Catecismo
Bíblia · ed. Ave Maria
Código de Direito Canónico
Cân.
Documento

§ 538–554

A TENTAÇÃO DE JESUS
538

Os evangelhos falam dum tempo de solidão que Jesus passou no deserto, imediatamente depois de ter sido baptizado por João: «Impelido»pelo Espírito para o deserto, Jesus ali permanece sem comer durante quarenta dias. Vive com os animais selvagens e os anjos servem-n'O263.

No fim desse tempo, Satanás tenta-O por três vezes, procurando pôr em causa a sua atitude filial para com Deus; Jesus repele esses ataques, que recapitulam as tentações de Adão no paraíso e de Israel no deserto; e o Diabo afasta-se d'Ele «até determinada altura» ().

Ver também§ 394§ 518

  1. 263Cf. .
539

Os evangelistas indicam o sentido salvífico deste acontecimento misterioso, Jesus é o Novo Adão, que Se mantém fiel naquilo em que o primeiro sucumbiu à tentação. Jesus cumpre perfeitamente a vocação de Israel: contrariamente aos que outrora, durante quarenta anos, provocaram a Deus no deserto264, Cristo revela-Se o Servo de Deus totalmente obediente à vontade divina. Nisto, Jesus vence o Diabo: «amarrou o homem forte», para lhe tirar os despojos265. A vitória de Jesus sobre o tentador, no deserto, antecipa a vitória da paixão, suprema obediência do seu amor filial ao Pai.

Ver também§ 397§ 385§ 609

  1. 264Cf. SI 95, 10.
  2. 265Cf. .
540

A tentação de Jesus manifesta a maneira própria de o Filho de Deus ser Messias, ao contrário da que Lhe propõe Satanás e que os homens266 desejam atribuir-Lhe. Foi por isso que Cristo venceu o Tentador, por nós: «Nós não temos um sumo-sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas; temos um, que possui a experiência de todas as provações, tal como nós, com excepção do pecado» (). Todos os anos, pelos quarenta dias da Grande Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto.

Ver também§ 2119§ 519–2849§ 1438

  1. 266Cf. .
«O REINO DE DEUS ESTÁ PRÓXIMO»
541

«Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia. Aí proclamava a Boa-Nova da vinda de Deus, nestes termos: "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai na Boa-Nova!"» (). «Por isso, Cristo, a fim de cumprir a vontade do Pai, deu começo na terra ao Reino dos céus»267. Ora a vontade do Pai é «elevar os homens à participação da vida divina»268. E fá-lo reunindo os homens em torno do seu Filho, Jesus Cristo. Esta reunião é a Igreja, a qual é na terra «o germe e o princípio» do Reino de Deus»269.

Ver também§ 2816§ 763§ 669§ 768§ 865

  1. 267II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 3: AAS 57 (1965) 6.
  2. 268II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 2: AAS 57 (1965) 5-6.
  3. 269I II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 8.
542

Cristo está no centro desta reunião dos homens na «família de Deus». Reúne-os à sua volta pela sua palavra, pelos seus sinais que manifestam o Reino de Deus, pelo envio dos discípulos. E realizará a vinda do seu Reino sobretudo pelo grande mistério da sua Páscoa: a sua morte de cruz e a sua ressurreição. «E Eu, uma vez elevado da Terra, atrairei todos a Mim» (). Todos os homens são chamados a esta união com Cristo270.

Ver também§ 2233§ 789

  1. 270Cf. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 3: AAS 57 (1965) 6.
O ANÚNCIO DO REINO DE DEUS
543

Todos os homens são chamados a entrar no Reino. Anunciado primeiro aos filhos de Israel271, este Reino messiânico é destinado a acolher os homens de todas as nações272. Para ter acesso a ele, é preciso acolher a Palavra de Jesus:

«A Palavra do Senhor compara-se à semente lançada ao campo: aqueles que a ouvem com fé e entram a fazer parte do pequeno rebanho de Cristo, já receberam o Reino; depois, por força própria, a semente germina e cresce até ao tempo da messe»273.

