Catecismo

§ 74–120

ARTIGO 2
A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA
74

Deus «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 4), quer dizer, de Cristo Jesus37. Por isso, é preciso que Cristo seja anunciado a todos os povos e a todos os homens, e que, assim a Revelação chegue aos confins do mundo:

Deus dispôs amorosamente que permanecesse íntegro e fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos38.

Ver também§ 851

  1. 37Cf. Jo 14, 6.
  2. 38II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 7: AAS 58 (1966) 820.
I. A Tradição apostólica
75

«Cristo Senhor, em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma, tendo cumprido e promulgado pessoalmente o Evangelho antes prometido pelos profetas, mandou aos Apóstolos que o pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, comunicando-lhes assim os dons divinos»39.

Ver também§ 171

  1. 39II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 7: AAS 58 (1966) 820.
A PREGAÇÃO APOSTÓLICA ...
76

A transmissão do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras:

– oralmente, «pelos Apóstolos, que, na sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo»;

– por escrito, «por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação»40.

  1. 40II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 7: AAS 58 (1966) 820.
... CONTINUADA NA SUCESSÃO APOSTÓLICA
77

«Para que o Evangelho fosse perenemente conservado íntegro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os bispos como seus sucessores, "entregando-lhes o seu próprio ofício de magistério"»41. Com efeito, «a pregação apostólica, que se exprime de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão ininterrupta, até à consumação dos tempos»42.

Ver também§ 861

  1. 41II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 7: AAS 58 (1966) 820.
  2. 42II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
78

Esta transmissão viva, realizada no Espírito Santo, denomina-se Tradição, enquanto distinta da Sagrada Escritura, embora estreitamente a ela ligada. Pela Tradição, «a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo em que acredita»43. «Afirmações dos santos Padres testemunham a presença vivificadora desta Tradição, cujas riquezas entram na prática e na vida da Igreja crente e orante»44.

Ver também§ 174§ 1124§ 2651

  1. 43II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
  2. 44II Concílio do Vaticano. Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
79

Assim, a comunicação que o Pai fez de Si próprio, pelo seu Verbo, no Espírito Santo, continua presente e activa na Igreja: «Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o Espírito Santo – por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja, e, pela Igreja, no mundo – introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles habite em toda a sua riqueza»45.

  1. 45II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
II. A relação entre a Tradição e a Sagrada Escritura
UMA FONTE COMUM...
80

«A Tradição sagrada e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim»46. Uma e outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de Cristo, que prometeu estar com os seus, «sempre, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20).

  1. 46II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 9: AAS 58 (1966) 821.
... DUAS FORMAS DE TRANSMISSÃO DISTINTAS
81

«A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito divino».

«A sagrada Tradição, por sua vez, conserva a Palavra de Deus, confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, e transmite-a integralmente aos seus sucessores, para que eles, com a luz do Espírito da verdade, fielmente a conservem, exponham e difundam na sua pregação»47.

Ver também§ 113

  1. 47II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 9: AAS 58 (1966) 821.
82

Daí resulta que a Igreja, a quem está confiada a transmissão e interpretação da Revelação, «não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência»48.

  1. 48II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 9: AAS 58 (1966) 821.
TRADIÇÃO APOSTÓLICA E TRADIÇÕES ECLESIAIS
83

A Tradição de que falamos aqui é a que vem dos Apóstolos. Ela transmite o que estes receberam do ensino e do exemplo de Jesus e aprenderam pelo Espírito Santo. De facto, a primeira geração de cristãos não tinha ainda um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento testemunha o processo da Tradição viva.

É preciso distinguir, desta Tradição, as «tradições» teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais, nascidas no decorrer do tempo nas Igrejas locais. Elas constituem formas particulares, sob as quais a grande Tradição recebe expressões adaptadas aos diversos lugares e às diferentes épocas. É à sua luz que estas podem ser mantidas, modificadas e até abandonadas, sob a direcção do Magistério da Igreja.

Ver também§ 1202§ 2041§ 2684

III. A interpretação da herança da fé
A HERANÇA DA FÉ CONFIADA À TOTALIDADE DA IGREJA
84

O depósito da fé49 («depositum fidei»), contido na Tradição sagrada e na Sagrada Escritura, foi confiado pelos Apóstolos ao conjunto da Igreja. «Apoiando-se nele, todo o povo santo persevera unido aos seus pastores na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração, de tal modo que, na conservação, actuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis»50.

