As frequentes afirmações do Novo Testamento, segundo as quais Jesus «ressuscitou de entre os mortos» ()528, pressupõem que, anteriormente à ressurreição, Ele tenha estado na mansão dos mortos529 este o sentido primeiro dado pela pregação apostólica à descida de Jesus à mansão dos mortos: Jesus conheceu a morte, como todos os homens, e foi ter com eles à morada dos mortos. Porém, desceu lá como salvador proclamando a Boa-Nova aos espíritos que ali estavam prisioneiros530.
§ 632–635
A morada dos mortos, a que Cristo morto desceu, é chamada pela Escritura os infernos, Sheol ou Hades531, porque aqueles que aí se encontravam estavam privados da visão de Deus532. Tal era o caso de todos os mortos, maus ou justos, enquanto esperavam o Redentor533, o que não quer dizer que a sua sorte fosse idêntica, como Jesus mostra na parábola do pobre Lázaro, recebido no «seio de Abraão»534. «Foram precisamente essas almas santas, que esperavam o seu libertador no seio de Abraão, que Jesus Cristo libertou quando desceu à mansão dos mortos»535. Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados536, nem para abolir o inferno da condenação537, mas para libertar os justos que O tinham precedido538.
Ver também§ 1033
- 531Cf. ; : ; .
- 532Cf. ; 88, 11-13.
- 533Cf. ; : .
- 534Cf. ,
- 535CatRom 1. 6. 3. p. 71.
- 536Cf. Concílio de Roma (ano 745), De descensu Christi ad inferos: DS 587.
- 537Cf. Bento XII, Libellus, Cum dudum (1341). 18: DS 1011; Clemente VI, Ep. Super quibusdam (ano 1351), c. 15, 13: DS 1077.
- 538Cf. IV Concílio de Toledo (ano 633). Capitulum, 1: DS 485; .
«A Boa-Nova foi igualmente anunciada aos mortos...» (). A descida à mansão dos mortos é o cumprimento, até à plenitude, do anúncio evangélico da salvação. É a última fase da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta no seu significado real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, porque todos aqueles que se salvaram se tornaram participantes da redenção.
Ver também§ 605
Cristo, portanto, desceu aos abismos da morte539, para que «os mortos ouvissem a voz do Filho do Homem e os que a ouvissem, vivessem» (). Jesus, «o Príncipe da Vida»540, «pela sua morte, reduziu à impotência aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertou quantos, por meio da morte, se encontravam sujeitos à servidão durante a vida inteira» (). Desde agora, Cristo ressuscitado «detém as chaves da morte e do Hades» () e «ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos» ().
«Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos [...]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho [...] "Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho [...] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos"»541.