Catecismo

§ 531–605

OS MISTÉRIOS DA VIDA OCULTA DE JESUS
531

Durante a maior parte da sua vida, Jesus partilhou a condição da imensa maioria dos homens: uma vida quotidiana sem grandeza aparente, vida de trabalho manual, vida religiosa judaica sujeita à Lei de Deus246, vida na comunidade. De todo este período, é-nos revelado que Jesus era «submisso» a seus pais247 e que «ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 52).

Ver também§ 2427

  1. 246Cf. G1 4, 4.
  2. 247Cf. Lc 2, 51.
532

A submissão de Jesus à sua Mãe e ao seu pai legal foi o cumprimento perfeito do quarto mandamento. É a imagem temporal da sua obediência filial ao Pai celeste. A submissão diária de Jesus a José e a Maria anunciava e antecipava a submissão de Quinta-Feira Santa: «Não se faça a minha vontade [...]» (Lc 22, 42). A obediência de Cristo, no quotidiano da vida oculta, inaugurava já a recuperação daquilo que a desobediência de Adão tinha destruído248.

Ver também§ 2214–2220§ 612

  1. 248Cf. Rm 5, 19.
533

A vida oculta de Nazaré permite a todos os homens entrar em comunhão com Jesus, pelos diversos caminhos da vida quotidiana:

«Nazaré é a escola em que se começa a compreender a vida de Jesus, é a escola em que se inicia o conhecimento do Evangelho [...] Em primeiro lugar, uma lição de silêncio. Oh! se renascesse em nós o amor do silêncio, esse admirável e indispensável hábito do espírito [...]! Uma lição de vida familiar Que Nazaré nos ensine o que é a família, a sua comunhão de amor, a sua austera e simples beleza, o seu carácter sagrado e inviolável [...]. Uma lição de trabalho, Nazaré, a casa do "Filho do carpinteiro"! Aqui desejaríamos compreender e celebrar a lei, severa mas redentora, do trabalho humano [...] Daqui, finalmente, queremos saudar os trabalhadores de todo o mundo e mostrar-lhes o seu grande modelo, o seu Irmão divino»249

Ver também§ 2712§ 2204§ 2427

  1. 249Paulo VI, Alocução na igreja da Anunciação à bem-aventurada Virgem Maria em Nazaré, 5 de Janeiro de 1964: AAS 56 (1964) 167-168 [Festa da Sagrada Família, 2ª Leitura do Ofício de Leitura: Liturgia das Horas, v. 1 (Gráfica de Coimbra 1983) p. 381-382].
534

O reencontro de Jesus no templo250 é o único acontecimento que quebra o silêncio dos evangelhos sobre os anos ocultos de Jesus. Nele, Jesus deixa entrever o mistério da sua consagração total à missão decorrente da sua filiação divina: «Não sabíeis que Eu tenho de estar na casa do meu Pai?». Maria e José «não compreenderam» esta palavra, mas acolheram-na na fé, e Maria «guardava no coração todas estas recordações», ao longo dos anos em que Jesus permaneceu oculto no silêncio duma vida normal.

Ver também§ 583§ 2599§ 964

  1. 250Cf. Lc 2, 41-52.
III. Os mistérios da vida pública de Jesus
O BAPTISMO DE JESUS
535

O início251 da vida pública de Jesus é o seu baptismo por João, no rio Jordão252. João pregava «um baptismo de penitência, em ordem à remissão dos pecados» (Lc 3, 3). Uma multidão de pecadores, publicanos e soldados253, fariseus e saduceus254 e prostitutas vinha ter com ele, para que os baptizasse. «Então aparece Jesus». O Baptista hesita, Jesus insiste: e recebe o baptismo. Então o Espírito Santo, sob a forma de pomba, desce sobre Jesus e uma voz do céu proclama: «Este é o meu Filho muito amado» (Mt 3,13-17). Tal foi a manifestação («epifania») de Jesus como Messias de Israel e Filho de Deus.

Ver também§ 719§ 720§ 701§ 438

  1. 251Cf. Lc 3, 23.
  2. 252Cf. Act 1, 22.
  3. 253Cf. Lc 3, 10-14.
  4. 254Cf. Mt 3, 7.
536

Da parte de Jesus, o seu baptismo é a aceitação e a inauguração da sua missão de Servo sofredor. Deixa-se contar entre o número dos pecadores256. É já «o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo» (Jo 1, 29), e antecipa já o «baptismo» da sua morte sangrenta257. Vem, desde já, para «cumprir toda a justiça» (Mt 3,15). Quer dizer que Se submete inteiramente à vontade do Pai e aceita por amor o baptismo da morte para a remissão dos nossos pecados258. A esta aceitação responde a voz do Pai, que põe toda a sua complacência no Filho259. O Espírito que Jesus possui em plenitude, desde a sua conceição, vem «repousar» sobre Ele (Jo 1, 32-33)260 e Jesus será a fonte do mesmo Espírito para toda a humanidade. No baptismo de Cristo, «abriram-se os céus» (Mt 3, 16) que o pecado de Adão tinha fechado, e as águas são santificadas pela descida de Jesus e do Espírito, prelúdio da nova criação.

Ver também§ 606§ 1224§ 444§ 727§ 739

  1. 256Cf. Is 53, 12.
  2. 257Cf. Mc 10, 38; Lc 12, 50.
  3. 258Cf. Mt 26, 39.
  4. 259Cf. Lc 3 . 22; Is 42, 1.
  5. 260Cf. Jo 1 , 32-33; Is 1 l, 2.
537

Pelo Baptismo, o cristão é sacramentalmente assimilado a Jesus que, no seu baptismo, antecipa a sua morte e ressurreição. Deve entrar neste mistério de humilde abatimento e de penitência, descer à água com Jesus, para de lá subir com Ele, renascer da água e do Espírito para se tornar, no Filho, filho-amado do Pai e «viver numa vida nova» (Rm 6, 4):

«Sepultemo-nos com Cristo pelo Baptismo, para com Ele ressuscitarmos; desçamos com Ele, para com Ele sermos elevados; tornemos a subir com Ele, para n'Ele sermos glorificados»261.

«Tudo o que se passou com Cristo dá-nos a conhecer que, depois do banho de água, o Espírito Santo desce sobre nós do alto dos céus e, adoptados pela voz do Pai, tornamo-nos filhos de Deus»262.

Ver também§ 1262§ 628

  1. 261São Gregório Nazianzeno, Oratio 40, 9: SC 358, 216 (PG 36. 369).
  2. 262Santo Hilário de Poitiers, In evangelium Matthaei 2, 6: SC 254. 110 (PL 9, 927).
A TENTAÇÃO DE JESUS
538

Os evangelhos falam dum tempo de solidão que Jesus passou no deserto, imediatamente depois de ter sido baptizado por João: «Impelido»pelo Espírito para o deserto, Jesus ali permanece sem comer durante quarenta dias. Vive com os animais selvagens e os anjos servem-n'O263.

No fim desse tempo, Satanás tenta-O por três vezes, procurando pôr em causa a sua atitude filial para com Deus; Jesus repele esses ataques, que recapitulam as tentações de Adão no paraíso e de Israel no deserto; e o Diabo afasta-se d'Ele «até determinada altura» (Lc 4, 13).

