Catecismo
Bíblia · ed. Ave Maria
Código de Direito Canónico
Cân.
Documento

§ 544–559

544

O Reino é dos pobres e pequenos, quer dizer, dos que o acolheram com um coração humilde. Jesus foi enviado para «trazer a Boa-Nova aos pobres» ()274. Declara-os bem-aventurados, porque «é deles o Reino dos céus» (). Foi aos «pequenos» que o Pai se dignou revelar o que continua oculto aos sábios e inteligentes275. Jesus partilha a vida dos pobres, desde o presépio até à cruz: sabe o que é sofrer a fome276, a sede277 e a indigência278. Mais ainda: identifica-se com os pobres de toda a espécie, e faz do amor activo para com eles a condição da entrada no seu Reino279.

Ver também§ 709§ 2443§ 2546

  1. 274Cf. .
  2. 275Cf. .
  3. 276Cf. : .
  4. 277Cf. : 19, 28.
  5. 278Cf. .
  6. 279Cf. .
545

Jesus convida os pecadores para a mesa do Reino: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» ()280. Convida-os à conversão sem a qual não se pode entrar no Reino, mas por palavras e actos, mostra-lhes a misericórdia sem limites do Seu Pai para com eles e a imensa «alegria que haverá no céu, por um só pecador que se arrependa» (). A prova suprema deste amor será o sacrifício da sua própria vida, «pela remissão dos pecados» ().

Ver também§ 1443§ 588§ 1846§ 1439

  1. 280Cf. .
546

Jesus chama para entrar no Reino, por meio de parábolas, traço característico do seu ensino282. Por meio delas, convida para o banquete do Reino283, mas exige também uma opção radical: para adquirir o Reino é preciso dar tudo284. As palavras não bastam, exigem-se actos285. As parábolas são, para o homem, uma espécie de espelho: como é que ele recebe a Palavra? Como chão duro, ou como terra boa?286 Que faz ele dos talentos recebidos?287 Jesus e a presença do Reino neste mundo estão secretamente no coração das parábolas. É preciso entrar no Reino, quer dizer, tornar-se discípulo de Cristo, para «conhecer os mistérios do Reino dos céus» (). Para os que ficam «fora» (), tudo permanece enigmático288.

Ver também§ 2613§ 542

  1. 282Cf. .
  2. 283Cf. .
  3. 284Cf. .
  4. 285Cf. .
  5. 286Cf. .
  6. 287Cf. .
  7. 288Cf. .
OS SINAIS DO REINO DE DEUS
547

Jesus acompanha as suas palavras com numerosos «milagres, prodígios e sinais» (), os quais manifestam que o Reino está presente n'Ele. Comprovam que Ele é o Messias anunciado289.

Ver também§ 670§ 439

  1. 289Cf. Lc 7. 18-23.
548

Os sinais realizados por Jesus testemunham que o Pai O enviou290. Convidam a crer n'Ele291. Aos que se Lhe dirigem com fé, concede-lhes o que pedem292. Assim, os milagres fortificam a fé n'Aquele que faz as obras do seu Pai: testemunham que Ele é o Filho de Deus293. Mas também podem ser «ocasião de queda»294. Eles não pretendem satisfazer a curiosidade nem desejos mágicos. Apesar de os seus milagres serem tão evidentes, Jesus é rejeitado por alguns295; chega mesmo a ser acusado de agir pelo poder dos demónios296.

Ver também§ 156§ 2616§ 574§ 447

  1. 290Cf. ; 10, 25.
  2. 291Cf. .
  3. 292Cf. ; 10, 52: etc.
  4. 293Cf. .
  5. 294Cf. .
  6. 295Cf. .
  7. 296Cf. .
549

Ao libertar certos homens dos males terrenos da fome297, da injustiça298 da doença e da morte299 – Jesus realizou sinais messiânicos; no entanto, Ele não veio para abolir todos os males deste mundo300, mas para libertar os homens da mais grave das escravidões, a do pecado301, que os impede de realizar a sua vocação de filhos de Deus e é causa de todas as servidões humanas.

Ver também§ 1503§ 440

  1. 297Cf. .
  2. 298Cf. .
  3. 299Cf. .
  4. 300Cf. ; .
  5. 301Cf. .
550

A vinda do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás302: «Se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demónios, então é porque o Reino de Deus chegou até vós» (). Os exorcismos de Jesus libertam os homens do poder dos demónios303. E antecipam a grande vitória de Jesus sobre «o príncipe deste mundo»304. É pela cruz de Cristo que o Reino de Deus vai ser definitivamente estabelecido: «Regnavit a ligno Deus – Deus reinou desde o madeiro»305.

