Catecismo

§ 561–586

Resumindo:
561

«Toda a vida de Cristo foi um contínuo ensinamento: os seus silêncios, os seus milagres, os seus gestos, a sua oração, o seu amor pelo homem, a sua predilecção pelos pequenos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na cruz pela redenção do mundo, a sua ressurreição tudo é actuação da sua palavra e cumprimento da Revelação»330.

  1. 330João Paulo II, Ex. Ap. Catechesi tradendae, 9: AAS 71 (1979) 1284.
562

Os discípulos de Cristo devem conformar-se com Ele até que Ele Se forme neles331, «Por isso, somos assumidos nos mistérios da sua vida, configurados com Ele, com Ele mortos e ressuscitados, até que reinemos com Ele»332.

  1. 331Cf. Gl 4, 19.
  2. 332II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965) 10.
563

Pastor ou mago, ninguém pode atingir a Deus neste mundo senão ajoelhando diante do presépio de Belém e adorando-O oculto na fraqueza duma criança.

564

Pela sua submissão a Maria e a José, assim como pelo seu trabalho humilde em Nazaré durante longos anos, Jesus dá-nos o exemplo da santidade na vida quotidiana da família e do trabalho.

565

Desde o princípio da sua vida pública, desde o seu baptismo, Jesus é o «Servo» inteiramente consagrado à obra redentora, que consumará pelo «baptismo» da sua paixão.

566

A tentação no deserto mostra Jesus como Messias humilde, que triunfa de Satanás pela total adesão ao desígnio de salvação querido pelo Pai.

567

O Reino dos céus foi inaugurado na terra por Cristo, e resplandece para os homens na palavra, nas obras e na presença de Cristo»333. A Igreja é o gérmen e o princípio deste Reino. As suas chaves são confiadas a Pedro.

  1. 333II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 7.
568

A transfiguração de Cristo tem por fim fortalecer a fé dos Apóstolos em vista da paixão: a subida à «alta montanha» prepara a subida ao Calvário. Cristo, cabeça da Igreja, manifesta o que o seu Corpo contém e irradia nos sacramentos: «a esperança da Glória» (Cl 1, 27)334.

  1. 334Cf. São Leão Magno, Sermão 51, 3: CCL 138A, 298-299 (PL 54. 310).
569

Jesus subiu voluntariamente a Jerusalém, sabendo perfeitamente que ali ia morrer de morte violenta, por causa da oposição dos pecadores335.

  1. 335Cf. Heb 12, 3.
570

A entrada de Jesus em Jerusalém manifesta a vinda do Reino, que o Rei-Messias, acolhido na cidade pelas crianças e pelos humildes de corarão, vai realizar pela Páscoa da sua morte e ressurreição.

ARTIGO 4
«JESUS CRISTO PADECEU SOB PÔNCIO PILATOS FOI CRUCIFICADO, MORTO E SEPULTADO»
571

O mistério pascal da cruz e ressurreição de Cristo está no centro da Boa-Nova que os Apóstolos, e depois deles a Igreja, devem anunciar ao mundo. O desígnio salvífico de Deus cumpriu-se de «una vez por todas» (Heb 9, 26) pela morte redentora do seu Filho Jesus Cristo.

Ver também§ 1067

572

A Igreja permanece fiel à «interpretação de todas as Escrituras» dada pelo próprio Jesus, tanto antes como depois da sua Páscoa336 «Não tinha o Messias de sofrer tudo isto, para entrar na sua glória?» (Lc 24, 26). Os sofrimentos de Jesus tomaram a sua forma histórica concreta, pelo facto de Ele ter sido «rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas» (Mc 8, 31), que «O entregaram aos pagãos para ser escarnecido, flagelado e crucificado» (Mt 20, 19).

Ver também§ 599

  1. 336Cf. Lc 24, 27, 44-45.
573

A fé pode, portanto, esforçar-se por investigar as circunstâncias da morte de Jesus, fielmente transmitidas pelos evangelhos337 e esclarecidas por outras fontes históricas, para melhor compreender o sentido da redenção.

