Catecismo
Bíblia · ed. Ave Maria
Código de Direito Canónico
Cân.
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§ 446–451, 1807, 1928–1930, 2425–2426, 2822–2827, 2842

IV. Senhor
446

Na tradução grega dos Livros do Antigo Testamento, o nome inefável sob o qual Deus Se revelou a Moisés63, YHWH, é traduzido por « Kyrios» («Senhor»). Senhor torna-se, desde então, o nome mais habitual para designar a própria divindade do Deus de Israel. É neste sentido forte que o Novo Testamento utiliza o título de «Senhor», tanto para o Pai como também – e aí é que está a novidade – para Jesus, assim reconhecido como sendo Ele próprio Deus64.

Ver também§ 209

  1. 6363 Cf. .
  2. 64Cf. .
447

O próprio Jesus veladamente atribui a Si mesmo este título, quando discute com os fariseus sobre o sentido do Salmo 11065, e também, de modo explícito, ao dirigir-Se aos Apóstolos66. Ao longo de toda a vida pública, os seus gestos de domínio sobre a natureza, sobre as doenças, sobre os demónios, sobre a morte e o pecado, demonstravam a sua soberania divina.

Ver também§ 548

  1. 65Cf. ; cf. também Act 2. 34-36; .
  2. 66Cf. .
448

Muitíssimas vezes, nos evangelhos, aparecem pessoas que se dirigem a Jesus chamando-lhe «Senhor». Este título exprime o respeito e a confiança dos que se aproximam de Jesus e d'Ele esperam socorro e cura67. Pronunciado sob a moção do Espírito Santo, exprime o reconhecimento do Mistério divino de Jesus68. No encontro com Jesus ressuscitado, transforma-se em adoração: «Meu Senhor e meu Deus» (). Assume então uma conotação de amor e afeição, que vai ficar como típica da tradição cristã: «E o Senhor!» ().

Ver também§ 208§ 683§ 641

  1. 67Cf. : 14, 30; 15, 22: etc.
  2. 68Cf. ; 2, 11.
449

Ao atribuir a Jesus o título divino de Senhor, as primeiras confissões de fé da Igreja afirmam, desde o princípio69, que o poder, a honra e a glória, devidos a Deus Pai, também são devidos a Jesus70, porque Ele é «de condição divina» () e o Pai manifestou esta soberania de Jesus ressuscitando-O de entre os mortos e exaltando-O na sua glória71.

Ver também§ 461§ 653

  1. 69Cf. .
  2. 70Cf. ; : .
  3. 71Cf. ; ; Fl 2. 9-11.
450

Desde o princípio da história cristã, a afirmação do senhorio de Jesus sobre o mundo e sobre a história72 significa também o reconhecimento de que o homem não deve submeter a sua liberdade pessoal, de modo absoluto, a nenhum poder terreno, mas somente a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo: César não é o «Senhor»73. «A Igreja crê... que a chave, o centro e o fim de toda a história humana se encontra no seu Senhor e Mestre»74.

Ver também§ 668–672§ 2242

  1. 72Cf. .
  2. 73Cf.; .
  3. 74II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 10; AAS 58 (1966) 1033; cf. ibid., 45: AAS 58 (1966) 1066
451

A oração cristã é marcada pelo título de «Senhor», quer no convite à oração: «O Senhor esteja convosco», quer na conclusão da mesma: «Por nosso Senhor Jesus Cristo», quer ainda pelo grito cheio de confiança e de esperança: «Maran atha» («O Senhor vem!») ou «Marana tha» («Vem, Senhor!») (): «Amen, vem, Senhor Jesus!» ().

Ver também§ 2664–2665§ 2817

Continua em § 1807–1807

1807

A justiça é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido. A justiça para com Deus chama-se «virtude da religião». Para com os homens, a justiça leva a respeitar os direitos de cada qual e a estabelecer, nas relações humanas, a harmonia que promove a equidade em relação às pessoas e ao bem comum. O homem justo, tantas vezes evocado nos livros santos, distingue-se pela rectidão habitual dos seus pensamentos e da sua conduta para com o próximo. «Não cometerás injustiças nos julgamentos. Não favorecerás o pobre, nem serás complacente para com os poderosos. Julgarás o teu próximo com imparcialidade» (). «Senhores, dai aos vossos escravos o que é justo e equitativo, considerando que também vós tendes um Senhor no céu» ().

