«Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo, oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo nas coisas criadas, e, além disso, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o princípio, aos nossos primeiros pais»6. Convidou-os a uma comunhão íntima consigo, revestindo-os de uma graça e justiça resplandecentes.
Esta Revelação não foi interrompida pelo pecado dos nossos primeiros pais. Com efeito, Deus, «depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-lhes a esperança da salvação, e cuidou continuamente do género humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a salvação»7.
«E quando, por desobediência, perdeu a vossa amizade, não o abandonastes ao poder da morte [...] Repetidas vezes fizestes aliança com os homens8».
Desfeita a unidade do género humano pelo pecado, Deus procurou imediatamente, salvar a humanidade intervindo com cada uma das suas partes. A aliança com Noé, a seguir ao dilúvio9, exprime o princípio da economia divina em relação às «nações», quer dizer, em relação aos homens reagrupados «por países e línguas, por famílias e nações» ()10.
Esta ordem, ao mesmo tempo cósmica, social e religiosa da pluralidade das nações11, destinava-se a limitar o orgulho duma humanidade decaída, que, unânime na sua perversidade12, pretendia refazer por si mesma a própria unidade, à maneira de Babel13. Mas, por causa do pecado14, quer o politeísmo quer a idolatria da nação e do seu chefe são uma contínua ameaça de perversão pagã a esta economia provisória.
A aliança com Noé permanece em vigor enquanto durar o tempo das nações15, até à proclamação universal do Evangelho. A Bíblia venera algumas grandes figuras das «nações», como «o justo Abel», o rei e sacerdote Melquisedec16, figura de Cristo17, ou os justos «Noé, Danel e Job» (). Deste modo, a Escritura exprime o alto grau de santidade que podem atingir os que vivem segundo a aliança de Noé, na expectativa de que Cristo «reúna, na unidade, todos os filhos de Deus dispersos» ().
Para reunir a humanidade dispersa, Deus escolhe Abrão, chamando-o para «deixar a sua terra, a sua família e a casa de seu pai» (), para o fazer Abraão, quer dizer, «pai de um grande número de nações» (): «Em ti serão abençoadas todas as nações da Terra» ()18.
O povo descendente de Abraão será o depositário da promessa feita aos patriarcas, o povo eleito19, chamado a preparar a reunião, um dia, de todos os filhos de Deus na unidade da Igreja20. Será o tronco em que serão enxertados os pagãos tornados crentes21.
Os patriarcas, os profetas e outras personagens do Antigo Testamento foram, e serão sempre, venerados como santos em todas as tradições litúrgicas da Igreja.
Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egipto. Concluiu com ele a aliança do Sinai e deu-lhe, por Moisés, a sua Lei, para que Israel O reconhecesse e O servisse como único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e justo Juiz, e vivesse na expectativa do Salvador prometido22.
Israel é o povo sacerdotal de Deus23, sobre o qual «foi invocado o Nome do Senhor» (). É o povo daqueles «a quem Deus falou em primeiro lugar»24, o povo dos «irmãos mais velhos» na fé de Abraão25.
24Sexta-Feira da Paixão do Senhor. Oração universal VI: Missale Romanum. editio typica. Typis Polyglottis Vaticanis 1975, p. 254 [a tradução oficial portuguesa omite este particular: Missal Romano. Gráfica de Coimbra 1992. p. 259.267].
25João Paulo II, Discurso na sinagoga durante o encontro com a comunidade hebraica da cidade de Roma (13 de Abril de 1986), 4: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, IX/1, 1027.
Pelos profetas, Deus forma o seu povo na esperança da salvação, na expectativa duma aliança nova e eterna, destinada a todos os homens26, e que será gravada nos corações27. Os profetas anunciam uma redenção radical do povo de Deus, a purificação de todas as suas infidelidades28, uma salvação que abrangerá todas as nações29. Serão sobretudo os pobres e os humildes do Senhor30 os portadores desta esperança. As mulheres santas como Sara, Rebeca, Raquel, Míriam, Débora, Ana, Judite e Ester conservaram viva a esperança da salvação de Israel. Maria é a imagem puríssima desta esperança31.