Ver também§ 394§ 518

  1. 263Cf. Mc 1, 13.
539

Os evangelistas indicam o sentido salvífico deste acontecimento misterioso, Jesus é o Novo Adão, que Se mantém fiel naquilo em que o primeiro sucumbiu à tentação. Jesus cumpre perfeitamente a vocação de Israel: contrariamente aos que outrora, durante quarenta anos, provocaram a Deus no deserto264, Cristo revela-Se o Servo de Deus totalmente obediente à vontade divina. Nisto, Jesus vence o Diabo: «amarrou o homem forte», para lhe tirar os despojos265. A vitória de Jesus sobre o tentador, no deserto, antecipa a vitória da paixão, suprema obediência do seu amor filial ao Pai.

Ver também§ 397§ 385§ 609

  1. 264Cf. SI 95, 10.
  2. 265Cf. Mc 3, 27.
540

A tentação de Jesus manifesta a maneira própria de o Filho de Deus ser Messias, ao contrário da que Lhe propõe Satanás e que os homens266 desejam atribuir-Lhe. Foi por isso que Cristo venceu o Tentador, por nós: «Nós não temos um sumo-sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas; temos um, que possui a experiência de todas as provações, tal como nós, com excepção do pecado» (Heb 4, 15). Todos os anos, pelos quarenta dias da Grande Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto.

Ver também§ 2119§ 519–2849§ 1438

  1. 266Cf. Mt 16, 21-23.
«O REINO DE DEUS ESTÁ PRÓXIMO»
541

«Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia. Aí proclamava a Boa-Nova da vinda de Deus, nestes termos: "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: convertei-vos e acreditai na Boa-Nova!"» (Mc 1, 14-15). «Por isso, Cristo, a fim de cumprir a vontade do Pai, deu começo na terra ao Reino dos céus»267. Ora a vontade do Pai é «elevar os homens à participação da vida divina»268. E fá-lo reunindo os homens em torno do seu Filho, Jesus Cristo. Esta reunião é a Igreja, a qual é na terra «o germe e o princípio» do Reino de Deus»269.

Ver também§ 2816§ 763§ 669§ 768§ 865

  1. 267II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 3: AAS 57 (1965) 6.
  2. 268II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 2: AAS 57 (1965) 5-6.
  3. 269I II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 8.
542

Cristo está no centro desta reunião dos homens na «família de Deus». Reúne-os à sua volta pela sua palavra, pelos seus sinais que manifestam o Reino de Deus, pelo envio dos discípulos. E realizará a vinda do seu Reino sobretudo pelo grande mistério da sua Páscoa: a sua morte de cruz e a sua ressurreição. «E Eu, uma vez elevado da Terra, atrairei todos a Mim» (Jo 12, 32). Todos os homens são chamados a esta união com Cristo270.

Ver também§ 2233§ 789

  1. 270Cf. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 3: AAS 57 (1965) 6.
O ANÚNCIO DO REINO DE DEUS
543

Todos os homens são chamados a entrar no Reino. Anunciado primeiro aos filhos de Israel271, este Reino messiânico é destinado a acolher os homens de todas as nações272. Para ter acesso a ele, é preciso acolher a Palavra de Jesus:

«A Palavra do Senhor compara-se à semente lançada ao campo: aqueles que a ouvem com fé e entram a fazer parte do pequeno rebanho de Cristo, já receberam o Reino; depois, por força própria, a semente germina e cresce até ao tempo da messe»273.

Ver também§ 764

  1. 271Cf. Mt 10, 5-7.
  2. 272Cf. Mt 8, 11; 28, 19.
  3. 273II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 7.
544

O Reino é dos pobres e pequenos, quer dizer, dos que o acolheram com um coração humilde. Jesus foi enviado para «trazer a Boa-Nova aos pobres» (Lc 4, 18)274. Declara-os bem-aventurados, porque «é deles o Reino dos céus» (Mt 5, 3). Foi aos «pequenos» que o Pai se dignou revelar o que continua oculto aos sábios e inteligentes275. Jesus partilha a vida dos pobres, desde o presépio até à cruz: sabe o que é sofrer a fome276, a sede277 e a indigência278. Mais ainda: identifica-se com os pobres de toda a espécie, e faz do amor activo para com eles a condição da entrada no seu Reino279.

Ver também§ 709§ 2443§ 2546

  1. 274Cf. Lc 7, 22.
  2. 275Cf. Mt 11, 25.
  3. 276Cf. Mc 2, 23-26: Mt 21, 18.
  4. 277Cf. Jo 4, 6-7: 19, 28.
  5. 278Cf. Lc 9, 58.
  6. 279Cf. Mt 25, 31-46.
545

Jesus convida os pecadores para a mesa do Reino: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17)280. Convida-os à conversão sem a qual não se pode entrar no Reino, mas por palavras e actos, mostra-lhes a misericórdia sem limites do Seu Pai para com eles e a imensa «alegria que haverá no céu, por um só pecador que se arrependa» (Lc 15, 7). A prova suprema deste amor será o sacrifício da sua própria vida, «pela remissão dos pecados» (Mt 26, 28).

Ver também§ 1443§ 588§ 1846§ 1439

  1. 280Cf. 1 Tm 1, 15.
546

Jesus chama para entrar no Reino, por meio de parábolas, traço característico do seu ensino282. Por meio delas, convida para o banquete do Reino283, mas exige também uma opção radical: para adquirir o Reino é preciso dar tudo284. As palavras não bastam, exigem-se actos285. As parábolas são, para o homem, uma espécie de espelho: como é que ele recebe a Palavra? Como chão duro, ou como terra boa?286 Que faz ele dos talentos recebidos?287 Jesus e a presença do Reino neste mundo estão secretamente no coração das parábolas. É preciso entrar no Reino, quer dizer, tornar-se discípulo de Cristo, para «conhecer os mistérios do Reino dos céus» (Mt 13, 11). Para os que ficam «fora» (Mc 4, 11), tudo permanece enigmático288.

Ver também§ 2613§ 542

  1. 282Cf. Mc 4, 33-34.
  2. 283Cf. Mt 22, 1-14.
  3. 284Cf. Mt 13, 44-45.
  4. 285Cf. Mt 21, 28-32.
  5. 286Cf. Mt 13, 3-9.
  6. 287Cf. Mt 25, 14-30.
  7. 288Cf. Mt 13, 10-15.
OS SINAIS DO REINO DE DEUS
547

Jesus acompanha as suas palavras com numerosos «milagres, prodígios e sinais» (Act 2,22), os quais manifestam que o Reino está presente n'Ele. Comprovam que Ele é o Messias anunciado289.

Ver também§ 670§ 439

  1. 289Cf. Lc 7. 18-23.
548

Os sinais realizados por Jesus testemunham que o Pai O enviou290. Convidam a crer n'Ele291. Aos que se Lhe dirigem com fé, concede-lhes o que pedem292. Assim, os milagres fortificam a fé n'Aquele que faz as obras do seu Pai: testemunham que Ele é o Filho de Deus293. Mas também podem ser «ocasião de queda»294. Eles não pretendem satisfazer a curiosidade nem desejos mágicos. Apesar de os seus milagres serem tão evidentes, Jesus é rejeitado por alguns295; chega mesmo a ser acusado de agir pelo poder dos demónios296.

Ver também§ 156§ 2616§ 574§ 447

  1. 290Cf. Jo 5, 36; 10, 25.
  2. 291Cf. Jo 10, 38.
  3. 292Cf. Mc 5, 25-34; 10, 52: etc.
  4. 293Cf. Jo 10, 31-38.
  5. 294Cf. Mt 11, 6.
  6. 295Cf. Jo 11, 47-48.
  7. 296Cf. Mc 3, 22.
549

Ao libertar certos homens dos males terrenos da fome297, da injustiça298 da doença e da morte299 – Jesus realizou sinais messiânicos; no entanto, Ele não veio para abolir todos os males deste mundo300, mas para libertar os homens da mais grave das escravidões, a do pecado301, que os impede de realizar a sua vocação de filhos de Deus e é causa de todas as servidões humanas.