Ver também§ 394§ 1673§ 440§ 2816

  1. 302Cf. .
  2. 303Cf. .
  3. 304Cf. .
  4. 305Venâncio Fortunato, Hino «Vexilla Regis»: MGH 1/4/1, 34 (PL 88, 96).
«AS CHAVES DO REINO»
551

Desde o princípio da sua vida pública, Jesus escolheu alguns homens, em número de doze, para andarem com Ele e participarem na sua missão306. Deu-lhes parte na sua autoridade «e enviou-os a pregar o Reino de Deus e a fazer curas» (). Estes homens ficam para sempre associados ao Reino de Cristo, porque, por meio deles, Jesus Cristo dirige a Igreja:

«Eu disponho, a vosso favor, do Reino, como meu Pai dispõe dele a meu favor, a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu Reino. E sentar-vos-eis em tronos, a julgar as doze tribos de Israel» ().

Ver também§ 858§ 765

  1. 306Cf. .
552

No colégio dos Doze, Simão Pedro ocupa o primeiro lugar307. Jesus confiou-lhe uma missão única. Graças a uma revelação vinda do Pai, Pedro confessara: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (). E nosso Senhor declarou-lhe então: «Tu és Pedro: sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela» (). Cristo, «pedra viva»308, garante à sua Igreja, edificada sobre Pedro, a vitória sobre os poderes da morte. Pedro, graças à fé que confessou, permanecerá o rochedo inabalável da Igreja. Terá a missão de defender esta fé para que nunca desfaleça e de nela confirmar os seus irmãos309.

Ver também§ 880§ 153§ 442§ 424

  1. 307Cf. ; 9, 2; : .
  2. 308Cf. 1 Pe 2. 4.
  3. 309Cf. .
553

Jesus confiou a Pedro uma autoridade específica: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus» (). O «poder das chaves» designa a autoridade para governar a Casa de Deus, que é a Igreja. Jesus, o «bom Pastor» (), confirmou este cargo depois da sua ressurreição: «Apascenta as minhas ovelhas» (). O poder de «ligar e desligar» significa a autoridade para absolver os pecados, pronunciar juízos doutrinais e tomar decisões disciplinares na Igreja. Jesus confiou esta autoridade à Igreja pelo ministério dos Apóstolos e particularmente pelo de Pedro, o único a quem confiou explicitamente as chaves do Reino.

Ver também§ 881§ 1445§ 641§ 881

UM ANTEGOZO DO REINO: A TRANSFIGURAÇÃO
554

A partir do dia em que Pedro confessou que Jesus era o Cristo, Filho do Deus vivo, o Mestre «começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e lá sofrer [...], que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia» (). Pedro rejeita este anúncio e os outros também não o entendem312. É neste contexto que se situa o episódio misterioso da transfiguração de Jesus313, no cimo duma alta montanha, perante três testemunhas por Ele escolhidas: Pedro, Tiago e João. O rosto e as vestes de Jesus tornaram-se fulgurantes de luz, Moisés e Elias aparecem, «e falam da sua morte, que ia consumar-se em Jerusalém» (). Uma nuvem envolve-os e uma voz do céu diz: «Este é o meu Filho predilecto: escutai-O» ().

Ver também§ 697§ 2600§ 440

  1. 312Cf. ; .
  2. 313Cf. e par.: .
555

Por um momento, Jesus mostra a sua glória divina, confirmando assim a confissão de Pedro. Mostra também que, para «entrar na sua glória» (), tem de passar pela cruz em Jerusalém. Moisés e Elias tinham visto a glória de Deus sobre a montanha; a Lei e os Profetas tinham anunciado os sofrimentos do Messias314. A paixão de Jesus é da vontade do Pai: o Filho age como Servo de Deus315. A nuvem indica a presença do Espírito Santo: «Tota Trinitas apparuit: Pater in voce; Filius in homine; Spiritus in nube clara – Apareceu toda a Trindade: o Pai na voz; o Filho na humanidade; o Espírito Santo na nuvem luminosa»316:

«Transfiguraste-Te sobre a montanha e, na medida em que disso eram capazes, os teus discípulos contemplaram a tua glória, ó Cristo Deus; para que, quando Te vissem crucificado, compreendessem que a tua paixão era voluntária, e anunciassem ao mundo que Tu és verdadeiramente a irradiação do Pai»317.