Ver também§ 857§ 871§ 2033

  1. 49Cf. 1 Tm 6, 20; 2 Tm 1, 12-14.
  2. 50II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 10: AAS 58 (1966) 822.
O MAGISTÉRIO DA IGREJA
85

«O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo51, isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma.

Ver também§ 888–892§ 2032–2040

  1. 51II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 10: AAS 58 (1966) 822.
86

«Todavia, este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado»52.

Ver também§ 688

  1. 52II Concílio do Vaticano. Const. dogm. Dei Verbum, 10: AAS 58 (1966) 822.
87

Os fiéis, lembrando-se da palavra de Cristo aos Apóstolos: «Quem vos escuta escuta-me a Mim» (Lc 10, 16)53, recebem com docilidade os ensinamentos e as directrizes que os seus pastores lhes dão, sob diferentes formas.

Ver também§ 1548§ 2037

  1. 53Cf. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 20: AAS 57 (1965) 24.
OS DOGMAS DA FÉ
88

O Magistério da Igreja faz pleno uso da autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando propõe, dum modo que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, verdades contidas na Revelação divina ou quando propõe, de modo definitivo, verdades que tenham com elas um nexo necessário.

Ver também§ 888–892§ 2032–2040

89

Existe uma ligação orgânica entre a nossa vida espiritual e os dogmas. Os dogmas são luzes no caminho da nossa fé: iluminam-no e tornam-no seguro. Por outro lado, se a nossa vida for recta, a nossa inteligência e nosso coração estarão abertos para acolher a luz dos dogmas da fé54.

Ver também§ 2625

  1. 54Cf. Jo 8, 31-32.
90

A interligação e a coerência dos dogmas podem encontrar-se no conjunto da revelação do mistério de Cristo55. Convém lembrar que «existe uma ordem ou "hierarquia" das verdades da doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diferente»56.

Ver também§ 114§ 158§ 234

  1. 55Cf. I Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Filius, c. 4: DS 3016 «mysteriorum nexus». Cf. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 25: AAS 57 (1965) 29.
  2. 56II Concílio do Vaticano, Decr. Unitatis redintegratio, 11: AAS 57 (1965) 99.
O SENTIDO SOBRENATURAL DA FÉ
91

Todos os fiéis participam na compreensão e na transmissão da verdade revelada. Todos receberam a unção do Espírito Santo que os instrui57 e os conduz «à verdade total» (Jo 16, 13).

Ver também§ 54§ 737

  1. 57Cf. 1 Jo 2, 20. 27.
92

«A totalidade dos fiéis [...] não pode enganar-se na fé e manifesta esta sua propriedade peculiar por meio do sentir sobrenatural da fé do povo todo, quando, "desde os bispos até ao último dos fiéis leigos", exprime consenso universal em matéria de fé e costumes»58.

Ver também§ 785

  1. 58II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 12: AAS 57 (1965) 16.
93

«Com este sentido da fé, que se desperta e sustenta pela acção do Espírito de verdade, o povo de Deus, sob a direcção do sagrado Magistério [...] adere indefectivelmente à fé, uma vez por todas confiada aos santos; penetra-a mais profundamente com juízo acertado e aplica-a mais totalmente na vida»59.

Ver também§ 889

  1. 59II Concílio do Vaticano. Const. dogm. Lumen Gentium, 12: AAS 57 (1965) 16.
O CRESCIMENTO NA INTELIGÊNCIA DA FÉ
94

Graças à assistência do Espírito Santo, a inteligência das realidades e das palavras do depósito da fé pode crescer na vida da Igreja:

– «Pela contemplação e pelo estudo dos crentes, que as meditam no seu coração»60; e particularmente pela «investigação teológica, que aprofunda o conhecimento da verdade revelada»61.

– «Pela inteligência interior das coisas espirituais que os crentes experimentam»62; «Divina eloquia cum legente crescunt» – «As palavras divinas crescem com quem as lê»63.

– «Pela pregação daqueles que receberam, com a sucessão episcopal, um carisma certo da verdade»64.

Ver também§ 66§ 2651§ 2038§ 2518

  1. 60II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
  2. 61II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 62: AAS 58 (1966) 1084: cf. Ibid.. 44: AAS 58 (1966) 1065; Const. dogm. Dei Verbum, 23: AAS 58 (1966) 828; Ibid. 24: AAS 58 (1966) 828-829: Decr. Unitatis redintegratio, 4: AAS 57 (1965) 94.
  3. 62II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
  4. 63São Gregório Magno, Homilia in Ezechielem 1. 7, 8: CCL 142. 87 (PL 76, 843 D).
  5. 64II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
95

«É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, segundo um sapientíssimo desígnio de Deus, estão de tal maneira ligados e conjuntos, que nenhum pode subsistir sem os outros e, todos juntos, cada um a seu modo, sob a acção do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas»65.

