Catecismo
Bíblia · ed. Ave Maria
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§ 51–64, 1427–1433, 1886–1889

ARTIGO 1
A REVELAÇÃO DE DEUS
I. Deus revela o seu «desígnio benevolente»
51

«Aprouve a Deus, na sua sabedoria e bondade, revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tomam participantes da natureza divina»2.

Ver também§ 2823§ 1996

  1. 2II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.
52

Deus, que «habita numa luz inacessível» (), quer comunicar a sua própria vida divina aos homens que livremente criou, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adoptivos3. Revelando-Se a Si mesmo, Deus quer tornar os homens capazes de Lhe responderem, de O conhecerem e de O amarem, muito para além de tudo o que seriam capazes por si próprios.

  1. 3Cf. .
53

O desígnio divino da Revelação realiza-se, ao mesmo tempo, «por meio de acções e palavras, intrinsecamente relacionadas entre si»4 e esclarecendo-se mutuamente. Comporta uma particular «pedagogia divina»: Deus comunica-Se gradualmente ao homem e prepara-o, por etapas, para receber a Revelação sobrenatural que faz de Si próprio e que vai culminar na Pessoa e missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo.

Santo Ireneu de Lião fala várias vezes desta pedagogia divina, sob a imagem da familiaridade mútua entre Deus e o homem: «O Verbo de Deus [...] habitou no homem e fez-Se Filho do Homem, para acostumar o homem a apreender Deus e Deus a habitar no homem, segundo o beneplácito do Pai»5.

Ver também§ 1953§ 1950

  1. 4II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.
  2. 5Santo Ireneu de Lião, Adversus haereses III, 20, 2: SC 211, 392 (PG 7, 944); cf. por exemplo, Ibid. III 17, I: SC 211. 330 (PG 7, 929); Ibid. IV, 12. 4: SC 100, 518 (PG 7, 1006); Ibid. IV 21, 3: SC 100, 684 (PG 7, 1046).
II. As etapas da Revelação
DESDE A ORIGEM, DEUS DÁ-SE A CONHECER
54

«Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo, oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo nas coisas criadas, e, além disso, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o princípio, aos nossos primeiros pais»6. Convidou-os a uma comunhão íntima consigo, revestindo-os de uma graça e justiça resplandecentes.

Ver também§ 32§ 374

  1. 6II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 3: AAS 58 (1966) 818.
55

Esta Revelação não foi interrompida pelo pecado dos nossos primeiros pais. Com efeito, Deus, «depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-lhes a esperança da salvação, e cuidou continuamente do género humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a salvação»7.

«E quando, por desobediência, perdeu a vossa amizade, não o abandonastes ao poder da morte [...] Repetidas vezes fizestes aliança com os homens8».

Ver também§ 397§ 410§ 761

  1. 7II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 3: AAS 58 (1966) 818.
  2. 8Oração eucarística IV: Missal Romano, editio typica. Typis Polyglottis Vaticanis. 1970 p. 467. [Gráfica de Coimbra 1992, p. 538].
A ALIANÇA COM NOÉ
56

Desfeita a unidade do género humano pelo pecado, Deus procurou imediatamente, salvar a humanidade intervindo com cada uma das suas partes. A aliança com Noé, a seguir ao dilúvio9, exprime o princípio da economia divina em relação às «nações», quer dizer, em relação aos homens reagrupados «por países e línguas, por famílias e nações» ()10.

Ver também§ 401§ 1219

  1. 9Cf. .
  2. 10Cf. .
57

Esta ordem, ao mesmo tempo cósmica, social e religiosa da pluralidade das nações11, destinava-se a limitar o orgulho duma humanidade decaída, que, unânime na sua perversidade12, pretendia refazer por si mesma a própria unidade, à maneira de Babel13. Mas, por causa do pecado14, quer o politeísmo quer a idolatria da nação e do seu chefe são uma contínua ameaça de perversão pagã a esta economia provisória.

