Catecismo
Bíblia · ed. Ave Maria
Código de Direito Canónico
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§ 51–64

ARTIGO 1
A REVELAÇÃO DE DEUS
I. Deus revela o seu «desígnio benevolente»
51

«Aprouve a Deus, na sua sabedoria e bondade, revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tomam participantes da natureza divina»2.

Ver também§ 2823§ 1996

  1. 2II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.
52

Deus, que «habita numa luz inacessível» (), quer comunicar a sua própria vida divina aos homens que livremente criou, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adoptivos3. Revelando-Se a Si mesmo, Deus quer tornar os homens capazes de Lhe responderem, de O conhecerem e de O amarem, muito para além de tudo o que seriam capazes por si próprios.

  1. 3Cf. .
53

O desígnio divino da Revelação realiza-se, ao mesmo tempo, «por meio de acções e palavras, intrinsecamente relacionadas entre si»4 e esclarecendo-se mutuamente. Comporta uma particular «pedagogia divina»: Deus comunica-Se gradualmente ao homem e prepara-o, por etapas, para receber a Revelação sobrenatural que faz de Si próprio e que vai culminar na Pessoa e missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo.

Santo Ireneu de Lião fala várias vezes desta pedagogia divina, sob a imagem da familiaridade mútua entre Deus e o homem: «O Verbo de Deus [...] habitou no homem e fez-Se Filho do Homem, para acostumar o homem a apreender Deus e Deus a habitar no homem, segundo o beneplácito do Pai»5.

Ver também§ 1953§ 1950

  1. 4II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.
  2. 5Santo Ireneu de Lião, Adversus haereses III, 20, 2: SC 211, 392 (PG 7, 944); cf. por exemplo, Ibid. III 17, I: SC 211. 330 (PG 7, 929); Ibid. IV, 12. 4: SC 100, 518 (PG 7, 1006); Ibid. IV 21, 3: SC 100, 684 (PG 7, 1046).
II. As etapas da Revelação
DESDE A ORIGEM, DEUS DÁ-SE A CONHECER
54

«Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo, oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo nas coisas criadas, e, além disso, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o princípio, aos nossos primeiros pais»6. Convidou-os a uma comunhão íntima consigo, revestindo-os de uma graça e justiça resplandecentes.

Ver também§ 32§ 374

  1. 6II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 3: AAS 58 (1966) 818.
55

Esta Revelação não foi interrompida pelo pecado dos nossos primeiros pais. Com efeito, Deus, «depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-lhes a esperança da salvação, e cuidou continuamente do género humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a salvação»7.

«E quando, por desobediência, perdeu a vossa amizade, não o abandonastes ao poder da morte [...] Repetidas vezes fizestes aliança com os homens8».

Ver também§ 397§ 410§ 761

  1. 7II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 3: AAS 58 (1966) 818.
  2. 8Oração eucarística IV: Missal Romano, editio typica. Typis Polyglottis Vaticanis. 1970 p. 467. [Gráfica de Coimbra 1992, p. 538].
A ALIANÇA COM NOÉ
56

Desfeita a unidade do género humano pelo pecado, Deus procurou imediatamente, salvar a humanidade intervindo com cada uma das suas partes. A aliança com Noé, a seguir ao dilúvio9, exprime o princípio da economia divina em relação às «nações», quer dizer, em relação aos homens reagrupados «por países e línguas, por famílias e nações» ()10.

Ver também§ 401§ 1219

  1. 9Cf. .
  2. 10Cf. .
57

Esta ordem, ao mesmo tempo cósmica, social e religiosa da pluralidade das nações11, destinava-se a limitar o orgulho duma humanidade decaída, que, unânime na sua perversidade12, pretendia refazer por si mesma a própria unidade, à maneira de Babel13. Mas, por causa do pecado14, quer o politeísmo quer a idolatria da nação e do seu chefe são uma contínua ameaça de perversão pagã a esta economia provisória.

  1. 11Cf. .
  2. 12Cf. .
  3. 13Cf. .
  4. 14Cf. .
58

A aliança com Noé permanece em vigor enquanto durar o tempo das nações15, até à proclamação universal do Evangelho. A Bíblia venera algumas grandes figuras das «nações», como «o justo Abel», o rei e sacerdote Melquisedec16, figura de Cristo17, ou os justos «Noé, Danel e Job» (). Deste modo, a Escritura exprime o alto grau de santidade que podem atingir os que vivem segundo a aliança de Noé, na expectativa de que Cristo «reúna, na unidade, todos os filhos de Deus dispersos» ().

Ver também§ 674§ 2569

  1. 15Cf. .
  2. 16Cf. .
  3. 17Cf. .
DEUS ELEGE ABRAÃO
59

Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolhe Abrão, chamando-o para «deixar a sua terra, a sua família e a casa de seu pai» (), para o fazer Abraão, quer dizer, «pai de um grande número de nações» (): «Em ti serão abençoadas todas as nações da Terra» ()18.

Ver também§ 145§ 2570

  1. 18Cf. .
60

O povo descendente de Abraão será o depositário da promessa feita aos patriarcas, o povo eleito19, chamado a preparar a reunião, um dia, de todos os filhos de Deus na unidade da Igreja20. Será o tronco em que serão enxertados os pagãos tornados crentes21.

Ver também§ 760§ 762§ 781

  1. 19Cf. .
  2. 20Cf. ; 10, 16.
  3. 21Cf. .
61

Os patriarcas, os profetas e outras personagens do Antigo Testamento foram, e serão sempre, venerados como santos em todas as tradições litúrgicas da Igreja.

DEUS FORMA O SEU POVO ISRAEL
62

Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egipto. Concluiu com ele a aliança do Sinai e deu-lhe, por Moisés, a sua Lei, para que Israel O reconhecesse e O servisse como único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e justo Juiz, e vivesse na expectativa do Salvador prometido22.

Ver também§ 2060§ 2574§ 1961

  1. 22II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 3: AAS 58 (1966) 818.
63

Israel é o povo sacerdotal de Deus23, sobre o qual «foi invocado o Nome do Senhor» (). É o povo daqueles «a quem Deus falou em primeiro lugar»24, o povo dos «irmãos mais velhos» na fé de Abraão25.

Ver também§ 204§ 2801§ 839

  1. 23Cf. .
  2. 24Sexta-Feira da Paixão do Senhor. Oração universal VI: Missale Romanum. editio typica. Typis Polyglottis Vaticanis 1975, p. 254 [a tradução oficial portuguesa omite este particular: Missal Romano. Gráfica de Coimbra 1992. p. 259.267].
  3. 25João Paulo II, Discurso na sinagoga durante o encontro com a comunidade hebraica da cidade de Roma (13 de Abril de 1986), 4: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, IX/1, 1027.
64

Pelos profetas, Deus forma o seu povo na esperança da salvação, na expectativa duma aliança nova e eterna, destinada a todos os homens26, e que será gravada nos corações27. Os profetas anunciam uma redenção radical do povo de Deus, a purificação de todas as suas infidelidades28, uma salvação que abrangerá todas as nações29. Serão sobretudo os pobres e os humildes do Senhor30 os portadores desta esperança. As mulheres santas como Sara, Rebeca, Raquel, Míriam, Débora, Ana, Judite e Ester conservaram viva a esperança da salvação de Israel. Maria é a imagem puríssima desta esperança31.

Ver também§ 711§ 1965§ 489

  1. 26Cf. .
  2. 27Cf. : .
  3. 28Cf. Ez 36.
  4. 29Cf. : 53, 11.
  5. 30Cf. .
  6. 31Cf. .
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