Ver também§ 764

  1. 271Cf. .
  2. 272Cf. ; 28, 19.
  3. 273II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 7.
544

O Reino é dos pobres e pequenos, quer dizer, dos que o acolheram com um coração humilde. Jesus foi enviado para «trazer a Boa-Nova aos pobres» ()274. Declara-os bem-aventurados, porque «é deles o Reino dos céus» (). Foi aos «pequenos» que o Pai se dignou revelar o que continua oculto aos sábios e inteligentes275. Jesus partilha a vida dos pobres, desde o presépio até à cruz: sabe o que é sofrer a fome276, a sede277 e a indigência278. Mais ainda: identifica-se com os pobres de toda a espécie, e faz do amor activo para com eles a condição da entrada no seu Reino279.

Ver também§ 709§ 2443§ 2546

  1. 274Cf. .
  2. 275Cf. .
  3. 276Cf. : .
  4. 277Cf. : 19, 28.
  5. 278Cf. .
  6. 279Cf. .
545

Jesus convida os pecadores para a mesa do Reino: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» ()280. Convida-os à conversão sem a qual não se pode entrar no Reino, mas por palavras e actos, mostra-lhes a misericórdia sem limites do Seu Pai para com eles e a imensa «alegria que haverá no céu, por um só pecador que se arrependa» (). A prova suprema deste amor será o sacrifício da sua própria vida, «pela remissão dos pecados» ().

Ver também§ 1443§ 588§ 1846§ 1439

  1. 280Cf. .
546

Jesus chama para entrar no Reino, por meio de parábolas, traço característico do seu ensino282. Por meio delas, convida para o banquete do Reino283, mas exige também uma opção radical: para adquirir o Reino é preciso dar tudo284. As palavras não bastam, exigem-se actos285. As parábolas são, para o homem, uma espécie de espelho: como é que ele recebe a Palavra? Como chão duro, ou como terra boa?286 Que faz ele dos talentos recebidos?287 Jesus e a presença do Reino neste mundo estão secretamente no coração das parábolas. É preciso entrar no Reino, quer dizer, tornar-se discípulo de Cristo, para «conhecer os mistérios do Reino dos céus» (). Para os que ficam «fora» (), tudo permanece enigmático288.

Ver também§ 2613§ 542

  1. 282Cf. .
  2. 283Cf. .
  3. 284Cf. .
  4. 285Cf. .
  5. 286Cf. .
  6. 287Cf. .
  7. 288Cf. .
OS SINAIS DO REINO DE DEUS
547

Jesus acompanha as suas palavras com numerosos «milagres, prodígios e sinais» (), os quais manifestam que o Reino está presente n'Ele. Comprovam que Ele é o Messias anunciado289.

Ver também§ 670§ 439

  1. 289Cf. Lc 7. 18-23.
548

Os sinais realizados por Jesus testemunham que o Pai O enviou290. Convidam a crer n'Ele291. Aos que se Lhe dirigem com fé, concede-lhes o que pedem292. Assim, os milagres fortificam a fé n'Aquele que faz as obras do seu Pai: testemunham que Ele é o Filho de Deus293. Mas também podem ser «ocasião de queda»294. Eles não pretendem satisfazer a curiosidade nem desejos mágicos. Apesar de os seus milagres serem tão evidentes, Jesus é rejeitado por alguns295; chega mesmo a ser acusado de agir pelo poder dos demónios296.

Ver também§ 156§ 2616§ 574§ 447

  1. 290Cf. ; 10, 25.
  2. 291Cf. .
  3. 292Cf. ; 10, 52: etc.
  4. 293Cf. .
  5. 294Cf. .
  6. 295Cf. .
  7. 296Cf. .
549

Ao libertar certos homens dos males terrenos da fome297, da injustiça298 da doença e da morte299 – Jesus realizou sinais messiânicos; no entanto, Ele não veio para abolir todos os males deste mundo300, mas para libertar os homens da mais grave das escravidões, a do pecado301, que os impede de realizar a sua vocação de filhos de Deus e é causa de todas as servidões humanas.