Ver também§ 1503§ 440

  1. 297Cf. Jo 6, 5-15.
  2. 298Cf. Lc 19, 8.
  3. 299Cf. Mt 11, 5.
  4. 300Cf. Lc 12, 13-14; Jo 18, 36.
  5. 301Cf. Jo 8, 34-36.
550

A vinda do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás302: «Se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demónios, então é porque o Reino de Deus chegou até vós» (Mt 12, 28). Os exorcismos de Jesus libertam os homens do poder dos demónios303. E antecipam a grande vitória de Jesus sobre «o príncipe deste mundo»304. É pela cruz de Cristo que o Reino de Deus vai ser definitivamente estabelecido: «Regnavit a ligno Deus – Deus reinou desde o madeiro»305.

Ver também§ 394§ 1673§ 440§ 2816

  1. 302Cf. Mt 12, 26.
  2. 303Cf. Lc 8, 26-39.
  3. 304Cf. Jo 12, 31.
  4. 305Venâncio Fortunato, Hino «Vexilla Regis»: MGH 1/4/1, 34 (PL 88, 96).
«AS CHAVES DO REINO»
551

Desde o princípio da sua vida pública, Jesus escolheu alguns homens, em número de doze, para andarem com Ele e participarem na sua missão306. Deu-lhes parte na sua autoridade «e enviou-os a pregar o Reino de Deus e a fazer curas» (Lc 9, 2). Estes homens ficam para sempre associados ao Reino de Cristo, porque, por meio deles, Jesus Cristo dirige a Igreja:

«Eu disponho, a vosso favor, do Reino, como meu Pai dispõe dele a meu favor, a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu Reino. E sentar-vos-eis em tronos, a julgar as doze tribos de Israel» (Lc 22, 29-30).

Ver também§ 858§ 765

  1. 306Cf. Mc 3, 13-19.
552

No colégio dos Doze, Simão Pedro ocupa o primeiro lugar307. Jesus confiou-lhe uma missão única. Graças a uma revelação vinda do Pai, Pedro confessara: «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo» (Mt 16, 16). E nosso Senhor declarou-lhe então: «Tu és Pedro: sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela» (Mt 16, 18). Cristo, «pedra viva»308, garante à sua Igreja, edificada sobre Pedro, a vitória sobre os poderes da morte. Pedro, graças à fé que confessou, permanecerá o rochedo inabalável da Igreja. Terá a missão de defender esta fé para que nunca desfaleça e de nela confirmar os seus irmãos309.

Ver também§ 880§ 153§ 442§ 424

  1. 307Cf. Mc 3, 16; 9, 2; Lc 24, 34: 1 Cor 15, 5.
  2. 308Cf. 1 Pe 2. 4.
  3. 309Cf. Lc 22, 32.
553

Jesus confiou a Pedro uma autoridade específica: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus» (Mt 16, 19). O «poder das chaves» designa a autoridade para governar a Casa de Deus, que é a Igreja. Jesus, o «bom Pastor» (Jo 10, 11), confirmou este cargo depois da sua ressurreição: «Apascenta as minhas ovelhas» (Jo 21, 15-17). O poder de «ligar e desligar» significa a autoridade para absolver os pecados, pronunciar juízos doutrinais e tomar decisões disciplinares na Igreja. Jesus confiou esta autoridade à Igreja pelo ministério dos Apóstolos e particularmente pelo de Pedro, o único a quem confiou explicitamente as chaves do Reino.

Ver também§ 881§ 1445§ 641§ 881

UM ANTEGOZO DO REINO: A TRANSFIGURAÇÃO
554

A partir do dia em que Pedro confessou que Jesus era o Cristo, Filho do Deus vivo, o Mestre «começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e lá sofrer [...], que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia» (Mt 16, 21). Pedro rejeita este anúncio e os outros também não o entendem312. É neste contexto que se situa o episódio misterioso da transfiguração de Jesus313, no cimo duma alta montanha, perante três testemunhas por Ele escolhidas: Pedro, Tiago e João. O rosto e as vestes de Jesus tornaram-se fulgurantes de luz, Moisés e Elias aparecem, «e falam da sua morte, que ia consumar-se em Jerusalém» (Lc 9, 31). Uma nuvem envolve-os e uma voz do céu diz: «Este é o meu Filho predilecto: escutai-O» (Lc 9, 35).

Ver também§ 697§ 2600§ 440

  1. 312Cf. Mt 17, 23; Lc 9, 45.
  2. 313Cf. Mt 17, 1-8 e par.: 2 Pe 1, 16-18.
555

Por um momento, Jesus mostra a sua glória divina, confirmando assim a confissão de Pedro. Mostra também que, para «entrar na sua glória» (Lc 24, 26), tem de passar pela cruz em Jerusalém. Moisés e Elias tinham visto a glória de Deus sobre a montanha; a Lei e os Profetas tinham anunciado os sofrimentos do Messias314. A paixão de Jesus é da vontade do Pai: o Filho age como Servo de Deus315. A nuvem indica a presença do Espírito Santo: «Tota Trinitas apparuit: Pater in voce; Filius in homine; Spiritus in nube clara – Apareceu toda a Trindade: o Pai na voz; o Filho na humanidade; o Espírito Santo na nuvem luminosa»316:

«Transfiguraste-Te sobre a montanha e, na medida em que disso eram capazes, os teus discípulos contemplaram a tua glória, ó Cristo Deus; para que, quando Te vissem crucificado, compreendessem que a tua paixão era voluntária, e anunciassem ao mundo que Tu és verdadeiramente a irradiação do Pai»317.

Ver também§ 2576§ 2583§ 257

  1. 314Cf. Lc 24. 27.
  2. 315Cf. Is 42, 1.
  3. 316São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 3. q. 45, a. 4, ad 2: Ed. Leon. 11, 433.
  4. 317Liturgia bizantina, Kontakion na Festa da Transfiguração: «Mênaîa toû bólou eniautoû», v. 6 (Romae 1901) p. 341.
556

No limiar da vida pública, o baptismo; no limiar da Páscoa, a transfiguração. Pelo baptismo de Jesus «declaratum fuit mysterium primae regenerationis – foi declarado o mistério da (nossa) primeira regeneração» – o nosso Baptismo; e a transfiguração «est sacramentum secundae regenerationis – é o sacramento da (nossa) segunda regeneração» – a nossa própria ressurreição318. Desde agora, nós participamos na ressurreição do Senhor pelo Espírito Santo que actua nos sacramentos do Corpo de Cristo. A transfiguração dá-nos um antegozo da vinda gloriosa de Cristo, «que transfigurará o nosso corpo miserável para o conformar com o seu corpo glorioso» (Fl 3, 21). Mas lembra-nos também que temos de passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus» (Act 14, 22):

«Era isso que Pedro ainda não tinha compreendido, quando manifestava o desejo de ficar com Cristo no cimo da montanha319. – Isso, Ele to reservou, Pedro, para depois da morte. Mas agora, Ele próprio te diz: Desce para sofrer na Terra, para servir na Terra, para ser desprezado e crucificado na Terra. A Vida desce para se fazer matar: o Pão desce para passar fome; o Caminho desce para se cansar de andar; a Fonte desce para ter sede; – e tu recusas-te a sofrer?»320.

