Jesus é concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, porque Ele é o Novo Adão173, que inaugura a criação nova: «O primeiro homem veio da terra e do pó: o segundo homem veio do céu» (). A humanidade de Cristo é, desde a sua conceição, cheia do Espírito Santo, porque Deus «não dá o Espírito por medida» (). É da «sua plenitude», que Lhe é própria enquanto cabeça da humanidade resgatada que «nós recebemos graça sobre graça» ().
Jesus, o novo Adão, inaugura, pela sua conceição virginal, o novo nascimento dos filhos de adopção, no Espírito Santo, pela fé, «Como será isso?» ()175. A participação na vida divina não procede «do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus» (). A recepção desta vida é virginal, porque inteiramente dada ao homem pelo Espírito. O sentido esponsal da vocação humana, em relação a Deus176, foi perfeitamente realizado na maternidade virginal de Maria.
Maria é virgem, porque a virgindade é nela o sinal da sua fé, «sem a mais leve sombra de dúvida»177 e da sua entrega sem reservas à vontade de Deus178. É graças à sua fé que ela vem a ser a Mãe do Salvador: «Beatior est Maria percipiendo fïdem Christi quam concipiendo carnem Christi – Maria é mais feliz por receber a fé de Cristo do que por conceber a carne de Cristo»179.
Maria é, ao mesmo tempo, virgem e mãe, porque é a figura e a mais perfeita realização da Igreja180: «Por sua vez, a Igreja, que contempla a sua santidade misteriosa e imita a sua caridade, cumprindo fielmente a vontade do Pai, torna-se também, ela própria, mãe, pela fiel recepção da Palavra de Deus: efectivamente, pela pregação e pelo Baptismo, gera, para uma vida nova e imortal, os filhos concebidos por acção do Espírito Santo e nascidos de Deus. E também ela é virgem, pois guarda fidelidade total e pura ao seu esposo»181.
Na descendência de Eva, Deus escolheu a Virgem Maria para ser a Mãe do seu Filho. «Cheia de graça», ela é «o mais excelso fruto da Redenção»182. Desde o primeiro instante da sua conceição, ela foi totalmente preservada imune da mancha do pecado original, e permaneceu pura de todo o pecado pessoal ao longo da vida.
Maria permaneceu «Virgem ao conceber o seu Filho, Virgem ao dá-Lo à luz, Virgem grávida, Virgem fecunda, Virgem perpétua»183; com todo o seu ser; ela é a «serva do Senhor» ().
A Virgem Maria «cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens»184. Pronunciou o seu «fiat» – faça-se – «loco totius humanae naturae – em vez de toda a humanidade»185: pela sua obediência, tornou-se a nova Eva, mãe dos vivos.
184Cf. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 56: AAS 57 (1965) 60.
185São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 3. q. 30, a. I. c: Ed. Leon. 11, 315.
Relativamente à vida de Cristo, o Símbolo da Fé apenas fala dos mistérios da Encarnação (conceição e nascimento) e da Páscoa (paixão, crucifixão, morte, sepultura, descida à mansão dos mortos, ressurreição, ascensão). Nada diz explicitamente dos mistérios da vida oculta e pública de Jesus. Mas os artigos que dizem respeito à Encarnação e à Páscoa de Jesus esclarecem toda a vida terrena de Cristo. «Tudo o que Jesus fez e ensinou desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao céu» () deve ser visto á luz dos mistérios do Natal e da Páscoa.
A catequese, segundo as circunstâncias, explanará toda a riqueza dos mistérios de Jesus. Aqui, basta indicar alguns elementos comuns a todos os mistérios da vida de Cristo (I), para depois esboçar os principais mistérios da vida oculta (II) e pública (III) de Jesus.
Muitas coisas que interessam à curiosidade humana, a respeito de Jesus, não figuram nos evangelhos. Quase nada se diz da sua vida em Nazaré e mesmo grande parte da sua vida pública não é relatada186. O que foi escrito nos evangelhos, foi-o «para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome» ().
Os evangelhos foram escritos por homens que foram dos primeiros a receber a fé187 e que quiseram partilhá-la com outros. Tendo conhecido, pela fé, quem é Jesus, puderam ver e fazer ver os traços do seu mistério em toda a sua vida terrena. Desde os panos do nascimento188 até ao vinagre da paixão189 e ao sudário da ressurreição190, tudo, na vida de Jesus, é sinal do seu mistério. Através dos seus gestos, milagres e palavras, foi revelado que «n'Ele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade» (). A sua humanidade aparece, assim, como «sacramento», isto é, sinal e instrumento da sua divindade e da salvação que Ele veio trazer. O que havia de visível na sua vida terrena conduz ao mistério invisível da sua filiação divina e da sua missão redentora.
Toda a vida de Cristo é revelação do Pai: as suas palavras e actos, os seus silêncios e sofrimentos, a maneira de ser e de falar. Jesus pode dizer: «Quem Me vê, vê o Pai» (); e o Pai: «Este é o meu Filho predilecto: escutai-O» (). Tendo-Se nosso Senhor feito homem para cumprir a vontade do Pai191, os mais pequenos pormenores dos seus mistérios manifestam «o amor de Deus para connosco»192.
Toda a vida de Cristo é mistério de redenção. A redenção vem-nos, antes de mais, pelo sangue da cruz193. Mas este mistério está actuante em toda a vida de Cristo: já na sua Encarnação, pela qual, fazendo-Se pobre, nos enriquece com a sua pobreza194; na vida oculta que, pela sua obediência195, repara a nossa insubmissão; na palavra que purifica os seus ouvintes196: nas curas e expulsões dos demónios, pelas quais «toma sobre Si as nossas enfermidades e carrega com as nossas doenças» ()197; na ressurreição, pela qual nos justifica198.
Toda a vida de Cristo é mistério de recapitulação. Tudo o que Jesus fez, disse e sofreu tinha por fim restabelecer o homem decaído na sua vocação originária:
«Quando Ele encarnou e Se fez homem, recapitulou em Si a longa história dos homens e proporcionou-nos, em síntese, a salvação, de tal forma que aquilo que havíamos perdido em Adão – isto é, sermos imagem e semelhança de Deus – o recuperássemos em Cristo Jesus»199. «Aliás, foi por isso que Cristo passou por todas as idades da vida, restituindo assim a todos os homens a comunhão com Deus»200.
Toda a riqueza de Cristo «se destina a todos os homens e constitui o bem de cada um»201. Cristo não viveu para Si mesmo, mas para nós, desde a Encarnação «por nós homens e para nossa salvação»202 até á sua morte «por causa dos nossos pecados» () e à sua ressurreição «para nossa justificação» (). Ainda agora, Ele é «o nosso advogado junto do Pai» (), «sempre vivo para interceder por nós» (). Com tudo o que viveu e sofreu por nós, uma vez por todas, Ele está para sempre presente «em nosso favor, na presença de Deus» ().
Em toda a sua vida, Jesus mostra-Se como nosso modelo203: é «o homem perfeito»204, que nos convida a tornarmo-nos seus discípulos e a segui-Lo; com a sua humilhação, deu-nos um exemplo a imitar205; com a sua oração, convida-nos à oração206; com a sua pobreza, incita--nos a aceitar livremente o despojamento e as perseguições207.