Ver também§ 158

  1. 337Cf. II Concílio do Vaticano. Const. dogm. Dei Verbum, 19; AAS 58 (1966) 826-827.
PARÁGRAFO 1
JESUS E ISRAEL
574

Desde o princípio do ministério público de Jesus, fariseus e partidários de Herodes, com sacerdotes e escribas, puseram-se de acordo para lhe dar a morte338. Por alguns dos seus actos (expulsões de demónios339; perdão dos pecados340 curas em dia de sábado341; interpretação original dos preceitos de pureza legal342: trato familiar com publicanos e pecadores públicos343, Jesus pareceu a alguns, mal intencionados, suspeito de possessão diabólica344. Foi acusado de blasfémia345 e de falso profetismo346, crimes religiosos que a Lei castigava com a pena de morte por apedrejamento347.

Ver também§ 530§ 591

  1. 338Cf. Mc 3, 6.
  2. 339Cf. Mt 12, 24.
  3. 340Cf. Mc 2, 7.
  4. 341Cf. Mc 3, 1-6.
  5. 342Cf. Mc 7, 14-23.
  6. 343Cf. Mc2, 14-17.
  7. 344Cf. Mc 3, 22: Jo 8, 48: 10, 20.
  8. 345Cf. Mc 2, 7; Jo 5, 18; 10, 33.
  9. 346Cf. Jo 7, 12; 52.
  10. 347Cf. Jo 8, 59; 10, 31.
575

Muitas atitudes e palavras de Jesus foram, portanto, «sinal de contradição»348 para as autoridades religiosas de Jerusalém, a quem o Evangelho de São João muitas vezes chama simplesmente «os Judeus»349, mais ainda do que para o comum do Povo de Deus350. Sem dúvida que as suas relações com os fariseus não foram unicamente polémicas: são fariseus que O previnem do perigo que corre351. Jesus louva alguns de entre eles, como o escriba de Mc 12, 34, e em várias ocasiões come em casa de fariseus352. Jesus confirma doutrinas partilhadas por esta elite religiosa do povo de Deus: a ressurreição dos mortos353 formas de piedade (esmola, jejum e oração354) e o hábito de se dirigir a Deus como Pai, o carácter central do mandamento do amor de Deus e do próximo355.

Ver também§ 993

  1. 348Cf. Lc 2, 34.
  2. 349CL Jo 1, 19; 2, 18; 5, 10; 7, 13; 9, 22 18, 12: 19, 38; 20, 19.
  3. 350Cf. Jo 7, 48-49.
  4. 351Cf. Lc 13, 31.
  5. 352Cf. Lc 7, 36; 14, 1.
  6. 353Cf. Mt 22, 23-34; Lc 20, 39.
  7. 354Cf. Mt 6, 2-18.
  8. 355Cf. Mc 12, 28-34.
576

Aos olhos de muitos em Israel, parece que Jesus procede contra as instituições essenciais do Povo eleito:

– a submissão à Lei, na totalidade dos seus preceitos escritos e, para os fariseus, na interpretação da tradição oral;

– a centralidade do templo de Jerusalém, como lugar santo em que Deus habita de maneira privilegiada;

– a fé no Deus único, cuja glória nenhum homem pode partilhar.

I. Jesus e a Lei
577

Jesus fez uma solene advertência no início do sermão da montanha, ao apresentar a Lei dada por Deus no Sinai, quando da primeira Aliança, à luz da graça da Nova Aliança:

«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a Terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequeno que seja, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os praticar e ensinar, será grande no Reino dos céus» (Mt 5, 17-19).

Ver também§ 1965§ 1967

578

Jesus, o Messias de Israel e, portanto, o maior no Reino dos céus, fazia questão de cumprir a Lei, executando-a integralmente até nos mais pequenos preceitos, segundo as suas próprias palavras. Foi, mesmo, o único a poder fazê-lo perfeitamente356. Os Judeus, segundo a sua própria confissão, não puderam nunca cumprir integralmente a Lei sem violação do mínimo preceito357. Por isso é que, em cada festa anual da Expiação, os filhos de Israel pediam a Deus perdão pelas suas transgressões da Lei. Com efeito, a Lei constitui um todo e, como lembra São Tiago, «quem observa toda a Lei, mas falta num só mandamento, torna-se réu de todos os outros» (Tg 2, 10)358.