O Antigo Testamento é uma parte da Sagrada Escritura de que não se pode prescindir. Os seus livros são divinamente inspirados e conservam um valor permanente99, porque a Antiga Aliança nunca foi revogada.
Efectivamente, «a "economia"do Antigo Testamento destinava-se, sobretudo, a preparar [...] o advento de Cristo, redentor universal».
Os livros do Antigo Testamento, «apesar de conterem também coisas imperfeitas e transitórias», dão testemunho de toda a divina pedagogia do amor salvífico de Deus: neles «encontram-se sublimes doutrinas a respeito de Deus, uma sabedoria salutar a respeito da vida humana, bem como admiráveis tesouros de preces»; neles, em suma, está latente o mistério da nossa salvação»100.
Os cristãos veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus. A Igreja combateu sempre vigorosamente a ideia de rejeitar o Antigo Testamento, sob o pretexto de que o Novo o teria feito caducar (Marcionismo).
No decorrer da sua história, Israel pôde descobrir que Deus só tinha uma razão para Se lhe ter revelado e o ter escolhido, de entre todos os povos, para ser o seu povo: o seu amor gratuito19. E Israel compreendeu, graças aos seus profetas, que foi também por amor que Deus não deixou de o salvar20 e de lhe perdoar a sua infidelidade e os seus pecados21.
O amor de Deus para com Israel é comparado ao amor dum pai para com o seu filho22. Este amor é mais forte que o de uma mãe para com os seus filhos23. Deus ama o seu povo, mais que um esposo a sua bem-amada24; este amor vencerá mesmo as piores infidelidades25; e chegará ao mais precioso de todos os dons: «Deus amou de tal maneira o mundo, que lhe entregou o seu Filho Único» ().
O amor de Deus é «eterno» (): «Ainda que as montanhas se desloquem e vacilem as colinas, o meu amor não te abandonará» (). «Amei-te com amor eterno: por isso, guardei o meu favor para contigo» ().
São João irá ainda mais longe, ao afirmar: «Deus é Amor» (, 16): a própria essência de Deus é Amor. Ao enviar, na plenitude dos tempos, o seu Filho único e o Espírito de Amor, Deus revela o seu segredo mais íntimo ": Ele próprio é eternamente permuta de amor: Pai, Filho e Espírito Santo; e destinou-nos a tomar parte nessa comunhão.
Três perguntas do Compêndio sobre o que acabou de ler. Tente responder antes de abrir.
Quais as primeiras etapas da Revelação de Deus?
Deus manifesta-se desde o princípio aos nossos primeiros pais, Adão e Eva, e convida-os a uma comunhão íntima com Ele. Após a sua queda, não interrompe a revelação e promete a salvação para toda a sua descendência. Após o dilúvio, estabelece com Noé uma aliança entre Ele e todos os seres vivos.
Deus escolhe Abrão chamando-o a deixar a sua terra para fazer dele “o pai duma multidão de povos” (Gn 17,5), e promete abençoar nele “todas as nações da terra” (Gn 12,3). Os descendentes de Abraão serão o povo eleito, os depositários das promessas divinas feitas aos patriarcas. Deus forma Israel como seu povo salvando-o da escravidão do Egipto; conclui com ele a Aliança do Sinai, e dá-lhe a sua Lei, por meio de Moisés. Os profetas anunciam uma redenção radical do povo e uma salvação que incluirá todas as nações numa Aliança nova e eterna, que será gravada nos corações. Do povo de Israel, da descendência do rei David, nascerá o Messias: Jesus.
Compêndio, n.º 8 ›Que importância tem o Antigo Testamento para os cristãos?
Os cristãos veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus: todos os seus escritos são divinamente inspirados e conservam um valor permanente. Eles dão testemunho da divina pedagogia do amor salvífico de Deus. Foram escritos sobretudo para preparar o advento de Cristo Salvador do universo.