Ver também§ 1003

  1. 318Tomás de Aquino, Summa theologiae, 3, q. 45. a. 4, ad 2: Ed. Leon. 11, 433.
  2. 319Cf. Lc 9. 33.
  3. 320Santo Agostinho, Sermão 78. 6: PL 38, 492-493.
A SUBIDA DE JESUS PARA JERUSALÉM
557

«Ora, como se aproximavam os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a firme resolução de Se dirigir a Jerusalém» (Lc 9, 51)321. Por esta decisão, indicava que subia para Jerusalém pronto para lá morrer. Já por três vezes tinha anunciado a sua paixão e a sua ressurreição322. E ao dirigir-Se para Jerusalém, declara: «não se admite que um profeta morra fora de Jerusalém» (Lc 13, 33).

  1. 321Cf. Jo 13, 1.
  2. 322Cf. Mc 8, 31-33; 9, 31-32; 10, 32-34.
558

Jesus recorda o martírio dos profetas que tinham sido entregues à morte em Jerusalém323. No entanto, continua a convidar Jerusalém a reunir-se à sua volta: «Quantas vezes Eu quis agrupar os teus filhos como a galinha junta os seus pintainhos sob as asas!... Mas vós não quisestes» (Mt 23, 37b). Quando já avista Jerusalém, chora sobre ela324 e exprime, uma vez mais, o desejo do seu coração: «Se neste dia também tu tivesses conhecido o que te pode trazer a paz! Mas agora isto está oculto aos teus olhos» (Lc 19, 42).

  1. 323Cf. Mt 23, 37a.
  2. 324Cf. Lc 19, 41.
A ENTRADA MESSIÂNICA DE JESUS EM JERUSALÉM
559

Como vai Jerusalém acolher o seu Messias? Embora tenha sempre evitado as tentativas populares de O fazerem rei325, Jesus escolheu o momento e preparou os pormenores da sua entrada messiânica na cidade de «David, seu pai» (Lc 1, 32)326. E é aclamado como filho de David e como aquele que traz a salvação («Hosanna» quer dizer «então salva!», «dá a salvação»). Ora, o «rei da glória» (Sl 24, 7-10) entra na «sua cidade», «montado num jumento» (Zc 9, 9). Não conquista a filha de Sião, figura da sua Igreja, nem pela astúcia nem pela violência, mas pela humildade que dá testemunho da verdade327. Por isso é que, naquele dia, os súbditos do seu Reino, são as crianças328 e os «pobres de Deus», que O aclamam, tal como os anjos O tinham anunciado aos pastores329. A aclamação deles: «Bendito o que vem em nome do Senhor» (Sl 118, 26) é retomada pela Igreja no «Sanctus» da Liturgia Eucarística, a abrir o memorial da Páscoa do Senhor.

Ver também§ 333§ 1352

  1. 325Cf. Jo 6, 15.
  2. 326Cf. Mt 21, 1-11.
  3. 327Cf. Jo 18, 37.
  4. 328Cf. Mt 21, 15-16; Sl 8, 3.
  5. 329Cf. Lc 19, 38: 2, 14.
560

A entrada de Jesus em Jerusalém manifesta a vinda do Reino que o Rei-Messias vai realizar pela Páscoa da sua morte e da sua ressurreição. É com a sua celebração, no Domingo de Ramos, que a Liturgia da Igreja começa a Semana Santa.

Ver também§ 550§ 2816

Resumindo:
561

«Toda a vida de Cristo foi um contínuo ensinamento: os seus silêncios, os seus milagres, os seus gestos, a sua oração, o seu amor pelo homem, a sua predilecção pelos pequenos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na cruz pela redenção do mundo, a sua ressurreição tudo é actuação da sua palavra e cumprimento da Revelação»330.

  1. 330João Paulo II, Ex. Ap. Catechesi tradendae, 9: AAS 71 (1979) 1284.
562

Os discípulos de Cristo devem conformar-se com Ele até que Ele Se forme neles331, «Por isso, somos assumidos nos mistérios da sua vida, configurados com Ele, com Ele mortos e ressuscitados, até que reinemos com Ele»332.

  1. 331Cf. Gl 4, 19.
  2. 332II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 7: AAS 57 (1965) 10.
563

Pastor ou mago, ninguém pode atingir a Deus neste mundo senão ajoelhando diante do presépio de Belém e adorando-O oculto na fraqueza duma criança.

564

Pela sua submissão a Maria e a José, assim como pelo seu trabalho humilde em Nazaré durante longos anos, Jesus dá-nos o exemplo da santidade na vida quotidiana da família e do trabalho.

565

Desde o princípio da sua vida pública, desde o seu baptismo, Jesus é o «Servo» inteiramente consagrado à obra redentora, que consumará pelo «baptismo» da sua paixão.

566

A tentação no deserto mostra Jesus como Messias humilde, que triunfa de Satanás pela total adesão ao desígnio de salvação querido pelo Pai.

567

O Reino dos céus foi inaugurado na terra por Cristo, e resplandece para os homens na palavra, nas obras e na presença de Cristo»333. A Igreja é o gérmen e o princípio deste Reino. As suas chaves são confiadas a Pedro.

  1. 333II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 5: AAS 57 (1965) 7.
568

A transfiguração de Cristo tem por fim fortalecer a fé dos Apóstolos em vista da paixão: a subida à «alta montanha» prepara a subida ao Calvário. Cristo, cabeça da Igreja, manifesta o que o seu Corpo contém e irradia nos sacramentos: «a esperança da Glória» (Cl 1, 27)334.

  1. 334Cf. São Leão Magno, Sermão 51, 3: CCL 138A, 298-299 (PL 54. 310).
569

Jesus subiu voluntariamente a Jerusalém, sabendo perfeitamente que ali ia morrer de morte violenta, por causa da oposição dos pecadores335.

  1. 335Cf. Heb 12, 3.
570

A entrada de Jesus em Jerusalém manifesta a vinda do Reino, que o Rei-Messias, acolhido na cidade pelas crianças e pelos humildes de corarão, vai realizar pela Páscoa da sua morte e ressurreição.

ARTIGO 4
«JESUS CRISTO PADECEU SOB PÔNCIO PILATOS FOI CRUCIFICADO, MORTO E SEPULTADO»
571

O mistério pascal da cruz e ressurreição de Cristo está no centro da Boa-Nova que os Apóstolos, e depois deles a Igreja, devem anunciar ao mundo. O desígnio salvífico de Deus cumpriu-se de «una vez por todas» (Heb 9, 26) pela morte redentora do seu Filho Jesus Cristo.

Ver também§ 1067

572

A Igreja permanece fiel à «interpretação de todas as Escrituras» dada pelo próprio Jesus, tanto antes como depois da sua Páscoa336 «Não tinha o Messias de sofrer tudo isto, para entrar na sua glória?» (Lc 24, 26). Os sofrimentos de Jesus tomaram a sua forma histórica concreta, pelo facto de Ele ter sido «rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos escribas» (Mc 8, 31), que «O entregaram aos pagãos para ser escarnecido, flagelado e crucificado» (Mt 20, 19).

Ver também§ 599

  1. 336Cf. Lc 24, 27, 44-45.
573

A fé pode, portanto, esforçar-se por investigar as circunstâncias da morte de Jesus, fielmente transmitidas pelos evangelhos337 e esclarecidas por outras fontes históricas, para melhor compreender o sentido da redenção.