Ver também§ 2095§ 2401

Continua em § 1928–1930

ARTIGO 3
A JUSTIÇA SOCIAL
1928

A sociedade garante a justiça social, quando realiza as condições que permitem às associações e aos indivíduos obterem o que lhes é devido, segundo a sua natureza e vocação. A justiça social está ligada ao bem comum e ao exercício da autoridade.

Ver também§ 2832

I. O respeito pela pessoa humana
1929

A justiça social só pode alcançar-se no respeito da dignidade transcendente do homem. A pessoa constitui o fim último da sociedade, que está ordenada para ela:

A defesa e promoção da dignidade da pessoa humana «foram-nos confiadas pelo Criador, tarefa a que estão rigorosa e responsavelmente obrigados os homens e as mulheres em todas as conjunturas da história38.

Ver também§ 1881

  1. 38João Paulo II, Enc. Sollicitudo rei socialis, 47: AAS 80 (1988) 581.
1930

O respeito pela pessoa humana implica o dos direitos que dimanam da sua dignidade de criatura. Esses direitos são anteriores à sociedade e impõem-se-lhe. Estão na base da legitimidade moral de qualquer autoridade: desprezando-os ou recusando reconhecê-los na sua legislação positiva, uma sociedade atenta contra a sua própria legitimidade moral39. Faltando esse respeito, uma sociedade não tem outra solução, senão o recurso à força e à violência, para obter a obediência dos seus súbitos. É dever da Igreja trazer à memória dos homens de boa vontade aqueles direitos, e distingui-los das reivindicações abusivas ou falsas.

Ver também§ 1770§ 1902

  1. 39Cf. João XXIII, Enc. Pacem in terris, 61: AAS 55 (1963) 274.

Continua em § 2425–2426

2425

A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias, associadas, nos tempos modernos, ao «comunismo» ou ao «socialismo». Por outro lado, recusou, na prática do «capitalismo», o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano167. Regular a economia só pela planificação centralizada perverte a base dos laços sociais: regulá-la só pela lei do mercado é faltar à justiça social, «porque há numerosas necessidades humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado»168. É necessário preconizar uma regulação racional do mercado e das iniciativas económicas, segundo uma justa hierarquia dos valores e tendo em vista o bem comum.

Ver também§ 676§ 1886

  1. 167Cf. João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 10: AAS 83 (1991) 804-806; Ibid., 13: AAS 83 (1991) 809-810; Ibid., 44: AAS 83 (1991) 848-849.
  2. 168João PauloII, Enc. Centesimus annus, 34: AAS 83 (1991) 836.
IV. A actividade económica e a justiça social
2426

O desenvolvimento das actividades económicas e o crescimento da produção destinam-se a ocorrer às necessidades dos seres humanos. A vida económica não visa somente multiplicar os bens produzidos e aumentar o lucro ou o poder; ordena-se, antes de mais, para o serviço das pessoas, do homem integral e de toda a comunidade humana. Conduzida segundo métodos próprios, a actividade económica deve exercer-se dentro dos limites da ordem moral e segundo as normas da justiça social, a fim de corresponder ao desígnio de Deus sobre o homem169.

Ver também§ 1928

  1. 169Cf. II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 64: AAS 58 (1966) 1086.

Continua em § 2822–2827

III. «Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu»
2822

É vontade do nosso Pai «que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (). Ele «usa de paciência [...], não querendo que ninguém se perca» ()85. O seu mandamento, que resume todos os outros e nos diz toda a sua vontade, é que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou86.

Ver também§ 851§ 2196

  1. 85Cf. .
  2. 86Cf. ; 1 Jo 3; 4; .
2823

Ele «manifestou-nos o mistério da sua vontade, segundo o beneplácito que nele de antemão estabeleceu [...]: instaurar todas as coisas em Cristo [...]. Foi n'Ele também que fomos escolhidos como sua herança, predestinados de acordo com o desígnio daquele que tudo opera de acordo com a decisão da sua vontade» (). Nós pedimos com empenho que este plano benevolente se realize por completo na terra, como já se cumpre no céu.