Ver também§ 1953

  1. 356Cf. Jo 8, 46.
  2. 357Cf. Jo 7, 19; Act 13, 38-41; 15, 10.
  3. 358Cf. Gl 3, 10; 5, 3.
579

Este princípio da integralidade da observância da Lei, não só na letra mas também no espírito, era caro aos fariseus. Tomando-o extensivo a Israel, conduziram muitos judeus do tempo de Jesus a um zelo religioso extremo359. E um tal zelo, se não se ficasse por uma casuística «hipócrita»360, com certeza que prepararia o povo para esta inaudita intervenção de Deus, que será o cumprimento perfeito da Lei pelo único justo representante de todos os pecadores361.

  1. 359Cf. Rm 10, 2.
  2. 360Cf. Mt 15, 3-7; Lc 11, 39-54.
  3. 361Cf. Is 53, 11: Heb 9, 15.
580

O cumprimento perfeito da Lei só podia ser obra do divino Legislador, nascido sujeito à Lei na pessoa do Filho362. Em Jesus, a Lei já não aparece gravada em tábuas de pedra, mas «no íntimo do coração» (Jr 31, 33) do Servo, o qual, proclamando «fielmente o direito» (Is 42, 3), se tornou «a aliança do povo» (Is 42, 6). Jesus cumpriu a Lei até ao ponto de tomar sobre Si «a maldição da Lei»363 em que incorrem aqueles que não «praticam todos os preceitos da Lei»364; porque «a morte de Cristo foi para remir as faltas cometidas durante a primeira Aliança» (Heb 9, 15).

Ver também§ 527

  1. 362Cf. Gl 4, 4.
  2. 363Cf. Gl 3, 13.
  3. 364Cf. Gl 3, 10.
581

Jesus apareceu aos olhos dos Judeus e dos seus chefes espirituais como um «rabbi»365. Muitas vezes argumentou, no quadro da interpretação rabínica da Lei366. Mas, ao mesmo tempo, Jesus tinha forçosamente de Se confrontar com os doutores da Lei porque não Se contentava com propor a sua interpretação a par das deles: «ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas» (Mt 7, 28-29). N'Ele, era a própria Palavra de Deus, que Se fizera ouvir no Sinai, para dar a Moisés a Lei escrita, que de novo Se fazia ouvir sobre a montanha das bem-aventuranças367. Esta Palavra de Deus não aboliu a Lei, mas cumpriu-a, ao fornecer, de modo divino, a sua interpretação última: «Ouvistes que foi dito aos antigos [...] Eu, porém, digo-vos» (Mt 5, 33-34). Com esta mesma autoridade divina, desaprova certas «tradições humanas»368 dos fariseus, que «anulam a Palavra de Deus»369.

Ver também§ 2054

  1. 365Cf. Jo 3. 2; Mt 22, 23-24. 34-36.
  2. 366Cf. Mt 9, 12; 12, 5: Mc 2, 23-27; Lc 6, 6-9; Jo 7, 22-23.
  3. 367Cf. Mt 5, 1.
  4. 368Cf. Mc 7, 8.
  5. 369Cf. Mc 7, 13.
582

Indo mais longe, Jesus cumpriu a lei sobre a pureza dos alimentos, tão importante na vida quotidiana judaica, explicando o seu sentido «pedagógico»370 por uma interpretação divina: «Não há nada fora do homem que, ao entrar nele, o possa tornar impuro [...] – e assim declarava puros todos os alimentos – [...]. O que sai do homem é que o toma impuro. Pois, do interior do coração dos homens é que saem os pensamentos perversos» (Mc 7, 18-21). Proporcionando, com autoridade divina, a interpretação definitiva da Lei, Jesus colocou-Se numa situação de confronto com certos doutores da Lei, que não aceitavam a sua interpretação, muito embora garantida pelos sinais divinos que a acompanhavam371. Isto vale sobretudo para a questão do sábado: Jesus lembra, e muitas vezes com argumentos rabínicos372, que o repouso sabático não é violado pelo serviço de Deus373 ou do próximo374 que as suas curas realizam.