Ver também§ 158

  1. 337Cf. II Concílio do Vaticano. Const. dogm. Dei Verbum, 19; AAS 58 (1966) 826-827.
PARÁGRAFO 1
JESUS E ISRAEL
574

Desde o princípio do ministério público de Jesus, fariseus e partidários de Herodes, com sacerdotes e escribas, puseram-se de acordo para lhe dar a morte338. Por alguns dos seus actos (expulsões de demónios339; perdão dos pecados340 curas em dia de sábado341; interpretação original dos preceitos de pureza legal342: trato familiar com publicanos e pecadores públicos343, Jesus pareceu a alguns, mal intencionados, suspeito de possessão diabólica344. Foi acusado de blasfémia345 e de falso profetismo346, crimes religiosos que a Lei castigava com a pena de morte por apedrejamento347.

Ver também§ 530§ 591

  1. 338Cf. Mc 3, 6.
  2. 339Cf. Mt 12, 24.
  3. 340Cf. Mc 2, 7.
  4. 341Cf. Mc 3, 1-6.
  5. 342Cf. Mc 7, 14-23.
  6. 343Cf. Mc2, 14-17.
  7. 344Cf. Mc 3, 22: Jo 8, 48: 10, 20.
  8. 345Cf. Mc 2, 7; Jo 5, 18; 10, 33.
  9. 346Cf. Jo 7, 12; 52.
  10. 347Cf. Jo 8, 59; 10, 31.
575

Muitas atitudes e palavras de Jesus foram, portanto, «sinal de contradição»348 para as autoridades religiosas de Jerusalém, a quem o Evangelho de São João muitas vezes chama simplesmente «os Judeus»349, mais ainda do que para o comum do Povo de Deus350. Sem dúvida que as suas relações com os fariseus não foram unicamente polémicas: são fariseus que O previnem do perigo que corre351. Jesus louva alguns de entre eles, como o escriba de Mc 12, 34, e em várias ocasiões come em casa de fariseus352. Jesus confirma doutrinas partilhadas por esta elite religiosa do povo de Deus: a ressurreição dos mortos353 formas de piedade (esmola, jejum e oração354) e o hábito de se dirigir a Deus como Pai, o carácter central do mandamento do amor de Deus e do próximo355.

Ver também§ 993

  1. 348Cf. Lc 2, 34.
  2. 349CL Jo 1, 19; 2, 18; 5, 10; 7, 13; 9, 22 18, 12: 19, 38; 20, 19.
  3. 350Cf. Jo 7, 48-49.
  4. 351Cf. Lc 13, 31.
  5. 352Cf. Lc 7, 36; 14, 1.
  6. 353Cf. Mt 22, 23-34; Lc 20, 39.
  7. 354Cf. Mt 6, 2-18.
  8. 355Cf. Mc 12, 28-34.
576

Aos olhos de muitos em Israel, parece que Jesus procede contra as instituições essenciais do Povo eleito:

– a submissão à Lei, na totalidade dos seus preceitos escritos e, para os fariseus, na interpretação da tradição oral;

– a centralidade do templo de Jerusalém, como lugar santo em que Deus habita de maneira privilegiada;

– a fé no Deus único, cuja glória nenhum homem pode partilhar.

I. Jesus e a Lei
577

Jesus fez uma solene advertência no início do sermão da montanha, ao apresentar a Lei dada por Deus no Sinai, quando da primeira Aliança, à luz da graça da Nova Aliança:

«Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogá-los, mas levá-los à perfeição. Em verdade vos digo: Antes que passem o céu e a Terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra. Portanto, se alguém transgredir um só destes mandamentos, por mais pequeno que seja, e ensinar assim aos homens, será o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os praticar e ensinar, será grande no Reino dos céus» (Mt 5, 17-19).

Ver também§ 1965§ 1967

578

Jesus, o Messias de Israel e, portanto, o maior no Reino dos céus, fazia questão de cumprir a Lei, executando-a integralmente até nos mais pequenos preceitos, segundo as suas próprias palavras. Foi, mesmo, o único a poder fazê-lo perfeitamente356. Os Judeus, segundo a sua própria confissão, não puderam nunca cumprir integralmente a Lei sem violação do mínimo preceito357. Por isso é que, em cada festa anual da Expiação, os filhos de Israel pediam a Deus perdão pelas suas transgressões da Lei. Com efeito, a Lei constitui um todo e, como lembra São Tiago, «quem observa toda a Lei, mas falta num só mandamento, torna-se réu de todos os outros» (Tg 2, 10)358.

Ver também§ 1953

  1. 356Cf. Jo 8, 46.
  2. 357Cf. Jo 7, 19; Act 13, 38-41; 15, 10.
  3. 358Cf. Gl 3, 10; 5, 3.
579

Este princípio da integralidade da observância da Lei, não só na letra mas também no espírito, era caro aos fariseus. Tomando-o extensivo a Israel, conduziram muitos judeus do tempo de Jesus a um zelo religioso extremo359. E um tal zelo, se não se ficasse por uma casuística «hipócrita»360, com certeza que prepararia o povo para esta inaudita intervenção de Deus, que será o cumprimento perfeito da Lei pelo único justo representante de todos os pecadores361.

  1. 359Cf. Rm 10, 2.
  2. 360Cf. Mt 15, 3-7; Lc 11, 39-54.
  3. 361Cf. Is 53, 11: Heb 9, 15.
580

O cumprimento perfeito da Lei só podia ser obra do divino Legislador, nascido sujeito à Lei na pessoa do Filho362. Em Jesus, a Lei já não aparece gravada em tábuas de pedra, mas «no íntimo do coração» (Jr 31, 33) do Servo, o qual, proclamando «fielmente o direito» (Is 42, 3), se tornou «a aliança do povo» (Is 42, 6). Jesus cumpriu a Lei até ao ponto de tomar sobre Si «a maldição da Lei»363 em que incorrem aqueles que não «praticam todos os preceitos da Lei»364; porque «a morte de Cristo foi para remir as faltas cometidas durante a primeira Aliança» (Heb 9, 15).

Ver também§ 527

  1. 362Cf. Gl 4, 4.
  2. 363Cf. Gl 3, 13.
  3. 364Cf. Gl 3, 10.
581

Jesus apareceu aos olhos dos Judeus e dos seus chefes espirituais como um «rabbi»365. Muitas vezes argumentou, no quadro da interpretação rabínica da Lei366. Mas, ao mesmo tempo, Jesus tinha forçosamente de Se confrontar com os doutores da Lei porque não Se contentava com propor a sua interpretação a par das deles: «ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas» (Mt 7, 28-29). N'Ele, era a própria Palavra de Deus, que Se fizera ouvir no Sinai, para dar a Moisés a Lei escrita, que de novo Se fazia ouvir sobre a montanha das bem-aventuranças367. Esta Palavra de Deus não aboliu a Lei, mas cumpriu-a, ao fornecer, de modo divino, a sua interpretação última: «Ouvistes que foi dito aos antigos [...] Eu, porém, digo-vos» (Mt 5, 33-34). Com esta mesma autoridade divina, desaprova certas «tradições humanas»368 dos fariseus, que «anulam a Palavra de Deus»369.