Ver também§ 1503§ 440

  1. 297Cf. .
  2. 298Cf. .
  3. 299Cf. .
  4. 300Cf. ; .
  5. 301Cf. .
550

A vinda do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás302: «Se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demónios, então é porque o Reino de Deus chegou até vós» (). Os exorcismos de Jesus libertam os homens do poder dos demónios303. E antecipam a grande vitória de Jesus sobre «o príncipe deste mundo»304. É pela cruz de Cristo que o Reino de Deus vai ser definitivamente estabelecido: «Regnavit a ligno Deus – Deus reinou desde o madeiro»305.

Ver também§ 394§ 1673§ 440§ 2816

  1. 302Cf. .
  2. 303Cf. .
  3. 304Cf. .
  4. 305Venâncio Fortunato, Hino «Vexilla Regis»: MGH 1/4/1, 34 (PL 88, 96).
«AS CHAVES DO REINO»
551

Desde o princípio da sua vida pública, Jesus escolheu alguns homens, em número de doze, para andarem com Ele e participarem na sua missão306. Deu-lhes parte na sua autoridade «e enviou-os a pregar o Reino de Deus e a fazer curas» (). Estes homens ficam para sempre associados ao Reino de Cristo, porque, por meio deles, Jesus Cristo dirige a Igreja:

«Eu disponho, a vosso favor, do Reino, como meu Pai dispõe dele a meu favor, a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu Reino. E sentar-vos-eis em tronos, a julgar as doze tribos de Israel» ().

Ver também§ 858§ 765

  1. 306Cf. .
552

No colégio dos Doze, Simão Pedro ocupa o primeiro lugar307. Jesus confiou-lhe uma missão única. Graças a uma revelação vinda do Pai, Pedro confessara: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (). E nosso Senhor declarou-lhe então: «Tu és Pedro: sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela» (). Cristo, «pedra viva»308, garante à sua Igreja, edificada sobre Pedro, a vitória sobre os poderes da morte. Pedro, graças à fé que confessou, permanecerá o rochedo inabalável da Igreja. Terá a missão de defender esta fé para que nunca desfaleça e de nela confirmar os seus irmãos309.

Ver também§ 880§ 153§ 442§ 424

  1. 307Cf. ; 9, 2; : .
  2. 308Cf. 1 Pe 2. 4.
  3. 309Cf. .
553

Jesus confiou a Pedro uma autoridade específica: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus» (). O «poder das chaves» designa a autoridade para governar a Casa de Deus, que é a Igreja. Jesus, o «bom Pastor» (), confirmou este cargo depois da sua ressurreição: «Apascenta as minhas ovelhas» (). O poder de «ligar e desligar» significa a autoridade para absolver os pecados, pronunciar juízos doutrinais e tomar decisões disciplinares na Igreja. Jesus confiou esta autoridade à Igreja pelo ministério dos Apóstolos e particularmente pelo de Pedro, o único a quem confiou explicitamente as chaves do Reino.

Ver também§ 881§ 1445§ 641§ 881

UM ANTEGOZO DO REINO: A TRANSFIGURAÇÃO
554

A partir do dia em que Pedro confessou que Jesus era o Cristo, Filho do Deus vivo, o Mestre «começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e lá sofrer [...], que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia» (). Pedro rejeita este anúncio e os outros também não o entendem312. É neste contexto que se situa o episódio misterioso da transfiguração de Jesus313, no cimo duma alta montanha, perante três testemunhas por Ele escolhidas: Pedro, Tiago e João. O rosto e as vestes de Jesus tornaram-se fulgurantes de luz, Moisés e Elias aparecem, «e falam da sua morte, que ia consumar-se em Jerusalém» (). Uma nuvem envolve-os e uma voz do céu diz: «Este é o meu Filho predilecto: escutai-O» ().

Ver também§ 697§ 2600§ 440

  1. 312Cf. ; .
  2. 313Cf. e par.: .
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Concílios e documentos papais · Santa Sé · vatican.va

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