Catecismo

§ 94–113

O CRESCIMENTO NA INTELIGÊNCIA DA FÉ
94

Graças à assistência do Espírito Santo, a inteligência das realidades e das palavras do depósito da fé pode crescer na vida da Igreja:

– «Pela contemplação e pelo estudo dos crentes, que as meditam no seu coração»60; e particularmente pela «investigação teológica, que aprofunda o conhecimento da verdade revelada»61.

– «Pela inteligência interior das coisas espirituais que os crentes experimentam»62; «Divina eloquia cum legente crescunt» – «As palavras divinas crescem com quem as lê»63.

– «Pela pregação daqueles que receberam, com a sucessão episcopal, um carisma certo da verdade»64.

Ver também§ 66§ 2651§ 2038§ 2518

  1. 60II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
  2. 61II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 62: AAS 58 (1966) 1084: cf. Ibid.. 44: AAS 58 (1966) 1065; Const. dogm. Dei Verbum, 23: AAS 58 (1966) 828; Ibid. 24: AAS 58 (1966) 828-829: Decr. Unitatis redintegratio, 4: AAS 57 (1965) 94.
  3. 62II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
  4. 63São Gregório Magno, Homilia in Ezechielem 1. 7, 8: CCL 142. 87 (PL 76, 843 D).
  5. 64II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
95

«É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, segundo um sapientíssimo desígnio de Deus, estão de tal maneira ligados e conjuntos, que nenhum pode subsistir sem os outros e, todos juntos, cada um a seu modo, sob a acção do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas»65.

  1. 65II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 10: AAS 58 (1966) 822.
Resumindo:
96

O que Cristo confiou aos Apóstolos, estes o transmitiram, pela sua pregação e por escrito, sob a inspiração do Espírito Santo, a todas as gerações, até à vinda gloriosa de Cristo.

97

«A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um único depósito sagrado da Palavra de Deus»66, no qual, como num espelho, a Igreja peregrina contempla Deus, fonte de todas as suas riquezas.

  1. 66II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 10: AAS 58 (1966) 822.
98

«Na sua doutrina, vida e culto, a Igreja perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é, tudo aquilo em que acredita»67.

  1. 67II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 8: AAS 58 (1966) 821.
99

Graças ao sentido sobrenatural da fé, o povo de Deus, no seu todo, não cessa de acolher o dom da Revelação divina, de nele penetrar mais profundamente e de viver dele mais plenamente.

100

O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado unicamente ao Magistério da Igreja, ao Papa e aos bispos em comunhão com ele.

ARTIGO 3
A SAGRADA ESCRITURA
I. Cristo – Palavra única da Escritura santa
101

Na sua bondade condescendente, para Se revelar aos homens. Deus fala-lhes em palavras humanas: «As palavras de Deus, com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se semelhantes à linguagem humana, tal como outrora o Verbo do eterno Pai se assemelhou aos homens assumindo a carne da debilidade humana»68.

  1. 68II Concílio do Vaticano. Const. dogm. Dei Verbum, 13: AAS 58 (1966) 824.
102

Através de todas as palavras da Sagrada Escritura. Deus não diz mais que uma só Palavra, o seu Verbo único, em quem totalmente Se diz69:

«Lembrai-vos de que o discurso de Deus que se desenvolve em todas as Escrituras é um só e um só é o Verbo que Se faz ouvir na boca de todos os escritores sagrados, o qual, sendo no princípio Deus junto de Deus, não tem necessidade de sílabas, pois não está sujeito ao tempo»70.

Ver também§ 65§ 2763§ 426–429

  1. 69Cf. Heb 1, 1-3.
  2. 70Santo Agostinho, Enarratio in Psalmum 103, 4, 1: CCL 40, 1521 (PL 37, 1378).
103

Por esta razão, a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras tal como venera o Corpo do Senhor. Nunca cessa de distribuir aos fiéis o Pão da vida, tornado à mesa quer da Palavra de Deus, quer do Corpo de Cristo71.

Ver também§ 1100§ 1184§ 1378

  1. 71II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 21: AAS 58 (1966) 827.
104

Na Sagrada Escritura, a Igreja encontra continuamente o seu alimento e a sua força72, porque nela não recebe apenas uma palavra humana, mas o que ela é na realidade: a Palavra de Deus73. «Nos livros sagrados, com efeito, o Pai que está nos Céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos, a conversar com eles»74.

  1. 72II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 24: AAS 58 (1966) 829.
  2. 73Cf. 1 Ts 2, 13.
  3. 74II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 21: AAS 58 (1966) 827-828.
II. Inspiração e verdade da Sagrada Escritura
105

Deus é o autor da Sagrada Escritura. «A verdade divinamente revelada, que os livros da Sagrada Escritura contêm e apresentam, foi registrada neles sob a inspiração do Espírito Santo».