Ver também§ 2054

  1. 365Cf. Jo 3. 2; Mt 22, 23-24. 34-36.
  2. 366Cf. Mt 9, 12; 12, 5: Mc 2, 23-27; Lc 6, 6-9; Jo 7, 22-23.
  3. 367Cf. Mt 5, 1.
  4. 368Cf. Mc 7, 8.
  5. 369Cf. Mc 7, 13.
582

Indo mais longe, Jesus cumpriu a lei sobre a pureza dos alimentos, tão importante na vida quotidiana judaica, explicando o seu sentido «pedagógico»370 por uma interpretação divina: «Não há nada fora do homem que, ao entrar nele, o possa tornar impuro [...] – e assim declarava puros todos os alimentos – [...]. O que sai do homem é que o toma impuro. Pois, do interior do coração dos homens é que saem os pensamentos perversos» (Mc 7, 18-21). Proporcionando, com autoridade divina, a interpretação definitiva da Lei, Jesus colocou-Se numa situação de confronto com certos doutores da Lei, que não aceitavam a sua interpretação, muito embora garantida pelos sinais divinos que a acompanhavam371. Isto vale sobretudo para a questão do sábado: Jesus lembra, e muitas vezes com argumentos rabínicos372, que o repouso sabático não é violado pelo serviço de Deus373 ou do próximo374 que as suas curas realizam.

Ver também§ 368§ 548§ 2173

  1. 370Cf. Gl 3, 24.
  2. 371Cf. Jo 5, 36; 10 25. 37-38; 12, 37.
  3. 372Cf. Mc 2, 25-27; Jo 7, 22-24.
  4. 373Cf. Mt 12, 5; Nm 28, 9.
  5. 374Cf. Lc 13, 15-16; 14, 3-4.
II. Jesus e o templo
583

Jesus, como antes d'Ele os profetas, professou pelo templo de Jerusalém o mais profundo respeito. Ali foi apresentado por José e Maria, quarenta dias depois do seu nascimento375. Na idade de doze anos, decidiu ficar no templo para lembrar aos seus pais que tinha de Se ocupar das coisas de seu Pai376. Ao templo subiu todos os anos, ao menos pela Páscoa, durante a vida oculta377. O seu próprio ministério público foi ritmado pelas peregrinações a Jerusalém nas grandes festas judaicas378.

Ver também§ 529§ 534

  1. 375Cf. Lc 2, 22-39.
  2. 376Cf. Lc 2, 46-49.
  3. 377Cf. Lc 2, 41.
  4. 378Cf. Jo 2, 13-14; 5, 1.14; 7, 1.10.14; 8, 2; 10, 22-23.
584

Jesus subiu ao templo como quem sobe ao lugar privilegiado de encontro com Deus. O templo é para Ele a casa do seu Pai, uma casa de oração, e indigna-Se com o facto de o átrio exterior se ter tornado lugar de negócio379. Se expulsa os vendilhões do templo é pelo amor zeloso a seu Pai: «Não façais da casa do meu Pai casa de comércio». «Os discípulos recordaram-se de que estava escrito: "O zelo pela tua casa devorar-me-á" (Sl 69, 10)» (Jo 2, 16-17). Depois da ressurreição, os Apóstolos guardaram para com o templo um respeito religioso380.

Ver também§ 2599

  1. 379Cf. Mt 21, 13.
  2. 380Cf. Act 2, 46; 3. 1; 5, 20-21; etc.
585

No entanto, nas vésperas da sua paixão, Jesus anunciou a ruína deste esplêndido edifício, do qual não ficaria pedra sobre pedra381. Há aqui o anúncio dum sinal dos últimos tempos, que vão iniciar-se com a sua própria Páscoa382. Mas esta profecia pôde ser referida de modo deturpado por falsas testemunhas, quando do interrogatório a que Jesus foi sujeito em casa do sumo-sacerdote383 e ser-Lhe lançada em rosto, como injúria, quando agonizava, pregado na cruz384.

  1. 381Cf. Mt 24, 1-2.
  2. 382Cf. Mt 24, 3: Lc 13, 35.
  3. 383Cf. Mc 14, 57-58.
  4. 384Cf. Mt 27, 39-40.
586

Longe de ter sido contra o templo385 onde proclamou o essencial da sua doutrina386, Jesus quis pagar o imposto do templo, associando a Si Pedro387, que Ele acabara de estabelecer como pedra basilar da sua Igreja futura388. Mais ainda: identificou-Se com o templo, apresentando-Se como a morada definitiva de Deus entre os homens389. Por isso é que a sua entrega à morte corporal390 prenuncia a destruição do templo, a qual vai assinalar a entrada numa nova idade da história da salvação: «Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai» (Jo 4, 21)391.

Ver também§ 797§ 1179

  1. 385Cf. Mt 8, 4; 23, 21; Lc 17, 14; Jo 4, 22.
  2. 386Cf. Jo 18, 20.
  3. 387Cf. Mt 17, 24-27.
  4. 388Cf. Mt 16, 18.
  5. 389Cf. Jo 2, 21; Mt 12, 6.
  6. 390Cf. Jo 2, 18-22.
  7. 391Cf. Jo 4, 23-24; Mt 27, 51: Heb 9, 11; Ap 21, 22.
III. Jesus e a fé de Israel no Deus único e salvador
587

Se a Lei e o templo de Jerusalém puderam ser ocasião de «contradição»392 entre Jesus e as autoridades religiosas de Israel, o seu papel na redenção dos pecados, obra divina por excelência, foi, para essas autoridades, a verdadeira pedra de escândalo393.

  1. 392Cf. Lc 2, 34.
  2. 393Cf. Lc 20, 17-18; Sl 118, 22.
588

Jesus escandalizou os fariseus por comer com os publicanos e os pecadores394 tão familiarmente como com eles395. Contra aqueles «que se consideravam justos e desprezavam os demais» (Lc 18, 9)396 Jesus afirmou: «Eu não vim chamar os justos, vim chamar os pecadores, para que se arrependam» (Lc 5, 32). E foi mais longe, afirmando, diante dos fariseus, que, sendo o pecado universal397, cegam-se a si próprios398 aqueles que pretendem não precisar de salvação.

Ver também§ 545

  1. 394Cf. Lc 5. 30.
  2. 395Cf. Lc 7, 36; 11, 37; 14, 1.
  3. 396Cf. Jo 7, 49; 9, 34.
  4. 397Cf. Jo 8, 33-36.
  5. 398Cf. Jo 9. 40-41.
589

Jesus escandalizou, sobretudo, por ter identificado a sua conduta misericordiosa para com os pecadores com a atitude do próprio Deus a respeito dos mesmos399. Chegou, até, a dar a entender que, sentando-Se à mesa dos pecadores400, os admitia no banquete messiânico401. Mas foi muito particularmente ao perdoar os pecados que Jesus colocou as autoridades religiosas de Israel perante um dilema. É que, como essas autoridades justamente dizem, apavoradas, «só Deus pode perdoar os pecados» (Mc 2, 7). Jesus ao perdoar os pecados, ou blasfema por ser um homem que se faz igual a Deus402, ou diz a verdade e a Sua pessoa torna então presente e revela o nome de Deus403.

Ver também§ 431§ 1441§ 432

  1. 399Cf. Mt 9, 13; Os 6, 6.
  2. 400Cf. Lc 15, 1-2.
  3. 401Cf. Lc 15. 23-32.
  4. 402Cf. Jo 5, 18: 10, 33.
  5. 403Cf. Jo 17, 6.26.
590

Só a identidade divina da pessoa de Jesus é que pode justificar uma exigência tão absoluta como esta: «Quem não está comigo, está contra Mim» (Mt 12, 30); o mesmo se diga de quando afirma ser «mais que Jonas,... mais que Salomão» (Mt 12, 41-42), «mais que o templo»404; de quando lembra, a respeito de si próprio, que David chamou ao Messias o seu Senhor405; de quando afirma: «Antes de Abraão existir, "Eu sou"» (Jo 8, 58); e ainda mais: «Eu e o Pai somos um» (Jo 10, 30).

