Filho de Deus, no Antigo Testamento, é um título dado aos anjos44, ao povo eleito45 aos filhos de Israel46 e aos seus reis47. Nestes casos, significa uma filiação adoptiva, que estabelece entre Deus e a sua criatura relações de particular intimidade. Quando o Rei-Messias prometido é chamado «filho de Deus»48, isso não implica necessariamente, segundo o sentido literal de tais textos, que Ele seja mais que um simples ser humano. Os que assim designaram Jesus, enquanto Messias de Israel49, talvez não tenham querido dizer mais50.
§ 441–445
Mas não é este o caso de Pedro, quando confessa Jesus como «Cristo, o Filho de Deus vivo»51, porque Jesus responde-lhe solenemente: «não foram a carne nem o sangue que to revelaram, mas sim o meu Pai que está nos céus» (). De igual modo, Paulo dirá, a propósito da sua conversão no caminho de Damasco: «Quando aprouve a Deus – que me escolheu desde o seio de minha mãe e me chamou pela sua graça – revelar o seu Filho em mim, para que O anuncie como Evangelho aos gentios...» (). «E logo começou a proclamar nas sinagogas que Jesus era o Filho de Deus» (). Será este, desde o princípio52,o núcleo da fé apostólica53, primeiramente professada por Pedro como fundamento da Igreja54.
Se Pedro pôde reconhecer o carácter transcendente da filiação divina de Jesus-Messias, foi porque Este lha deixou perceber nitidamente. Diante do Sinédrio, à pergunta dos seus acusadores: «Então, tu és o Filho de Deus?» Jesus respondeu: «É como dizeis, sou» ()55. Já muito antes, Ele Se designara como «o Filho» que conhece o Pai56, diferente dos «servos» que Deus anteriormente enviara ao seu povo57, superior aos próprios anjos58. Ele distinguiu a sua filiação da dos Seus discípulos, nunca dizendo «Pai nosso»59, a não ser para lhes ordenar: «vós, quando rezardes, dizei assim: Pai nosso» (); e sublinhou esta distinção: «o meu Pai e vosso Pai» ().
Ver também§ 2786
Os evangelhos referem, em dois momentos solenes, no baptismo e na transfiguração de Cristo, a voz do Pai, que O designa como seu «filho muito-amado»60. Jesus designa-Se a Si próprio como «o Filho único de Deus» (), afirmando por este título a sua preexistência eterna61. E exige a fé «no nome do Filho único de Deus» (). Esta profissão de fé cristã aparece já na exclamação do centurião diante de Jesus crucificado: «Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!» (); porque somente no Mistério Pascal o crente pode dar pleno significado ao título de «Filho de Deus».
É depois da ressurreição que a filiação divina de Jesus aparece no poder da sua humanidade glorificada: «Segundo o Espírito santificante, pela sua ressurreição de entre os mortos, Ele foi estabelecido como Filho de Deus em poder» ()62. E os Apóstolos poderão confessar: «Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai como a Filho único, cheio de graça e de verdade» ().
Ver também§ 653
- 62Cf. .