  1. 65II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 10: AAS 58 (1966) 822.
Resumindo:
96

O que Cristo confiou aos Apóstolos, estes o transmitiram, pela sua pregação e por escrito, sob a inspiração do Espírito Santo, a todas as gerações, até à vinda gloriosa de Cristo.

97

«A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um único depósito sagrado da Palavra de Deus»66, no qual, como num espelho, a Igreja peregrina contempla Deus, fonte de todas as suas riquezas.

  1. 66II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 10: AAS 58 (1966) 822.
98

«Na sua doutrina, vida e culto, a Igreja perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é, tudo aquilo em que acredita»67.

  1. 67II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
99

Graças ao sentido sobrenatural da fé, o povo de Deus, no seu todo, não cessa de acolher o dom da Revelação divina, de nele penetrar mais profundamente e de viver dele mais plenamente.

100

O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado unicamente ao Magistério da Igreja, ao Papa e aos bispos em comunhão com ele.

ARTIGO 3
A SAGRADA ESCRITURA
I. Cristo – Palavra única da Escritura santa
101

Na sua bondade condescendente, para Se revelar aos homens. Deus fala-lhes em palavras humanas: «As palavras de Deus, com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se semelhantes à linguagem humana, tal como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens assumindo a carne da debilidade humana»68.

  1. 68II Concílio do Vaticano. Const. dogm. Dei Verbum, 13: AAS 58 (1966) 824.
102

Através de todas as palavras da Sagrada Escritura. Deus não diz mais que uma só Palavra, o seu Verbo único, em quem totalmente Se diz69:

«Lembrai-vos de que o discurso de Deus que se desenvolve em todas as Escrituras é um só e um só é o Verbo que Se faz ouvir na boca de todos os escritores sagrados, o qual, sendo no princípio Deus junto de Deus, não tem necessidade de sílabas, pois não está sujeito ao tempo»70.

Ver também§ 65§ 2763§ 426–429

  1. 69Cf. Heb 1, 1-3.
  2. 70Santo Agostinho, Enarratio in Psalmum 103, 4, 1: CCL 40, 1521 (PL 37, 1378).
103

Por esta razão, a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras tal como venera o Corpo do Senhor. Nunca cessa de distribuir aos fiéis o Pão da vida, tornado à mesa quer da Palavra de Deus, quer do Corpo de Cristo71.

Ver também§ 1100§ 1184§ 1378

  1. 71II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 21: AAS 58 (1966) 827.
104

Na Sagrada Escritura, a Igreja encontra continuamente o seu alimento e a sua força72, porque nela não recebe apenas uma palavra humana, mas o que ela é na realidade: a Palavra de Deus73. «Nos livros sagrados, com efeito, o Pai que está nos Céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos, a conversar com eles»74.

  1. 72II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 24: AAS 58 (1966) 829.
  2. 73Cf. 1 Ts 2, 13.
  3. 74II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 21: AAS 58 (1966) 827-828.
II. Inspiração e verdade da Sagrada Escritura
105

Deus é o autor da Sagrada Escritura. «A verdade divinamente revelada, que os livros da Sagrada Escritura contêm e apresentam, foi registrada neles sob a inspiração do Espírito Santo».

«Com efeito, a santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como sagrados e canónicos os livros completos do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja»75.

  1. 75II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 11: AAS 58 (1966) 822-823.
106

Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados. «Para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens, na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria»76.

  1. 76II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 11: AAS 58 (1966) 823.
107

Os livros inspirados ensinam a verdade. «E assim como tudo o que os autores inspirados ou hagiógrafos afirmam, deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus quis que fosse consignada nas sagradas Letras em ordem à nossa salvação»77.

Ver também§ 702

  1. 77II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 11: AAS 58 (1966) 823.
108

No entanto, a fé cristã não é uma «religião do Livro». O Cristianismo é a religião da «Palavra» de Deus, «não duma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo»78. Para que não sejam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna do Deus vivo, pelo Espírito Santo, nos abra o espírito à inteligência das Escrituras79.

