Por nosso Senhor Jesus Cristo», quer ainda pelo grito cheio de confiança e de esperança: «Maran atha» («O Senhor vem!») ou «Marana tha» («Vem, Senhor!») (): «Amen, vem, Senhor Jesus!» ().

Ver também§ 2664–2665§ 2817

Resumindo:
452

O nome de Jesus significa «Deus salva». O menino nascido da Virgem Maria é chamado «Jesus», «porque salvará o seu povo dos seus pecados» (); «não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos» ().

453

O nome de Cristo significa «Ungido», «Messias». Jesus é Cristo, porque «Deus O ungiu com o Espírito Santo e o poder» (). Ele era «Aquele que estava para vir» (), o objecto da «esperança de Israel»75.

  1. 75Cf. .
454

O nome de Filho de Deus significa a relação única e eterna de Jesus Cristo com Deus seu Pai: Ele é o Filho único do Pai76 e, Ele próprio, Deus77. Crer que Jesus Cristo é o Filho de Deus é condição necessária para ser cristão78.

  1. 76Cf. , 18; 3, 16,18.
  2. 77Cf. .
  3. 78Cf. ; , 7
455

O nome de Senhor significa a soberania divina. Confessar ou invocar Jesus como Senhor é crer na sua divindade. «Ninguém pode dizer "Jesus é Senhor", a não ser pela acção do Espírito Santo» ().

ARTIGO 3
«JESUS CRISTO FOI CONCEBIDO PELO PODER DO ESPÍRITO SANTO E NASCEU DA VIRGEM MARIA»
PARÁGRAFO 1
O FILHO DE DEUS FEZ-SE HOMEM
I. Porque é que o Verbo encarnou?
456

Com o Credo Niceno-Constantinopolitano, respondemos confessando: «Por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus; e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e Se fez homem»79.

  1. 79DS 150.
457

O Verbo fez-Se carne para nos salvar, reconciliando-nos com Deus: «Foi Deus que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (). «O Pai enviou o Filho como salvador do mundo» (). «E Ele veio para tirar os pecados» ():

«Enferma, a nossa natureza precisava de ser curada; decaída, precisava de ser elevada; morta, precisava de ser ressuscitada. Tínhamos perdido a posse do bem; era preciso que nos fosse restituído. Encerrados nas trevas, precisávamos de quem nos trouxesse a luz; cativos, esperávamos um salvador: prisioneiros, esperávamos um auxílio; escravos, precisávamos dum libertador. Seriam razões sem importância? Não seriam suficientes para comover a Deus, a ponto de O fazer descer até à nossa natureza humana para a visitar, já que a humanidade se encontrava em estado tão miserável e infeliz?»80.

Ver também§ 607§ 385

  1. 80São Gregório de Nissa, Oratio catechetica 15, 3: TD 7, 78 (PG 45, 48).
458

O Verbo fez-Se carne, para que assim conhecêssemos o amor de Deus: «Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele» (I ). «Porque Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» ().

Ver também§ 219

459

O Verbo fez-Se carne, para ser o nosso modelo de santidade: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim [...]» (). «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim» (). E o Pai, na montanha da Transfiguração, ordena: «Escutai-o» ()81. De facto, Ele é o modelo das bem-aventuranças e a norma da Lei nova: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (). Este amor implica a oferta efectiva de nós mesmos, no seu seguimento82.

Ver também§ 520§ 823§ 2012§ 1717§ 1965

  1. 81Cf. .
  2. 82Cf. .
460

O Verbo fez-Se carne, para nos tornar «participantes da natureza divina» (): «Pois foi por essa razão que o Verbo Se fez homem, e o Filho de Deus Se fez Filho do Homem: foi para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a adopção divina, se tornasse filho de Deus»83. «Porque o Filho de Deus fez-Se homem, para nos fazer deuses»84. «Unigenitus [...] Dei Filias, suae divinitatis volens nos esse participes, naturam nostram assumpsit, ut homines deos faceret factos homo – O Filho Unigénito de Deus, querendo que fôssemos participantes da sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses»84.

