Jesus escandalizou, sobretudo, por ter identificado a sua conduta misericordiosa para com os pecadores com a atitude do próprio Deus a respeito dos mesmos399. Chegou, até, a dar a entender que, sentando-Se à mesa dos pecadores400, os admitia no banquete messiânico401. Mas foi muito particularmente ao perdoar os pecados que Jesus colocou as autoridades religiosas de Israel perante um dilema. É que, como essas autoridades justamente dizem, apavoradas, «só Deus pode perdoar os pecados» (). Jesus ao perdoar os pecados, ou blasfema por ser um homem que se faz igual a Deus402, ou diz a verdade e a Sua pessoa torna então presente e revela o nome de Deus403.
Dia 76 de 365
§ 589–596
Só a identidade divina da pessoa de Jesus é que pode justificar uma exigência tão absoluta como esta: «Quem não está comigo, está contra Mim» (); o mesmo se diga de quando afirma ser «mais que Jonas,... mais que Salomão» (), «mais que o templo»404; de quando lembra, a respeito de si próprio, que David chamou ao Messias o seu Senhor405; de quando afirma: «Antes de Abraão existir, "Eu sou"» (); e ainda mais: «Eu e o Pai somos um» ().
Ver também§ 253
Jesus pediu às autoridades religiosas de Jerusalém que acreditassem n'Ele, por causa das obras do seu Pai que Ele fazia406. Mas tal acto de fé tinha de passar por uma misteriosa morte para si mesmo, a qual desse lugar a um novo «nascimento do Alto»407, por atracção da graça divina408. Tal exigência de conversão, face a um tão surpreendente cumprimento das promessas409, permite compreender o trágico desdém do Sinédrio, ao sentenciar que Jesus merecia a morte como blasfemo410. Os membros do Sinédrio agiam assim, ao mesmo tempo por «ignorância»411 e pelo «endurecimento»412 da sua «incredulidade»413.
Jesus venerou o templo, subindo a ele nas festas judaicas de peregrinação e amou com amor zeloso esta morada de Deus entre os homens. O templo prefigura o seu mistério. Quando anuncia a sua destruição, fá-lo como revelação da sua própria morte e da entrada numa nova idade da história da salvação, em que o seu Corpo será o templo definitivo.
Entre as autoridades religiosas de Jerusalém, não somente se encontravam o fariseu Nicodemos421 e o notável José de Arimateia, discípulos ocultos de Jesus422, mas também, durante muito tempo, houve dissensões a respeito d'Ele423 ao ponto de, na própria véspera da paixão. João poder dizer deles que «um bom número acreditou n' Ele», embora de modo assaz imperfeito (); o que não é nada de admirar, tendo-se presente que, no dia seguinte ao de Pentecostes, «um grande número de sacerdotes se submetia à fé» () e «alguns homens do partido dos fariseus tinham abraçado a fé» (), de tal modo que São Tiago podia dizer a São Paulo que «muitos milhares entre os judeus abraçaram a fé e todos têm zelo pela Lei» ().
As autoridades religiosas de Jerusalém não foram unânimes na atitude a adoptar a respeito de Jesus424. Os fariseus ameaçaram de excomunhão aqueles que O seguissem425. Aos que temiam que «todos acreditassem n'Ele e os romanos viessem destruir o templo e a nação» (), o sumo sacerdote Caifás propôs, profetizando: «E do vosso interesse que morra um só homem pelo povo e não pereça a nação inteira» (). O Sinédrio, tendo declarado Jesus «réu de morte»426 como blasfemo, mas tendo perdido o direito de condenar à morte fosse quem fosse427, entregou Jesus aos romanos, acusando-O de revolta política428 — o que O colocava em pé de igualdade com que Barrabás, acusado de «sedição» (). São também de carácter político as ameaças que os sumos-sacerdotes fazem a Pilatos, pressionando-o a condenar Jesus à morte429.
Ver também§ 1753
Perguntas para si
Três perguntas do Compêndio sobre o que acabou de ler. Tente responder antes de abrir.
Qual o comportamento de Jesus, em relação à Lei de Israel?
Jesus não aboliu a Lei, dada por Deus a Moisés no Sinai, mas levou-a à plenitude, dando-lhe a interpretação definitiva. É o Legislador divino que cumpre integralmente esta Lei. Além disso, Ele, o Servo fiel, oferece mediante a sua morte expiadora o único sacrifício capaz de redimir todas «as faltas cometidas durante a primeira Aliança» (Heb 9,15).
Jesus contradisse a fé de Israel no Deus único e salvador?
Jesus nunca contradisse a fé num Deus único, nem sequer quando realizava a obra divina por excelência que cumpria as promessas messiânicas e o revelava igual a Deus: o perdão dos pecados. A exigência feita por Jesus de fé na sua pessoa e de conversão permite compreender a trágica incompreensão do Sinédrio que considerou Jesus merecedor de morte porque blasfemo.
Quem é responsável pela morte de Jesus?
A paixão e a morte de Jesus não podem ser imputadas indistintamente nem a todos os judeus então vivos, nem aos outros judeus que depois viveram no tempo e no espaço. Cada pecador, isto é, cada homem, é realmente causa e instrumento dos sofrimentos do Redentor, e culpa maior têm aqueles, sobretudo se são cristãos, que mais frequentemente caem no pecado ou se deleitam nos vícios.