Ver também§ 253

  1. 404Cf. Mt 12, 6.
  2. 405Cf. Mc 12, 36-37.
591

Jesus pediu às autoridades religiosas de Jerusalém que acreditassem n'Ele, por causa das obras do seu Pai que Ele fazia406. Mas tal acto de fé tinha de passar por uma misteriosa morte para si mesmo, a qual desse lugar a um novo «nascimento do Alto»407, por atracção da graça divina408. Tal exigência de conversão, face a um tão surpreendente cumprimento das promessas409, permite compreender o trágico desdém do Sinédrio, ao sentenciar que Jesus merecia a morte como blasfemo410. Os membros do Sinédrio agiam assim, ao mesmo tempo por «ignorância»411 e pelo «endurecimento»412 da sua «incredulidade»413.

Ver também§ 526§ 574

  1. 406Cf. Jo 10, 36-38.
  2. 407Cf. Jo 3, 7.
  3. 408Cf. Jo 6, 44.
  4. 409Cf. Is 53, 1.
  5. 410Cf. Mc 3, 6; Mt 26, 64-66.
  6. 411Cf. Lc 23, 34; Act 3, 17-18.
  7. 412Cf. Mc 3, 5; Rm 11, 25.
  8. 413Cf. Rm 11, 20.
592

Jesus não aboliu a Lei do Sinai, mas cumpriu-a414 com tal perfeição415 que revelou o sentido último dela416 e resgatou as transgressões contra ela cometidas417.

  1. 414Cf. Mt 5, 17-19.
  2. 415Cf. Jo 8, 46.
  3. 416Cf. Mt 5, 33.
  4. 417Cf. Heb 9, 15.
593

Jesus venerou o templo, subindo a ele nas festas judaicas de peregrinação e amou com amor zeloso esta morada de Deus entre os homens. O templo prefigura o seu mistério. Quando anuncia a sua destruição, fá-lo como revelação da sua própria morte e da entrada numa nova idade da história da salvação, em que o seu Corpo será o templo definitivo.

594

Jesus praticou actos, como o perdão dos pecados, que O manifestaram como sendo o próprio Deus salvador418. Alguns judeus, que, não reconhecendo o Deus feito homem419 viam n'Ele «um homem que se faz Deus»420, julgaram-n'O como blasfemo.

  1. 418Cf. Jo 5, 16-18.
  2. 419Cf. Jo 1, 14.
  3. 420Cf. Jo 10, 33.
PARÁGRAFO 2
JESUS MORREU CRUCIFICADO
I. O processo de Jesus
DIVISÕES ENTRE AS AUTORIDADES JUDAICAS A RESPEITO DE JESUS
595

Entre as autoridades religiosas de Jerusalém, não somente se encontravam o fariseu Nicodemos421 e o notável José de Arimateia, discípulos ocultos de Jesus422, mas também, durante muito tempo, houve dissensões a respeito d'Ele423 ao ponto de, na própria véspera da paixão. João poder dizer deles que «um bom número acreditou n' Ele», embora de modo assaz imperfeito (Jo 12, 42); o que não é nada de admirar, tendo-se presente que, no dia seguinte ao de Pentecostes, «um grande número de sacerdotes se submetia à fé» (Act 6, 7) e «alguns homens do partido dos fariseus tinham abraçado a fé» (Act 15, 5), de tal modo que São Tiago podia dizer a São Paulo que «muitos milhares entre os judeus abraçaram a fé e todos têm zelo pela Lei» (Act 21, 20).

  1. 421Cf. Jo 7, 50.
  2. 422Cf. Jo 19, 38-39.
  3. 423Cf. Jo 9, 16-17; 10, 19-21.
596

As autoridades religiosas de Jerusalém não foram unânimes na atitude a adoptar a respeito de Jesus424. Os fariseus ameaçaram de excomunhão aqueles que O seguissem425. Aos que temiam que «todos acreditassem n'Ele e os romanos viessem destruir o templo e a nação» (Jo 11, 48), o sumo sacerdote Caifás propôs, profetizando: «E do vosso interesse que morra um só homem pelo povo e não pereça a nação inteira» (Jo 11, 50). O Sinédrio, tendo declarado Jesus «réu de morte»426 como blasfemo, mas tendo perdido o direito de condenar à morte fosse quem fosse427, entregou Jesus aos romanos, acusando-O de revolta política428 — o que O colocava em pé de igualdade com que Barrabás, acusado de «sedição» (Lc 23, 19). São também de carácter político as ameaças que os sumos-sacerdotes fazem a Pilatos, pressionando-o a condenar Jesus à morte429.

Ver também§ 1753

  1. 424Cf. Jo 9, 16; 10, 19.
  2. 425Cf. Jo 9, 22.
  3. 426Cf. Mt 26, 66.
  4. 427Cf. Jo 18, 31.
  5. 428Cf. Lc 23, 2.
  6. 429Cf. Jo 19, 12.15.21.
OS JUDEUS NÃO SÃO COLECTIVAMENTE RESPONSÁVEIS PELA MORTE DE JESUS
597

Tendo em conta a complexidade histórica do processo de Jesus, manifestada nas narrativas evangélicas, e qualquer que tenha sido o pecado pessoal dos intervenientes no processo (Judas, o Sinédrio, Pilatos), que só Deus conhece, não se pode atribuir a responsabilidade do mesmo ao conjunto dos judeus de Jerusalém, apesar da gritaria duma multidão manipulada430 e das censuras globais contidas nos apelos à conversão, depois do Pentecostes431. O próprio Jesus, perdoando na cruz432 e Pedro a seu exemplo, apelaram para «a ignorância»433 dos judeus de Jerusalém e mesmo dos seus chefes. Menos ainda é possível estender a responsabilidade ao conjunto dos judeus no espaço e no tempo, a partir do grito do povo: «Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos» (Mt 27, 25), que é uma fórmula de ratificação434:

Por isso, a Igreja declarou no II Concílio do Vaticano: «Não se pode, todavia, imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo, o que na sua paixão se perpetrou. [...] Nem por isso os judeus devem ser apresentados como reprovados por Deus e malditos, como se tal coisa se concluísse da Sagrada Escritura»435.

Ver também§ 1735§ 839

  1. 430Cf. Mc 15, 11.
  2. 431Cf. Act 2, 23.36; 3, 13-14; 4, 10; 5, 30; 7, 52; 10, 39; 13, 27-28; 1 Ts 2, 14-15.
  3. 432Cf. Lc 23, 34.
  4. 433Cf. Act 3, 17.
  5. 434Cf. Act 5, 28; 18, 6.
  6. 435II Concílio do Vaticano, Decl. Nostra aetate, 4: AAS 58 (1966) 743.
TODOS OS PECADORES FORAM AUTORES DA PAIXÃO DE CRISTO
598

A Igreja, no magistério da sua fé e no testemunho dos seus santos, nunca esqueceu que «os pecadores é que foram os autores, e como que os instrumentos, de todos os sofrimentos que o divino Redentor suportou»436. Partindo do princípio de que os nossos pecados atingem Cristo em pessoa437, a Igreja não hesita em imputar aos cristãos a mais grave responsabilidade no suplício de Jesus, responsabilidade que eles muitas vezes imputaram unicamente aos judeus:

«Devemos ter como culpados deste horrível crime os que continuam a recair nos seus pecados. Porque foram os nossos crimes que fizeram nosso Senhor Jesus Cristo suportar o suplício da cruz, é evidente que aqueles que mergulham na desordem e no mal crucificam de novo em seu coração, tanto quanto deles depende, o Filho de Deus, pelos seus pecados, expondo-O à ignomínia. E temos de reconhecer: o nosso crime, neste caso, é maior que o dos judeus. Porque eles, como afirma o Apóstolo, «se tivessem conhecido a Sabedoria de Deus, não leriam crucificado o Senhor da glória» (1 Cor 2, 8); ao passo que nós, pelo contrário, fazemos profissão de O conhecer: e, quando O renegamos pelos nossos actos, de certo modo levantamos contra Ele as nossas mãos assassinas»438.