«Com efeito, a santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como sagrados e canónicos os livros completos do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque, escritos por inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor, e como tais foram confiados à própria Igreja»75.

  1. 75II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 11: AAS 58 (1966) 822-823.
106

Deus inspirou os autores humanos dos livros sagrados. «Para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens, na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria»76.

  1. 76II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 11: AAS 58 (1966) 823.
107

Os livros inspirados ensinam a verdade. «E assim como tudo o que os autores inspirados ou hagiógrafos afirmam, deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus quis que fosse consignada nas sagradas Letras em ordem à nossa salvação»77.

Ver também§ 702

  1. 77II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 11: AAS 58 (1966) 823.
108

No entanto, a fé cristã não é uma «religião do Livro». O Cristianismo é a religião da «Palavra» de Deus, «não duma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo»78. Para que não sejam letra morta, é preciso que Cristo, Palavra eterna do Deus vivo, pelo Espírito Santo, nos abra o espírito à inteligência das Escrituras79.

  1. 78São Bernardo de Claraval, Homilia super "Missus est", 4, 11: Opera, ed. J. Leclercq – H. Rochais, V. 4, Roma 1966, p. 57.
  2. 79Cf. Lc 24, 45.
III. O Espírito Santo, intérprete da Escritura
109

Na Sagrada Escritura, Deus fala ao homem à maneira dos homens. Portanto, para bem interpretar a Escritura, é necessário prestar atenção ao que os autores humanos realmente quiseram dizer, e àquilo que aprouve a Deus manifestar-nos pelas palavras deles80.

  1. 80II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum 12: AAS 58 11966) 823.
110

Para descobrir a intenção dos autores sagrados, é preciso ter em conta as condições do seu tempo e da sua cultura, os «géneros literários» em uso na respectiva época, os modos de sentir, falar e narrar correntes naquele tempo. «Porque a verdade é proposta e expressa de modos diversos, em textos históricos de vária índole, ou proféticos, ou poéticos ou de outros géneros de expressão»81.

  1. 81II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 12: AAS 58 (1966) 823.
111

Mas, uma vez que a Sagrada Escritura é inspirada, existe outro princípio de interpretação recta, não menos importante que o anterior, e sem o qual a Escritura seria letra morta: «A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo espírito com que foi escrita»82.

O II Concílio do Vaticano indica três critérios para uma interpretação da Escritura conforme ao Espírito que a inspirou83:

  1. 82II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 12: AAS 58 (1966) 824.
  2. 83II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 12: AAS 58 (1966) 824.
112

1. Prestar grande atenção «ao conteúdo e à unidade de toda a Escritura». Com efeito, por muito diferentes que sejam os livros que a compõem, a Escritura é una, em razão da unidade do desígnio de Deus, de que Jesus Cristo é o centro e o coração, aberto desde a sua Páscoa84.

«Por coração85 de Cristo entende-se a Sagrada Escritura que nos dá a conhecer o coração de Cristo. Este coração estava fechado antes da Paixão, porque a Escritura estava cheia de obscuridades. Mas a Escritura ficou aberta depois da Paixão e assim, aqueles que desde então a consideram com inteligência, discernem o modo como as profecias devem ser interpretadas»86.

Ver também§ 128§ 368

  1. 84Cf. Lc 24. 25-27. 44-46.
  2. 85Cf. Sl 22, 15.
  3. 86São Tomás de Aquino, Expositio in Psalmos, 21, 11: Opera omnia. v. 18. Paris 1876, p. 350.
113

2. Ler a Escritura na «tradição viva de toda a Igreja». Segundo uma sentença dos Padres, «Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta» – «A Sagrada Escritura está escrita no coração da Igreja, mais do que em instrumentos materiais»87. Com efeito, a Igreja conserva na sua Tradição a memória viva da Palavra de Deus, e é o Espírito Santo que lhe dá a interpretação espiritual da Escritura («... secundum spiritualem sensum quem Spiritus donat Ecclesiae» «segundo o sentido espiritual que o Espírito Santo dá à Igreja»)88.

Ver também§ 81

  1. 87Cf. Santo Hilário de Poitiers, Liber ad Constantium Imperatorem 9: CSEL 65. 204 PL 10, 570); São Jerónimo. Commentarius in epistulam ad Galatas I 1, 11-12: PL 26. 347.
  2. 88Orígenes, Homiliae in Leviticum 5, 5: SC 286, 228 (PG 12, 454).
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Catecismo — texto oficial · © Libreria Editrice Vaticana · vatican.va

Sagrada Escritura — Bíblia Sagrada, edição Ave Maria

Padres da Igreja, Doutores e Suma Teológica · newadvent.org

S. Josemaría Escrivá · escriva.org

Concílios e documentos papais · Santa Sé · vatican.va

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