Ver também§ 2576§ 2583§ 257

  1. 314Cf. Lc 24. 27.
  2. 315Cf. .
  3. 316São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 3. q. 45, a. 4, ad 2: Ed. Leon. 11, 433.
  4. 317Liturgia bizantina, Kontakion na Festa da Transfiguração: «Mênaîa toû bólou eniautoû», v. 6 (Romae 1901) p. 341.
556

No limiar da vida pública, o baptismo; no limiar da Páscoa, a transfiguração. Pelo baptismo de Jesus «declaratum fuit mysterium primae regenerationis – foi declarado o mistério da (nossa) primeira regeneração» – o nosso Baptismo; e a transfiguração «est sacramentum secundae regenerationis – é o sacramento da (nossa) segunda regeneração» – a nossa própria ressurreição318. Desde agora, nós participamos na ressurreição do Senhor pelo Espírito Santo que actua nos sacramentos do Corpo de Cristo. A transfiguração dá-nos um antegozo da vinda gloriosa de Cristo, «que transfigurará o nosso corpo miserável para o conformar com o seu corpo glorioso» (). Mas lembra-nos também que temos de passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus» ():

«Era isso que Pedro ainda não tinha compreendido, quando manifestava o desejo de ficar com Cristo no cimo da montanha319. – Isso, Ele to reservou, Pedro, para depois da morte. Mas agora, Ele próprio te diz: Desce para sofrer na Terra, para servir na Terra, para ser desprezado e crucificado na Terra. A Vida desce para se fazer matar: o Pão desce para passar fome; o Caminho desce para se cansar de andar; a Fonte desce para ter sede; – e tu recusas-te a sofrer?»320.

Ver também§ 1003

  1. 318Tomás de Aquino, Summa theologiae, 3, q. 45. a. 4, ad 2: Ed. Leon. 11, 433.
  2. 319Cf. Lc 9. 33.
  3. 320Santo Agostinho, Sermão 78. 6: PL 38, 492-493.
A SUBIDA DE JESUS PARA JERUSALÉM
557

«Ora, como se aproximavam os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a firme resolução de Se dirigir a Jerusalém» ()321. Por esta decisão, indicava que subia para Jerusalém pronto para lá morrer. Já por três vezes tinha anunciado a sua paixão e a sua ressurreição322. E ao dirigir-Se para Jerusalém, declara: «não se admite que um profeta morra fora de Jerusalém» ().

  1. 321Cf. .
  2. 322Cf. ; 9, 31-32; 10, 32-34.
558

Jesus recorda o martírio dos profetas que tinham sido entregues à morte em Jerusalém323. No entanto, continua a convidar Jerusalém a reunir-se à sua volta: «Quantas vezes Eu quis agrupar os teus filhos como a galinha junta os seus pintainhos sob as asas!... Mas vós não quisestes» (). Quando já avista Jerusalém, chora sobre ela324 e exprime, uma vez mais, o desejo do seu coração: «Se neste dia também tu tivesses conhecido o que te pode trazer a paz! Mas agora isto está oculto aos teus olhos» ().

  1. 323Cf. .
  2. 324Cf. .
A ENTRADA MESSIÂNICA DE JESUS EM JERUSALÉM
559

Como vai Jerusalém acolher o seu Messias? Embora tenha sempre evitado as tentativas populares de O fazerem rei325, Jesus escolheu o momento e preparou os pormenores da sua entrada messiânica na cidade de «David, seu pai» ()326. E é aclamado como filho de David e como aquele que traz a salvação («Hosanna» quer dizer «então salva!», «dá a salvação»). Ora, o «rei da glória» () entra na «sua cidade», «montado num jumento» (). Não conquista a filha de Sião, figura da sua Igreja, nem pela astúcia nem pela violência, mas pela humildade que dá testemunho da verdade327. Por isso é que, naquele dia, os súbditos do seu Reino, são as crianças328 e os «pobres de Deus», que O aclamam, tal como os anjos O tinham anunciado aos pastores329. A aclamação deles: «Bendito o que vem em nome do Senhor» () é retomada pela Igreja no «Sanctus» da Liturgia Eucarística, a abrir o memorial da Páscoa do Senhor.

Ver também§ 333§ 1352

  1. 325Cf. .
  2. 326Cf. .
  3. 327Cf. .
  4. 328Cf. ; .
  5. 329Cf. : 2, 14.
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