Este plano divino de salvação, pela entrega à morte do «Servo, o Justo»444, tinha sido de antemão anunciado na Escritura como um mistério de redenção universal, quer dizer, de resgate que liberta os homens da escravidão do pecado445 São Paulo professa, numa confissão de fé que diz ter «recebido»446, que «Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras» ()447. A morte redentora de Jesus deu cumprimento sobretudo à profecia do Servo sofredor448. O próprio Jesus apresentou o sentido da sua vida e da sua morte à luz do Servo sofredor449. Após a sua ressurreição, deu esta interpretação das Escrituras aos discípulos de Emaús450 e depois aos próprios Apóstolos451.
§ 601–610
Consequentemente, Pedro pôde formular assim a fé apostólica no plano divino da salvação: «fostes resgatados da vã maneira de viver herdada dos vossos pais, pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito nem mancha, predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por nossa causa» (). Os pecados dos homens, que se seguiram ao pecado original, foram castigados com a morte452. Enviando o seu próprio Filho na condição de escravo453, que era a de uma humanidade decaída e votada à morte por causa do pecado454, «a Cristo, que não conhecera o pecado, Deus fê-lo pecado por amor de nós, para que, em Cristo, nos tornássemos justos aos olhos de Deus» ().
Jesus não conheceu a reprovação como se tivesse pecado pessoalmente455. Mas, no amor redentor que constantemente O unia ao Pai456, assumiu-nos no afastamento do nosso pecado em relação a Deus a ponto de, na cruz, poder dizer em nosso nome: «Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?» ()457. Tendo-O feito solidário connosco, pecadores, «Deus não poupou o seu próprio Filho, mas entregou-O para morrer por nós todos» (), para que fôssemos «reconciliados com Ele pela morte do seu Filho» ().
Ver também§ 2572
Entregando o seu Filho pelos nossos pecados, Deus manifesta que o seu plano sobre nós é um desígnio de amor benevolente, independente de qualquer mérito da nossa parte: «Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, foi Deus que nos amou a nós e enviou o seu Filho como vítima de propiciação pelos nossos pecados» ()458. «Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores» ().
- 458Cf. .
Este amor é sem exclusão. Jesus lembrou-o ao terminar a parábola da ovelha perdida: «Assim, não é da vontade do meu Pai, que está nos céus, que se perca um só destes pequeninos» (). E afirma «dar a Sua vida em resgate pela multidão» (). Esta última expressão não é restritiva: simplesmente contrapõe o conjunto da humanidade à pessoa única do redentor, que Se entrega para a salvar459. No seguimento dos Apóstolos460, a Igreja ensina que Cristo morreu por todos os homens, sem excepção: «Não há, não houve, nem haverá nenhum homem pelo qual Cristo não tenha sofrido»461.
O Filho de Deus, «descido do céu, não para fazer a sua vontade mas a do seu Pai, que O enviou»462, «diz, ao entrar no mundo: [...] Eis-me aqui, [...] ó Deus, para fazer a tua vontade. [...] E em virtude dessa mesma vontade, é que nós fomos santificados, pela oferenda do corpo de Jesus Cristo, feita de uma vez para sempre» (). Desde o primeiro instante da sua Encarnação, o Filho faz seu o plano divino de salvação, no desempenho da sua missão redentora: «O meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou e realizar a sua obra» (). O sacrifício de Jesus «pelos pecados do mundo inteiro» () é a expressão da sua comunhão amorosa com o Pai: «O Pai ama-Me, porque Eu dou a minha vida» (). «O mundo tem de saber que amo o Pai e procedo como o Pai Me ordenou» ().
- 462Cf. Jo 6. 38.
Este desejo de fazer seu o plano do amor de redenção do seu Pai, anima toda a vida de Jesus463. A sua paixão redentora é a razão de ser da Encarnação: «Pai, salva-Me desta hora! Mas por causa disto, é que Eu cheguei a esta hora» (). «O cálice que o Pai Me deu, não havia de bebê-lo?» (). E ainda na cruz, antes de «tudo estar consumado» (), diz: «Tenho sede» ().
Ver também§ 457
- 463Cf. ; 22, 15: .
Depois de ter aceitado dar-Lhe o baptismo como aos pecadores464, João Baptista viu e mostrou em Jesus o «Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»465. Manifestou deste modo que Jesus é, ao mesmo tempo, o Servo sofredor, que Se deixa levar ao matadouro sem abrir a boca466, carregando os pecados das multidões467, e o cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa468, Toda a vida de Cristo manifesta a sua missão: «servir e dar a vida como resgate pela multidão»469.
Ao partilhar, no seu coração humano, o amor do Pai para com os homens, Jesus «amou-os até ao fim» (), «pois não há maior amor do que dar a vida por aqueles que se ama» (). Assim, no sofrimento e na morte, a sua humanidade tornou-se instrumento livre e perfeito do seu amor divino, que quer a salvação dos homens470. Com efeito, Ele aceitou livremente a sua paixão e morte por amor do Pai e dos homens a quem o Pai quer salvar: «Ninguém Me tira a vida. Sou Eu que a dou espontaneamente» (). Daí, a liberdade soberana do Filho de Deus, quando Ele próprio vai ao encontro da morte471.
Jesus exprimiu de modo supremo a oblação livre de Si mesmo na refeição que tornou com os doze Apóstolos472, na «noite em que foi entregue» (). Na véspera da sua paixão, quando ainda era livre, Jesus fez desta última Ceia com os Apóstolos o memorial da sua oblação voluntária ao Pai473 para a salvação dos homens: «Isto é o meu Corpo, que vai ser entregue por vós» (). «Isto é o meu "Sangue da Aliança", que vai ser derramado por uma multidão, para remissão dos pecados» ().