  1. 11Cf. .
  2. 12Cf. .
  3. 13Cf. .
  4. 14Cf. .
58

A aliança com Noé permanece em vigor enquanto durar o tempo das nações15, até à proclamação universal do Evangelho. A Bíblia venera algumas grandes figuras das «nações», como «o justo Abel», o rei e sacerdote Melquisedec16, figura de Cristo17, ou os justos «Noé, Danel e Job» (). Deste modo, a Escritura exprime o alto grau de santidade que podem atingir os que vivem segundo a aliança de Noé, na expectativa de que Cristo «reúna, na unidade, todos os filhos de Deus dispersos» ().

Ver também§ 674§ 2569

  1. 15Cf. .
  2. 16Cf. .
  3. 17Cf. .
DEUS ELEGE ABRAÃO
59

Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolhe Abrão, chamando-o para «deixar a sua terra, a sua família e a casa de seu pai» (), para o fazer Abraão, quer dizer, «pai de um grande número de nações» (): «Em ti serão abençoadas todas as nações da Terra» ()18.

Ver também§ 145§ 2570

  1. 18Cf. .
60

O povo descendente de Abraão será o depositário da promessa feita aos patriarcas, o povo eleito19, chamado a preparar a reunião, um dia, de todos os filhos de Deus na unidade da Igreja20. Será o tronco em que serão enxertados os pagãos tornados crentes21.

Ver também§ 760§ 762§ 781

  1. 19Cf. .
  2. 20Cf. ; 10, 16.
  3. 21Cf. .
61

Os patriarcas, os profetas e outras personagens do Antigo Testamento foram, e serão sempre, venerados como santos em todas as tradições litúrgicas da Igreja.

DEUS FORMA O SEU POVO ISRAEL
62

Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egipto. Concluiu com ele a aliança do Sinai e deu-lhe, por Moisés, a sua Lei, para que Israel O reconhecesse e O servisse como único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e justo Juiz, e vivesse na expectativa do Salvador prometido22.

Ver também§ 2060§ 2574§ 1961

  1. 22II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 3: AAS 58 (1966) 818.
63

Israel é o povo sacerdotal de Deus23, sobre o qual «foi invocado o Nome do Senhor» (). É o povo daqueles «a quem Deus falou em primeiro lugar»24, o povo dos «irmãos mais velhos» na fé de Abraão25.

Ver também§ 204§ 2801§ 839

  1. 23Cf. .
  2. 24Sexta-Feira da Paixão do Senhor. Oração universal VI: Missale Romanum. editio typica. Typis Polyglottis Vaticanis 1975, p. 254 [a tradução oficial portuguesa omite este particular: Missal Romano. Gráfica de Coimbra 1992. p. 259.267].
  3. 25João Paulo II, Discurso na sinagoga durante o encontro com a comunidade hebraica da cidade de Roma (13 de Abril de 1986), 4: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, IX/1, 1027.
64

Pelos profetas, Deus forma o seu povo na esperança da salvação, na expectativa duma aliança nova e eterna, destinada a todos os homens26, e que será gravada nos corações27. Os profetas anunciam uma redenção radical do povo de Deus, a purificação de todas as suas infidelidades28, uma salvação que abrangerá todas as nações29. Serão sobretudo os pobres e os humildes do Senhor30 os portadores desta esperança. As mulheres santas como Sara, Rebeca, Raquel, Míriam, Débora, Ana, Judite e Ester conservaram viva a esperança da salvação de Israel. Maria é a imagem puríssima desta esperança31.

Ver também§ 711§ 1965§ 489

  1. 26Cf. .
  2. 27Cf. : .
  3. 28Cf. Ez 36.
  4. 29Cf. : 53, 11.
  5. 30Cf. .
  6. 31Cf. .