  1. 78São Bernardo de Claraval, Homilia super "Missus est", 4, 11: Opera, ed. J. Leclercq – H. Rochais, V. 4, Roma 1966, p. 57.
  2. 79Cf. Lc 24, 45.
III. O Espírito Santo, intérprete da Escritura
109

Na Sagrada Escritura, Deus fala ao homem à maneira dos homens. Portanto, para bem interpretar a Escritura, é necessário prestar atenção ao que os autores humanos realmente quiseram dizer, e àquilo que aprouve a Deus manifestar-nos pelas palavras deles80.

  1. 80II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum 12: AAS 58 11966) 823.
110

Para descobrir a intenção dos autores sagrados, é preciso ter em conta as condições do seu tempo e da sua cultura, os «géneros literários» em uso na respectiva época, os modos de sentir, falar e narrar correntes naquele tempo. «Porque a verdade é proposta e expressa de modos diversos, em textos históricos de vária índole, ou proféticos, ou poéticos ou de outros géneros de expressão»81.

  1. 81II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 12: AAS 58 (1966) 823.
111

Mas, uma vez que a Sagrada Escritura é inspirada, existe outro princípio de interpretação recta, não menos importante que o anterior, e sem o qual a Escritura seria letra morta: «A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita»82.

O II Concílio do Vaticano indica três critérios para uma interpretação da Escritura conforme ao Espírito que a inspirou83:

  1. 82II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 12: AAS 58 (1966) 824.
  2. 83II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 12: AAS 58 (1966) 824.
112

1. Prestar grande atenção «ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura». Com efeito, por muito diferentes que sejam os livros que a compõem, a Escritura é una, em razão da unidade do desígnio de Deus, de que Jesus Cristo é o centro e o coração, aberto desde a sua Páscoa84.

«Por coração85 de Cristo entende-se a Sagrada Escritura que nos dá a conhecer o coração de Cristo. Este coração estava fechado antes da Paixão, porque a Escritura estava cheia de obscuridades. Mas a Escritura ficou aberta depois da Paixão e assim, aqueles que desde então a consideram com inteligência, discernem o modo como as profecias devem ser interpretadas»86.

Ver também§ 128§ 368

  1. 84Cf. Lc 24. 25-27. 44-46.
  2. 85Cf. Sl 22, 15.
  3. 86São Tomás de Aquino, Expositio in Psalmos, 21, 11: Opera omnia. v. 18. Paris 1876, p. 350.
113

2. Ler a Escritura na «tradição viva de toda a Igreja». Segundo uma sentença dos Padres, «Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta» – «A Sagrada Escritura está escrita no coração da Igreja, mais do que em instrumentos materiais»87. Com efeito, a Igreja conserva na sua Tradição a memória viva da Palavra de Deus, e é o Espírito Santo que lhe dá a interpretação espiritual da Escritura («... secundum spiritualem sensum quem Spiritus donat Ecclesiae» «segundo o sentido espiritual que o Espírito Santo dá à Igreja»)88.

Ver também§ 81

  1. 87Cf. Santo Hilário de Poitiers, Liber ad Constantium Imperatorem 9: CSEL 65. 204 PL 10, 570); São Jerónimo. Commentarius in epistulam ad Galatas I 1, 11-12: PL 26. 347.
  2. 88Orígenes, Homiliae in Leviticum 5, 5: SC 286, 228 (PG 12, 454).
114

3. Estar atento «à analogia da fé»89. Por «analogia da fé» entendemos a coesão das verdades da fé entre si e no projecto total da Revelação.

Ver também§ 90

  1. 89Cf. Rm 12, 6.
OS SENTIDOS DA ESCRITURA
115

Segundo uma antiga tradição, podemos distinguir dois sentidos da Escritura: o sentido literal e o sentido espiritual, subdividindo-se este último em sentido alegórico, moral e anagógico. A concordância profunda dos quatro sentidos assegura a sua riqueza à leitura viva da Escritura na Igreja:

116

O sentido literal. É o expresso pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese segundo as regras da recta interpretação. «Omnes sensus (sc. Sacrae Scripturae) fundentur super litteralem» – «Todos os sentidos (da Sagrada Escritura) se fundamentam no literal»90.

Ver também§ 110–114

  1. 90São Tomás de Aquino, Summa theologiae I, q. 1, a. 10, ad I: Ed. Leon. 4, 25.
117

O sentido espiritual. Graças à unidade do desígnio de Deus, não só o texto da Escritura, mas também as realidades e acontecimentos de que fala, podem ser sinais.