Ver também§ 1265§ 1391§ 1988

  1. 83Santo Ireneo de Lião, Adversus haereses 3, 19, 1: SC 211, 374 (PG 7, 939).
  2. 84Santo Atanasio, De Incarnatione, 54, 3: SC 199, 458 (PG 25, 192B).
II. A Encarnação
461

Retomando a expressão de São João («o Verbo fez-Se carne»: ), a Igreja chama «Encarnação» ao facto de o Filho de Deus ter assumido uma natureza humana, para nela levar a efeito a nossa salvação. Num hino que nos foi conservado por São Paulo, a Igreja canta este mistério:

«Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus. Ele, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de Cruz» ()86.

Ver também§ 653§ 661§ 449

  1. 86Cf. Cântico nas I Vésperas de Domingo: Liturgia Horarum, editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1973-1974), v. 1, p. 545.629.718 e 808: v. 2, p. 844.937.1037 e 1129: v. 3. p. 548.669.793 e 916; v. 4, p. 496.617.741 e 864 [Ed. portuguesa: Liturgia das Horas (Gráfica de Coimbra 1983), v. I. p. 621.710.803 e 897: v. 2, p. 984, 1079, 1182 e 1278; v. 3. p. 685.800.918 e 1032; v. 4, p.633.748.866 e 980].
462

A Epístola aos Hebreus fala do mesmo mistério:

«É por isso que, ao entrar neste mundo, Cristo diz: "Não quiseste sacrifícios e oferendas, mas formaste-Me um corpo. Holocaustos e imolações pelo pecado não Te foram agradáveis. Então Eu disse: Eis-Me aqui [...] para fazer a tua vontade"» (, citando o Sl 40. 7-9, segundo os LXX).

463

A fé na verdadeira Encarnação do Filho de Deus é o sinal distintivo da fé cristã: «Nisto haveis de reconhecer o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa a Jesus Cristo encarnado é de Deus» (). É esta a alegre convicção da Igreja desde o seu princípio, ao cantar «o grande mistério da piedade»: «Ele manifestou-Se na carne» ().

Ver também§ 90

III. Verdadeiro Deus e verdadeiro homem
464

O acontecimento único e absolutamente singular da Encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo seja em parte Deus e em parte homem, nem que seja o resultado de uma mistura confusa do divino com o humano. Ele fez-Se verdadeiro homem, permanecendo verdadeiro Deus. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Esta verdade da fé, teve a Igreja de a defender e clarificar no decurso dos primeiros séculos, perante heresias que a falsificavam.

Ver também§ 88

465

As primeiras heresias negaram menos a divindade de Cristo que a sua verdadeira humanidade (docetismo gnóstico). Desde os tempos apostólicos que a fé cristã insistiu sobre a verdadeira Encarnação do Filho de Deus «vindo na carne»87. Mas, a partir do século III, a Igreja teve de afirmar, contra Paulo de Samossata, num concilio reunido em Antioquia, que Jesus Cristo é Filho de Deus por natureza e não por adopção. O primeiro Concílio ecuménico de Niceia, em 325, confessou no seu Credo que o Filho de Deus é «gerado, não criado, consubstancial ('homoúsios') ao Pai»88; e condenou Ario, o qual afirmava que «o Filho de Deus saiu do nada»89 e devia ser «duma substância diferente da do Pai»90.

Ver também§ 242

  1. 87Cf. ; 2 Jo 7.
  2. 88Símbolo de Niceia: DS 125.
  3. 89Concílio de Nicéia, Epistula synodalis «Epeidê tês» ad Aegyptios: DS 130.
  4. 90Símbolo de Niceia: DS 126.
466

A heresia nestoriana via em Cristo uma pessoa humana unida à pessoa divina do Filho de Deus. Perante esta heresia, São Cirilo de Alexandria e o terceiro Concilio ecuménico, reunido em Éfeso em 431,confessaram que «o Verbo, unindo na sua pessoa uma carne animada por uma alma racional, Se fez homem»91. A humanidade de Cristo não tem outro sujeito senão a pessoa divina do Filho de Deus, que a assumiu e a fez sua desde que foi concebida. Por isso, o Concílio de Éfeso proclamou, cm 431, que Maria se tornou, com toda a verdade. Mãe de Deus, por ter concebido humanamente o Filho de Deus em seu seio: «Mãe de Deus, não porque o Verbo de Deus dela tenha recebido a natureza divina, mas porque dela recebeu o corpo sagrado, dotado duma alma racional, unido ao qual, na sua pessoa, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne»92.