Ver também§ 368§ 548§ 2173

  1. 370Cf. Gl 3, 24.
  2. 371Cf. Jo 5, 36; 10 25. 37-38; 12, 37.
  3. 372Cf. Mc 2, 25-27; Jo 7, 22-24.
  4. 373Cf. Mt 12, 5; Nm 28, 9.
  5. 374Cf. Lc 13, 15-16; 14, 3-4.
II. Jesus e o templo
583

Jesus, como antes d'Ele os profetas, professou pelo templo de Jerusalém o mais profundo respeito. Ali foi apresentado por José e Maria, quarenta dias depois do seu nascimento375. Na idade de doze anos, decidiu ficar no templo para lembrar aos seus pais que tinha de Se ocupar das coisas de seu Pai376. Ao templo subiu todos os anos, ao menos pela Páscoa, durante a vida oculta377. O seu próprio ministério público foi ritmado pelas peregrinações a Jerusalém nas grandes festas judaicas378.

Ver também§ 529§ 534

  1. 375Cf. Lc 2, 22-39.
  2. 376Cf. Lc 2, 46-49.
  3. 377Cf. Lc 2, 41.
  4. 378Cf. Jo 2, 13-14; 5, 1.14; 7, 1.10.14; 8, 2; 10, 22-23.
584

Jesus subiu ao templo como quem sobe ao lugar privilegiado de encontro com Deus. O templo é para Ele a casa do seu Pai, uma casa de oração, e indigna-Se com o facto de o átrio exterior se ter tornado lugar de negócio379. Se expulsa os vendilhões do templo é pelo amor zeloso a seu Pai: «Não façais da casa do meu Pai casa de comércio». «Os discípulos recordaram-se de que estava escrito: "O zelo pela tua casa devorar-me-á" (Sl 69, 10)» (Jo 2, 16-17). Depois da ressurreição, os Apóstolos guardaram para com o templo um respeito religioso380.

Ver também§ 2599

  1. 379Cf. Mt 21, 13.
  2. 380Cf. Act 2, 46; 3. 1; 5, 20-21; etc.
585

No entanto, nas vésperas da sua paixão, Jesus anunciou a ruína deste esplêndido edifício, do qual não ficaria pedra sobre pedra381. Há aqui o anúncio dum sinal dos últimos tempos, que vão iniciar-se com a sua própria Páscoa382. Mas esta profecia pôde ser referida de modo deturpado por falsas testemunhas, quando do interrogatório a que Jesus foi sujeito em casa do sumo-sacerdote383 e ser-Lhe lançada em rosto, como injúria, quando agonizava, pregado na cruz384.

  1. 381Cf. Mt 24, 1-2.
  2. 382Cf. Mt 24, 3: Lc 13, 35.
  3. 383Cf. Mc 14, 57-58.
  4. 384Cf. Mt 27, 39-40.
586

Longe de ter sido contra o templo385 onde proclamou o essencial da sua doutrina386, Jesus quis pagar o imposto do templo, associando a Si Pedro387, que Ele acabara de estabelecer como pedra basilar da sua Igreja futura388. Mais ainda: identificou-Se com o templo, apresentando-Se como a morada definitiva de Deus entre os homens389. Por isso é que a sua entrega à morte corporal390 prenuncia a destruição do templo, a qual vai assinalar a entrada numa nova idade da história da salvação: «Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai» (Jo 4, 21)391.

Ver também§ 797§ 1179

  1. 385Cf. Mt 8, 4; 23, 21; Lc 17, 14; Jo 4, 22.
  2. 386Cf. Jo 18, 20.
  3. 387Cf. Mt 17, 24-27.
  4. 388Cf. Mt 16, 18.
  5. 389Cf. Jo 2, 21; Mt 12, 6.
  6. 390Cf. Jo 2, 18-22.
  7. 391Cf. Jo 4, 23-24; Mt 27, 51: Heb 9, 11; Ap 21, 22.
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S. Josemaría Escrivá · escriva.org

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