1. O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos, reconhecendo o seu significado em Cristo: por exemplo, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo e, assim, do Baptismo91.

2. O sentido moral. Os acontecimentos referidos na Escritura podem conduzir-nos a um comportamento justo. Foram escritos «para nossa instrução» (1 Cor 10, 11)92.

3. O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos no seu significado eterno, o qual nos conduz (em grego: «anagoge») em direcção à nossa Pátria. Assim, a Igreja terrestre é sinal da Jerusalém celeste93.

Ver também§ 1101

  1. 91Cf. 1 Cor 10, 2.
  2. 92Cf. Heb 3-4, 11.
  3. 93Cf. Ap 21, 1-22, 5.
118

Um dístico medieval resume a significação dos quatro sentidos:

«Littera gesta docet, quid credas allegoria.

Moralis quid agas, quo tendas anagogia».

«A letra ensina-te os factos (passados), a alegoria o que deves crer,

a moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tender»94.

  1. 94Agostinho de Dácia, Rotulus pugillaris, I: ed. A. Waltz: Angelicum 6(1929) 256.
119

«Cabe aos exegetas trabalhar, de harmonia com estas regras, por entender e expor mais profundamente o sentido da Sagrada Escritura, para que, mercê deste estudo, de algum modo preparatório, amadureça o juízo da Igreja. Com efeito, tudo quanto diz respeito à interpretação da Escritura, está sujeito ao juízo último da Igreja, que tem o divino mandato e o ministério de guardar e interpretar a Palavra de Deus»95:

«Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas» – «Quanto a mim, não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja católica»96.

Ver também§ 94§ 113

  1. 95II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 12: AAS 58 (1966) 824.
  2. 96Santo Agostinho, Contra Epistulam Manichaei quam vocant fundamenti 5. 6: CSEL 25, 197 (PL 42, 176).
IV. O Cânon das Escrituras
120

Foi a Tradição Apostólica que levou a Igreja a discernir quais os escritos que deviam ser contados na lista dos livros sagrados97. Esta lista integral é chamada «Cânon» das Escrituras. Comporta, para o Antigo Testamento, 46 (45, se se contar Jeremias e as Lamentações como um só) escritos, e, para o Novo, 2798:

Para o Antigo Testamento: Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio, Josué, Juízes, Rute, os dois livros de Samuel, os dois livros dos Reis, os dois livros das Crónicas, Esdras e Neemias, Tobias, Judite, Ester, os dois livros dos Macabeus, Job, os Salmos, os Provérbios, o Eclesiastes (ou Coelet), o Cântico dos Cânticos, a Sabedoria, o livro de Ben-Sirá (ou Eclesiástico), Isaías, Jeremias, as Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Nahum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias;

Para o Novo Testamento: Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João; os Actos dos Apóstolos; as epístolas de São Paulo: aos Romanos, primeira e segunda aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, primeira e segunda aos Tessalonicenses, primeira e segunda a Timóteo, a Tito, a Filémon: a Epístola aos Hebreus; a Epístola de Tiago, a primeira e segunda de Pedro, as três epístolas de João, a Epístola de Judas e o Apocalipse.

Ver também§ 1117

  1. 97II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
  2. 98Cf. Decretum Damasi: DS 179-180: Concílio de Florença, Decretum pro Iacobitis: DS 1334-1336; Concílio de Trento. Sess. 4ª. Decretum de Libris Sacris et de traditionibus recipiendis: DS 1501-1504.
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Catecismo — texto oficial · © Libreria Editrice Vaticana · vatican.va

Sagrada Escritura — Bíblia Sagrada, edição Ave Maria

Padres da Igreja, Doutores e Suma Teológica · newadvent.org

S. Josemaría Escrivá · escriva.org

Concílios e documentos papais · Santa Sé · vatican.va

Remissões marginais («Ver também») — os números que a edição típica do Catecismo põe à margem de cada parágrafo, a apontar para outros parágrafos sobre o mesmo tema. O vatican.va não os publica; vêm da transcrição da paróquia de St. Charles Borromeo (só números, sem texto).

Curso de doutrina católica em 10 sessões — aulas do Pe. Miguel Cabral · Oratório de São Josemaria
Vídeo e áudio pertencem ao Oratório; aqui só se liga a cada aula e se juntam as perguntas do Compêndio e os parágrafos do Catecismo.

Índice analítico e índice litúrgico · catecismo.net
Do catecismo.net vêm só os índices: que parágrafos correspondem a cada termo e a cada dia litúrgico. O texto é sempre o do vatican.va.

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