Continua em § 1427–1433

III. A conversão dos baptizados
1427

Jesus chama à conversão. Tal apelo é parte essencial do anúncio do Reino: «O tempo chegou ao seu termo, o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai na boa-nova» (). Na pregação da Igreja, este apelo dirige-se, em primeiro lugar, àqueles que ainda não conhecem Cristo e o seu Evangelho. Por isso, o Baptismo é o momento principal da primeira e fundamental conversão. É pela fé na boa-nova e pelo Baptismo10 que se renuncia ao mal e se adquire a salvação, isto é, a remissão de todos os pecados e o dom da vida nova.

Ver também§ 541§ 1226

  1. 10Cf. .
1428

Ora, o apelo de Cristo à conversão continua a fazer-se ouvir na vida dos cristãos. Esta segunda conversão é uma tarefa ininterrupta para toda a Igreja, que «contém pecadores no seu seio» e que é, «ao mesmo tempo, santa e necessitada de purificação, prosseguindo constantemente no seu esforço de penitência e de renovação»11. Este esforço de conversão não é somente obra humana. É o movimento do «coração contrito»12 atraído e movido pela graça13 para responder ao amor misericordioso de Deus, que nos amou primeiro14.

Ver também§ 1036§ 853§ 1996

  1. 11II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 8: AAS 57 (1965) 12.
  2. 12Cf. .
  3. 13Cf. : 12, 32.
  4. 14Cf. .
1429

Testemunho disto mesmo, é a conversão de Pedro, depois de três vezes ter negado o seu mestre. O olhar infinitamente misericordioso de Jesus provoca-lhe lágrimas de arrependimento15 e, depois da ressurreição do Senhor, a tríplice afirmação do seu amor para com Ele16. A segunda conversão tem, também, uma dimensão comunitária. Isto aparece no apelo dirigido pelo Senhor a uma Igreja inteira: «Arrepende-te!» ().

Santo Ambrósio diz, a respeito das duas conversões que, na Igreja, «existem a água e as lágrimas: a água do Baptismo e as lágrimas da Penitência»

  1. 15Cf. .
  2. 16Cf. .
IV. A penitência interior
1430

Como já acontecia com os profetas, o apelo de Jesus à conversão e à penitência não visa primariamente as obras exteriores, «o saco e a cinza», os jejuns e as mortificações, mas a conversão do coração, a penitência interior: Sem ela, as obras de penitência são estéreis e enganadoras; pelo contrário, a conversão interior impele à expressão dessa atitude cm sinais visíveis, gestos e obras de penitência18.

Ver também§ 1098

  1. 18Cf. : : .
1431

A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma rotura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más acções que cometemos. Ao mesmo tempo, implica o desejo e o propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. Esta conversão do coração é acompanhada por uma dor e uma tristeza salutares, a que os Santos Padres chamaram animi cruciatus (aflição do espírito), compunctio cordis (compunção do coração)19.

Ver também§ 1451§ 368

  1. 19Concílio de Trento, Sess. 14ª, Doctrina de sacramento Paenitentiae, c. 4: DS 1676-1678; Id. Sess, 14ª, Canones de Paenitentiae, can. 5: DS1705: CatRom. 2, 5, 4, p. 289.
1432

O coração do homem é pesado e endurecido. É necessário que Deus dê ao homem um coração novo20. A conversão é, antes de mais, obra da graça de Deus, a qual faz com que os nossos corações se voltem para Ele: «Convertei-nos, Senhor, e seremos convertidos» (). Deus é quem nos dá a coragem de começar de novo. É ao descobrir a grandeza do amor de Deus que o nosso coração é abalado pelo horror e pelo peso do pecado, e começa a ter receio de ofender a Deus pelo pecado e de estar separado d'Ele. O coração humano converte-se, ao olhar para Aquele a quem os nossos pecados trespassaram21.

«Tenhamos os olhos fixos no sangue de Cristo e compreendamos quanto Ele é precioso para o seu Pai, pois que, derramado para nossa salvação, proporcionou ao mundo inteiro a graça do arrependimento»22.