Ver também§ 59

2824

Foi em Cristo e pela sua vontade humana que a vontade do Pai se cumpriu perfeitamente e duma vez para sempre. Ao entrar neste mundo, Jesus disse: «Eu venho, [...] ó Deus, para fazer a tua vontade» ()87. Só Jesus pode dizer: «Faço sempre o que é do seu agrado» (). Na oração da sua agonia, Ele conforma-Se totalmente com esta vontade: «Não se faça a minha vontade, mas a tua» ()88. Eis por que Jesus «Se entregou pelos nossos pecados [...] consoante a vontade de Deus» (). «Em virtude dessa mesma vontade é que nós fomos santificados, pela oferenda do corpo de Jesus Cristo » ().

Ver também§ 475§ 612

  1. 87Cf. .
  2. 88Cf. ; 5, 30; 6, 38.
2825

Jesus, «apesar de ser Filho, aprendeu, por aquilo que sofreu, o que é obedecer» (). Com quanto mais razão nós, criaturas e pecadores, que n'Ele nos tornamos filhos de adopção! Nós pedimos ao nosso Pai que una a nossa vontade à do seu Filho, para que se cumpra a vontade d'Ele, o seu plano de salvação para a vida do mundo. Somos radicalmente impotentes para tal, mas unidos a Jesus e com o poder do seu Espírito Santo, podemos entregar-Lhe a nossa vontade e decidir escolher o que o seu Filho sempre escolheu: fazer o que é do agrado do Pai89:

«Aderindo a Cristo, podemos tornar-nos um só espírito com Ele e assim cumprir a sua vontade; desse modo, ela será feita na terra como no céu»90. «Considerai como Jesus Cristo nos ensina a ser humildes, fazendo-nos ver que a nossa virtude não depende só do nosso trabalho, mas da graça de Deus. Aqui, Ele ordena a todo o fiel que ora a fazê-lo de modo universal, por toda a terra. Porque não diz "seja feita a vossa vontade" em mim ou em vós, mas "em toda a terra": para que dela seja banido o erro e nela reine a verdade, o vício seja destruído e a virtude refloresça, e para que a terra deixe de ser diferente do céu»91.

Ver também§ 615

  1. 89Cf. .
  2. 90Orígenes, De oratione, 26, 3: GCS 3, 361 (PG 11, 501).
  3. 91São João Crisóstomo, In Matthaeum homilia l9, 5: PG 57, 280.
2826

É pela oração que podemos discernir qual é a vontade de Deus92 e obter perseverança para a cumprir93. Jesus ensina-nos que se entra no Reino dos céus, não por palavras, mas «fazendo a vontade do meu Pai que está nos céus» ().

  1. 92Cf. ; .
  2. 93Cf. .
2827

«Se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende» ()94. Tal é o poder da oração da Igreja feita em nome do seu Senhor, sobretudo na Eucaristia; ela é comunhão de intercessão com a santíssima Mãe de Deus95 e com todos os santos que foram «agradáveis» ao Senhor por não terem querido senão a sua vontade:

«Podemos ainda, sem trair a verdade, traduzir estas palavras: "seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu" por estoutras: na Igreja como em nosso Senhor Jesus Cristo; na esposa que Lhe foi desposada, como no esposo que cumpriu a vontade do Pai»96.

Ver também§ 2611§ 796

  1. 94Cf. .
  2. 95Cf. .
  3. 96Santo Agostinho, De sermone Domini in monte, 2, 6, 24: CCL 35, 113 (PL34, 1279).

Continua em § 2842–2842

«ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO»
2842

Este «como» não é único no ensinamento de Jesus. «Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito» (); «sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (); «dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (). Observar o mandamento do Senhor é impossível, quando se trata de imitar, do exterior, o modelo divino. Trata-se duma participação vital, vinda «do fundo do coração», na santidade, na misericórdia e no amor do nosso Deus. Só o Espírito, que é «nossa vida» (), pode fazer «nossos» os mesmos sentimentos que existiram em Cristo Jesus123. Então, a unidade do perdão torna-se possível, «perdoando-nos mutuamente como Deus nos perdoou em Cristo» ().

Ver também§ 521

  1. 123Cf. .
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