«Não foram os demónios que O pregaram na cruz, mas tu com eles O crucificaste, e ainda agora O crucificas quando te deleitas nos vícios e pecados»439.

Ver também§ 1851

  1. 436CatRom 1, 5, 11. p. 64: Cf. Heb 12, 3.
  2. 437Cf. Mt 25, 45; Act 9, 4-5.
  3. 438CatRom 1, 5, 11, p. 64.
  4. 439São Francisco de Assis, Admonitia 5, 3: Opuscula Sancti Patris Francisci Assisiensis, ed. G. Esser (Grottaferrata 1978) p. 66. [Fontes Franciscanas I (Braga. Editorial Franciscana. 1994) p. 114].
II. A morte redentora de Cristo no desígnio divino de salvação
«JESUS ENTREGUE, SEGUNDO O DESÍGNIO DETERMINADO DE DEUS»
599

A morte violenta de Jesus não foi fruto do acaso, nem coincidência infeliz de circunstâncias várias. Faz parte do mistério do desígnio de Deus, como Pedro explica aos judeus de Jerusalém, logo no seu primeiro discurso no dia de Pentecostes: «Depois de entregue, segundo o desígnio determinado e a previsão de Deus» (Act 2, 23). Esta linguagem bíblica não significa que os que «entregaram Jesus»440 foram simples actores passivos dum drama previamente escrito por Deus.

Ver também§ 517

  1. 440Cf. Act 3, 13.
600

A Deus, todos os momentos do tempo estão presentes na sua actualidade. Por isso, Ele estabelece o seu desígnio eterno de «predestinação», incluindo nele a resposta livre de cada homem à sua graça: «Na verdade, Herodes e Pôncio Pilatos uniram-se nesta cidade, com as nações pagãs e os povos de Israel, contra o vosso santo Servo Jesus, a quem ungistes441. Cumpriram assim tudo o que o vosso poder e os vossos desígnios tinham de antemão decidido que se realizasse» (Act 4, 27-28). Deus permitiu os actos resultantes da sua cegueira442, como fim de levar a cabo o seu plano de salvação443.

Ver também§ 312

  1. 441Cf. Sl 2, 1-2.
  2. 442Cf. Mt 26, 54; Jo 18, 36: 19, 11.
  3. 443Cf. Act 3, 17-18.
«MORTO PELOS NOSSOS PECADOS, SEGUNDO AS ESCRITURAS»
601

Este plano divino de salvação, pela entrega à morte do «Servo, o Justo»444, tinha sido de antemão anunciado na Escritura como um mistério de redenção universal, quer dizer, de resgate que liberta os homens da escravidão do pecado445 São Paulo professa, numa confissão de fé que diz ter «recebido»446, que «Cristo morreu pelos nossos pecados segundo as Escrituras» (1 Cor 15, 3)447. A morte redentora de Jesus deu cumprimento sobretudo à profecia do Servo sofredor448. O próprio Jesus apresentou o sentido da sua vida e da sua morte à luz do Servo sofredor449. Após a sua ressurreição, deu esta interpretação das Escrituras aos discípulos de Emaús450 e depois aos próprios Apóstolos451.

Ver também§ 652§ 713

  1. 444Cf. Is 53, 11: Act 3, 14.
  2. 445Cf. Is 53, 11-12; Jo 8. 34-3
  3. 446Cf. 1 Cor 15, 3.
  4. 447Cf. também Act 3, 18; 7, 52; 13, 29; 26, 22-23.
  5. 448Cf. Is 53. 7-8; Act 8, 32-35.
  6. 449Cf. Mt 20, 28.
  7. 450Cf. Lc 24, 25-27.
  8. 451Cf. Lc 24, 44-45.
«POR NÓS, DEUS FÊ-LO PECADO»
602

Consequentemente, Pedro pôde formular assim a fé apostólica no plano divino da salvação: «fostes resgatados da vã maneira de viver herdada dos vossos pais, pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito nem mancha, predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por nossa causa» (1 Pe1, 18-20). Os pecados dos homens, que se seguiram ao pecado original, foram castigados com a morte452. Enviando o seu próprio Filho na condição de escravo453, que era a de uma humanidade decaída e votada à morte por causa do pecado454, «a Cristo, que não conhecera o pecado, Deus fê-lo pecado por amor de nós, para que, em Cristo, nos tornássemos justos aos olhos de Deus» (2 Cor 5, 21).

Ver também§ 400§ 519

  1. 452Cf. Rm 5, 12: 1 Cor 15, 56.
  2. 453Cf. Fl 2, 7.
  3. 454Cf. Rm 8, 3.
603

Jesus não conheceu a reprovação como se tivesse pecado pessoalmente455. Mas, no amor redentor que constantemente O unia ao Pai456, assumiu-nos no afastamento do nosso pecado em relação a Deus a ponto de, na cruz, poder dizer em nosso nome: «Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?» (Mc 15, 34)457. Tendo-O feito solidário connosco, pecadores, «Deus não poupou o seu próprio Filho, mas entregou-O para morrer por nós todos» (Rm 8, 32), para que fôssemos «reconciliados com Ele pela morte do seu Filho» (Rm 5, 10).

Ver também§ 2572

  1. 455Cf. Jo 8, 46.
  2. 456Cf. Jo 8, 29.
  3. 457Cf. Sl 22, 1.
DEUS TOMA A INICIATIVA DO AMOR REDENTOR UNIVERSAL
604

Entregando o seu Filho pelos nossos pecados, Deus manifesta que o seu plano sobre nós é um desígnio de amor benevolente, independente de qualquer mérito da nossa parte: «Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, foi Deus que nos amou a nós e enviou o seu Filho como vítima de propiciação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10)458. «Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores» (Rm 5, 8).

Ver também§ 211§ 2009§ 1825

  1. 458Cf. 1 Jo 4, 19.
605

Este amor é sem exclusão. Jesus lembrou-o ao terminar a parábola da ovelha perdida: «Assim, não é da vontade do meu Pai, que está nos céus, que se perca um só destes pequeninos» (Mt 18, 14). E afirma «dar a Sua vida em resgate pela multidão» (Mt 20, 28). Esta última expressão não é restritiva: simplesmente contrapõe o conjunto da humanidade à pessoa única do redentor, que Se entrega para a salvar459. No seguimento dos Apóstolos460, a Igreja ensina que Cristo morreu por todos os homens, sem excepção: «Não há, não houve, nem haverá nenhum homem pelo qual Cristo não tenha sofrido»461.

Ver também§ 402§ 634§ 2793

  1. 459Cf. Rm 5, 18-19.
  2. 460Cf. 2 Cor 5, 15: 1 Jo 2, 2.
  3. 461Concílio de Quiercy (ano 853). De libero arbitrio hominis et de praedestinatione, canon 4: DS 624.
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S. Josemaría Escrivá · escriva.org

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