Ver também§ 495

  1. 91Concílio de Éfeso, Epistula II Cyrilli Alexandrini ad Nestorium: DS250.
  2. 92Concílio de Éfeso, Epistola II Cyrilli Alexandrini ad Nestorium: DS251.
467

Os monofisitas afirmavam que a natureza humana tinha deixado de existir, como tal, em Cristo, sendo assumida pela sua pessoa divina de Filho de Deus. Confrontando-se com esta heresia, o quarto Concílio ecuménico, em Calcedónia, no ano de 451, confessou:

«Na sequência dos santos Padres, ensinamos unanimemente que se confesse um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, igualmente perfeito na divindade e perfeito na humanidade, sendo o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto duma alma racional e dum corpo, consubstancial ao Pai pela sua divindade, consubstancial a nós pela sua humanidade, «semelhante a nós em tudo, menos no pecado»93: gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nestes últimos dias, por nós e pela nossa salvação, nascido da Virgem Mãe de Deus segundo a humanidade.

Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único, que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é abolida pela sua união; antes, as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas numa só pessoa e numa só hipóstase»94.

  1. 93Cf. .
  2. 94Concílio de Calcedónia, Symbolum: DS 301-302.
468

Depois do Concílio de Calcedónia, alguns fizeram da natureza humana de Cristo uma espécie de sujeito pessoal. Contra eles, o quinto Concílio ecuménico, reunido em Constantinopla em 553, confessou a propósito de Cristo: «não há n'Ele senão uma só hipóstase (ou pessoa), que é nosso Senhor Jesus Cristo, um da santa Trindade»95. Tudo na humanidade de Cristo deve, portanto, ser atribuído à sua pessoa divina como seu sujeito próprio96; não só os milagres, mas também os sofrimentos97 e a própria morte: «Aquele que foi crucificado na carne, nosso Senhor Jesus Cristo, é verdadeiro Deus, Senhor da glória e um da Santíssima Trindade»98.

Ver também§ 254§ 616

  1. 95II Concílio de Constantinopla, Sess. 8ª, Canon 4: DS 424.
  2. 96Cf. Concílio de Éfeso, Anathematismi Cyrilli Alexandrini, 4: DS 255.
  3. 97Cf. II Concílio de Constantinopla, Sess. 8ª, Canon 3: DS 423.
  4. 98Cf. II Concílio de Constantinopla, Sess. 8ª, Canon 10: DS 432.
469

Assim, a Igreja confessa que Jesus é inseparavelmente verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É verdadeiramente o Filho de Deus feito homem, nosso irmão, e isso sem deixar de ser Deus, nosso Senhor:

«Id quod fuit remansit, et quod non fuit assumpsit» – «Continuou a ser o que era e assumiu o que não era», como canta a Liturgia Romana90. E a Liturgia de São João Crisóstomo proclama e canta: «Ó Filho único e Verbo de Deus, sendo imortal. Vos dignastes, para nossa salvação, encarnar no seio da Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, e sem mudança Vos fizestes homem e fostes crucificado! Ó Cristo Deus, que por Vossa morte esmagastes a morte, que sois um da Santíssima Trindade, glorificado com o Pai e o Espírito Santo, salvai-nos!»100.

Ver também§ 212

  1. 90Símbolo de Niceia: DS 126.
  2. 100Ofício das Horas Bizantino, Tropário «O monoghenis»: «Horológion tò méga (Romae 1876) p. 82.
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