Jesus, como antes d'Ele os profetas, professou pelo templo de Jerusalém o mais profundo respeito. Ali foi apresentado por José e Maria, quarenta dias depois do seu nascimento375. Na idade de doze anos, decidiu ficar no templo para lembrar aos seus pais que tinha de Se ocupar das coisas de seu Pai376. Ao templo subiu todos os anos, ao menos pela Páscoa, durante a vida oculta377. O seu próprio ministério público foi ritmado pelas peregrinações a Jerusalém nas grandes festas judaicas378.
§ 583–596
Jesus subiu ao templo como quem sobe ao lugar privilegiado de encontro com Deus. O templo é para Ele a casa do seu Pai, uma casa de oração, e indigna-Se com o facto de o átrio exterior se ter tornado lugar de negócio379. Se expulsa os vendilhões do templo é pelo amor zeloso a seu Pai: «Não façais da casa do meu Pai casa de comércio». «Os discípulos recordaram-se de que estava escrito: "O zelo pela tua casa devorar-me-á" ()» (). Depois da ressurreição, os Apóstolos guardaram para com o templo um respeito religioso380.
Ver também§ 2599
No entanto, nas vésperas da sua paixão, Jesus anunciou a ruína deste esplêndido edifício, do qual não ficaria pedra sobre pedra381. Há aqui o anúncio dum sinal dos últimos tempos, que vão iniciar-se com a sua própria Páscoa382. Mas esta profecia pôde ser referida de modo deturpado por falsas testemunhas, quando do interrogatório a que Jesus foi sujeito em casa do sumo-sacerdote383 e ser-Lhe lançada em rosto, como injúria, quando agonizava, pregado na cruz384.
Longe de ter sido contra o templo385 onde proclamou o essencial da sua doutrina386, Jesus quis pagar o imposto do templo, associando a Si Pedro387, que Ele acabara de estabelecer como pedra basilar da sua Igreja futura388. Mais ainda: identificou-Se com o templo, apresentando-Se como a morada definitiva de Deus entre os homens389. Por isso é que a sua entrega à morte corporal390 prenuncia a destruição do templo, a qual vai assinalar a entrada numa nova idade da história da salvação: «Vai chegar a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai» ()391.
Jesus escandalizou os fariseus por comer com os publicanos e os pecadores394 tão familiarmente como com eles395. Contra aqueles «que se consideravam justos e desprezavam os demais» ()396 Jesus afirmou: «Eu não vim chamar os justos, vim chamar os pecadores, para que se arrependam» (). E foi mais longe, afirmando, diante dos fariseus, que, sendo o pecado universal397, cegam-se a si próprios398 aqueles que pretendem não precisar de salvação.
Ver também§ 545
Jesus escandalizou, sobretudo, por ter identificado a sua conduta misericordiosa para com os pecadores com a atitude do próprio Deus a respeito dos mesmos399. Chegou, até, a dar a entender que, sentando-Se à mesa dos pecadores400, os admitia no banquete messiânico401. Mas foi muito particularmente ao perdoar os pecados que Jesus colocou as autoridades religiosas de Israel perante um dilema. É que, como essas autoridades justamente dizem, apavoradas, «só Deus pode perdoar os pecados» (). Jesus ao perdoar os pecados, ou blasfema por ser um homem que se faz igual a Deus402, ou diz a verdade e a Sua pessoa torna então presente e revela o nome de Deus403.
Só a identidade divina da pessoa de Jesus é que pode justificar uma exigência tão absoluta como esta: «Quem não está comigo, está contra Mim» (); o mesmo se diga de quando afirma ser «mais que Jonas,... mais que Salomão» (), «mais que o templo»404; de quando lembra, a respeito de si próprio, que David chamou ao Messias o seu Senhor405; de quando afirma: «Antes de Abraão existir, "Eu sou"» (); e ainda mais: «Eu e o Pai somos um» ().
Ver também§ 253
Jesus pediu às autoridades religiosas de Jerusalém que acreditassem n'Ele, por causa das obras do seu Pai que Ele fazia406. Mas tal acto de fé tinha de passar por uma misteriosa morte para si mesmo, a qual desse lugar a um novo «nascimento do Alto»407, por atracção da graça divina408. Tal exigência de conversão, face a um tão surpreendente cumprimento das promessas409, permite compreender o trágico desdém do Sinédrio, ao sentenciar que Jesus merecia a morte como blasfemo410. Os membros do Sinédrio agiam assim, ao mesmo tempo por «ignorância»411 e pelo «endurecimento»412 da sua «incredulidade»413.
Jesus venerou o templo, subindo a ele nas festas judaicas de peregrinação e amou com amor zeloso esta morada de Deus entre os homens. O templo prefigura o seu mistério. Quando anuncia a sua destruição, fá-lo como revelação da sua própria morte e da entrada numa nova idade da história da salvação, em que o seu Corpo será o templo definitivo.
Entre as autoridades religiosas de Jerusalém, não somente se encontravam o fariseu Nicodemos421 e o notável José de Arimateia, discípulos ocultos de Jesus422, mas também, durante muito tempo, houve dissensões a respeito d'Ele423 ao ponto de, na própria véspera da paixão. João poder dizer deles que «um bom número acreditou n' Ele», embora de modo assaz imperfeito (); o que não é nada de admirar, tendo-se presente que, no dia seguinte ao de Pentecostes, «um grande número de sacerdotes se submetia à fé» () e «alguns homens do partido dos fariseus tinham abraçado a fé» (), de tal modo que São Tiago podia dizer a São Paulo que «muitos milhares entre os judeus abraçaram a fé e todos têm zelo pela Lei» ().
As autoridades religiosas de Jerusalém não foram unânimes na atitude a adoptar a respeito de Jesus424. Os fariseus ameaçaram de excomunhão aqueles que O seguissem425. Aos que temiam que «todos acreditassem n'Ele e os romanos viessem destruir o templo e a nação» (), o sumo sacerdote Caifás propôs, profetizando: «E do vosso interesse que morra um só homem pelo povo e não pereça a nação inteira» (). O Sinédrio, tendo declarado Jesus «réu de morte»426 como blasfemo, mas tendo perdido o direito de condenar à morte fosse quem fosse427, entregou Jesus aos romanos, acusando-O de revolta política428 — o que O colocava em pé de igualdade com que Barrabás, acusado de «sedição» (). São também de carácter político as ameaças que os sumos-sacerdotes fazem a Pilatos, pressionando-o a condenar Jesus à morte429.
Ver também§ 1753