Só a identidade divina da pessoa de Jesus é que pode justificar uma exigência tão absoluta como esta: «Quem não está comigo, está contra Mim» (); o mesmo se diga de quando afirma ser «mais que Jonas,... mais que Salomão» (), «mais que o templo»404; de quando lembra, a respeito de si próprio, que David chamou ao Messias o seu Senhor405; de quando afirma: «Antes de Abraão existir, "Eu sou"» (); e ainda mais: «Eu e o Pai somos um» ().
Jesus pediu às autoridades religiosas de Jerusalém que acreditassem n'Ele, por causa das obras do seu Pai que Ele fazia406. Mas tal acto de fé tinha de passar por uma misteriosa morte para si mesmo, a qual desse lugar a um novo «nascimento do Alto»407, por atracção da graça divina408. Tal exigência de conversão, face a um tão surpreendente cumprimento das promessas409, permite compreender o trágico desdém do Sinédrio, ao sentenciar que Jesus merecia a morte como blasfemo410. Os membros do Sinédrio agiam assim, ao mesmo tempo por «ignorância»411 e pelo «endurecimento»412 da sua «incredulidade»413.
Jesus não aboliu a Lei do Sinai, mas cumpriu-a414 com tal perfeição415 que revelou o sentido último dela416 e resgatou as transgressões contra ela cometidas417.
Jesus venerou o templo, subindo a ele nas festas judaicas de peregrinação e amou com amor zeloso esta morada de Deus entre os homens. O templo prefigura o seu mistério. Quando anuncia a sua destruição, fá-lo como revelação da sua própria morte e da entrada numa nova idade da história da salvação, em que o seu Corpo será o templo definitivo.
Jesus praticou actos, como o perdão dos pecados, que O manifestaram como sendo o próprio Deus salvador418. Alguns judeus, que, não reconhecendo o Deus feito homem419 viam n'Ele «um homem que se faz Deus»420, julgaram-n'O como blasfemo.
Entre as autoridades religiosas de Jerusalém, não somente se encontravam o fariseu Nicodemos421 e o notável José de Arimateia, discípulos ocultos de Jesus422, mas também, durante muito tempo, houve dissensões a respeito d'Ele423 ao ponto de, na própria véspera da paixão. João poder dizer deles que «um bom número acreditou n' Ele», embora de modo assaz imperfeito (); o que não é nada de admirar, tendo-se presente que, no dia seguinte ao de Pentecostes, «um grande número de sacerdotes se submetia à fé» () e «alguns homens do partido dos fariseus tinham abraçado a fé» (), de tal modo que São Tiago podia dizer a São Paulo que «muitos milhares entre os judeus abraçaram a fé e todos têm zelo pela Lei» ().