Ver também§ 1989

  1. 20Cf. .
  2. 21Cf. : .
  3. 22São Clemente de Roma, Epistula ad Corinthios 7, 4: SC 167, 110 (Funk 1, 108).
1433

Depois da Páscoa, é o Espírito Santo que «confunde o mundo no tocante ao pecado», isto é, faz ver ao mundo o pecado de não ter acreditado n'Aquele que o Pai enviou23. Mas este mesmo Espírito, que desmascara o pecado, é o Consolador24 que dá ao coração do homem a graça do arrependimento e da conversão25.

Ver também§ 729§ 692§ 1848

  1. 23Cf. .
  2. 24Cf. .
  3. 25Cf. : João Paulo II, Enc. Dominum et vivificantem, 27-48: AAS 78 (1986) 837-868.

Continua em § 1886–1889

II. Conversão e sociedade
1886

A sociedade é indispensável à realização da vocação humana. Para atingir esse fim, tem de ser respeitada a justa hierarquia dos valores, que «subordina as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais»8:

«A convivência humana [...] há-de considerar-se, antes de mais, como um facto de ordem principalmente espiritual: como comunicação de conhecimentos, à luz da verdade; exercício de direitos e cumprimento de deveres; incentivo e apelo aos bens do espírito; gozo comum do justo prazer da beleza em todas as suas expressões; permanente disposição para partilhar com os outros o melhor de si mesmo; aspiração a uma mútua e cada vez mais rica assimilação de valores espirituais. Todos estes valores vivificam e, ao mesmo tempo, orientam tudo o que diz respeito às doutrinas, às realidades económicas, à convivência cívica, aos movimentos e regimes políticos, à ordem jurídica e aos demais elementos exteriores através dos quais se articula e se exprime a convivência humana no seu incessante devir»9.

Ver também§ 1779§ 2500

  1. 8João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 36: AAS 83 (1991) 838.
  2. 9João XXIII, Enc. Pacem in terris, 36: AAS 55 (1963) 266.
1887

A inversão dos meios e dos fins10, que chega a dar valor de fim último ao que não passa de meio para a ele chegar ou a considerar as pessoas como puros meios com vista a um fim, gera estruturas injustas que «tornam árduo e praticamente impossível um procedimento cristão, conforme com os mandamentos do divino legislador»11.

Ver também§ 909§ 1869

  1. 10Cf. João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 41: AAS 83 (1991) 844.
  2. 11Pio XII, Mensagem radiofónica (1 de Junho de 1941): AAS 33 (1941) 197.
1888

Deve-se, pois, apelar para as capacidades espirituais e morais da pessoa e para a exigência permanente da sua conversão interior, para se conseguirem mudanças sociais que estejam realmente ao seu serviço. A prioridade reconhecida à conversão do coração, não elimina de modo algum, antes impõe, a obrigação de introduzir nas instituições e nas condições de vida, quando introduzem ao pecado, as correcções convenientes para que elas se conformem com as normas da justiça e favoreçam o bem, em vez de se lhe oporem12.

Ver também§ 407§ 1430

  1. 12Cf. II Concílio do Vaticano, Cons. dogm. Lumen Gentium, 36: AAS 57 (1965) 42.
1889

Sem a ajuda da graça, os homens não seriam capazes de «descobrir o caminho, muitas vezes estreito, entre a cobardia que cede ao mal e a violência que, julgando combatê-lo, o agrava»13. É o caminho da caridade, ou seja, do amor de Deus e do próximo. A caridade constitui o maior mandamento social. Ela respeita o outro e os seus direitos, exige a prática da justiça, de que só ela nos torna capazes e inspira-nos uma vida de entrega: «Quem procurar preservar a vida, há-de perdê-la; quem a perder, há-de salvá-la» ().

Ver também§ 1825

  1. 13João Paulo II, Enc. Centesimus annus, 25 AAS 83 (1991) 823.
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