Catecismo

§ 608–654

«O CORDEIRO QUE TIRA O PECADO DO MUNDO»
608

Depois de ter aceitado dar-Lhe o baptismo como aos pecadores464, João Baptista viu e mostrou em Jesus o «Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo»465. Manifestou deste modo que Jesus é, ao mesmo tempo, o Servo sofredor, que Se deixa levar ao matadouro sem abrir a boca466, carregando os pecados das multidões467, e o cordeiro pascal, símbolo da redenção de Israel na primeira Páscoa468, Toda a vida de Cristo manifesta a sua missão: «servir e dar a vida como resgate pela multidão»469.

Ver também§ 523§ 517

  1. 464Cf. Lc 3, 21; Mt 3, 14-15.
  2. 465Cf. Jo 1, 29.36.
  3. 466Cf. Is 53, 7: Jr 11,19.
  4. 467Cf. Is 53, 12.
  5. 468Cf. Ex 12, 3-14; Jo 19, 36; 1 Cor 5, 7.
  6. 469Cf. Mc 10, 45.
JESUS PARTILHA LIVREMENTE O AMOR REDENTOR DO PAI
609

Ao partilhar, no seu coração humano, o amor do Pai para com os homens, Jesus «amou-os até ao fim» (Jo 13, 1), «pois não há maior amor do que dar a vida por aqueles que se ama» (Jo 15, 13). Assim, no sofrimento e na morte, a sua humanidade tornou-se instrumento livre e perfeito do seu amor divino, que quer a salvação dos homens470. Com efeito, Ele aceitou livremente a sua paixão e morte por amor do Pai e dos homens a quem o Pai quer salvar: «Ninguém Me tira a vida. Sou Eu que a dou espontaneamente» (Jo 10, 18). Daí, a liberdade soberana do Filho de Deus, quando Ele próprio vai ao encontro da morte471.

Ver também§ 478§ 515§ 272§ 539

  1. 470Cf. Heb 2, 10.17-18; 4, 15; 5, 7-9.
  2. 471Cf. Jo 18, 4-6; Mt 26, 53.
NA CEIA, JESUS ANTECIPOU A OBLAÇÃO LIVRE DA SUA VIDA
610

Jesus exprimiu de modo supremo a oblação livre de Si mesmo na refeição que tornou com os doze Apóstolos472, na «noite em que foi entregue» (1 Cor 11, 23). Na véspera da sua paixão, quando ainda era livre, Jesus fez desta última Ceia com os Apóstolos o memorial da sua oblação voluntária ao Pai473 para a salvação dos homens: «Isto é o meu Corpo, que vai ser entregue por vós» (Lc 22, 19). «Isto é o meu "Sangue da Aliança", que vai ser derramado por uma multidão, para remissão dos pecados» (Mt 26, 28).

Ver também§ 766§ 1337

  1. 472Cf. Mt 26, 20.
  2. 473Cf. 1 Cor 5, 7.
611

A Eucaristia, que neste momento instituiu, será o «memorial»474 do seu sacrifício. Jesus incluiu os Apóstolos na sua própria oferenda e pediu-lhes que a perpetuassem475. Desse modo, instituiu os Apóstolos como sacerdotes da Nova Aliança: «Eu consagro-me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade» (Jo 17, 19)476.

Ver também§ 1364§ 1341§ 1566

  1. 474Cf. 1 Cor 11, 25.
  2. 475Cf. Lc 22, 19.
  3. 476Cf. Concílio de Trento, Sess. 22ª, Doctrina de sanctissimo Missae Sacriftcio, canon 2: DS 1752: Sess. 23ª, Doctrina de sacramento Ordinis, c. 1: DS 1764.
A AGONIA NO GETSÉMANI
612

O cálice da Nova Aliança, que Jesus antecipou na Ceia, oferecendo-Se a Si mesmo477, é aceite seguidamente por Jesus das mãos do Pai, na agonia no Getsémani478, fazendo-Se «obediente até á morte» (Fl 2, 8)479. Na sua oração, Jesus diz: «Meu Pai, se é possível, que se afaste de Mim este cálice [...]» (Mt 26, 39). Exprime desse modo o horror que a morte representa para a sua natureza humana. Com efeito, esta, como a nossa, está destinada à vida eterna. Mas, diferentemente da nossa, é perfeitamente isenta do pecado480 que causa a morte481. E, sobretudo, é assumida pela pessoa divina do «Príncipe da Vida»482, do «Vivente»483. Aceitando, com a sua vontade humana, que se faça a vontade do Pai484 aceita a sua morte enquanto redentora, para «suportar os nossos pecados no seu corpo, no madeiro da cruz» (1 Pe 2, 24).

Ver também§ 532§ 2600§ 1009

  1. 477Cf. Lc 22, 20.
  2. 478Cf. Mt 26, 42.
  3. 479Cf. Heb 5, 7-8.
  4. 480Cf. Heb 4, 15.
  5. 481Cf. Rm 5, 12.
  6. 482Cf. Act 3, 15.
  7. 483Cf. Ap 1, 18; Jo 1, 4; 5, 26.
  8. 484Cf. Mt 26, 42.
A MORTE DE CRISTO É O SACRIFÍCIO ÚNICO E DEFINITIVO
613

A morte de Cristo é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal que realiza a redenção definitiva dos homens485 por meio do «Cordeiro que tira o pecado do mundo»486, e o sacrifício da Nova Aliança487que restabelece a comunhão entre o homem e Deus488, reconciliando-o com Ele pelo «sangue derramado pela multidão, para a remissão dos pecados»489.

Ver também§ 1366§ 2009

  1. 485Cf. 1 Cor 5, 7; Jo 8, 34-36.
  2. 486Cf. Jo 1, 29: 1 Pe 1, 19.
  3. 487Cf. 1 Cor 11, 25.
  4. 488Cf. Ex 24, 8.
  5. 489Cf. Mt 26, 28; Lv 16, 15-16.
614

Este sacrifício de Cristo é único, leva à perfeição e ultrapassa todos os sacrifícios490. Antes de mais, é um dom do próprio Deus Pai: é o Pai que entrega o seu Filho para nos reconciliar consigo491. Ao mesmo tempo, é oblação do Filho de Deus feito homem, que livremente e por amor492 oferece a sua vida493 ao Pai pelo Espírito Santo494 para reparar a nossa desobediência.

Ver também§ 529§ 1330§ 2100

  1. 490Cf. Heb 10, 10.
  2. 491Cf. 1 Jo 4, 10.
  3. 492Cf. Jo 15, 13.
  4. 493Cf. Jo 10, 17-18.
  5. 494Cf. Heb 9, 14.
JESUS SUBSTITUI A NOSSA DESOBEDIÊNCIA PELA SUA OBEDIÊNCIA
615

«Como pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornarão justos» (Rm 5, 19). Pela sua obediência até à morte, Jesus realizou a acção substitutiva do Servo sofredor, que oferece a sua vida como sacrifício de expiação, ao carregar com o pecado das multidões, que justifica carregando Ele próprio com as suas faltas495. Jesus reparou as nossas faltas e satisfez ao Pai pelos nossos pecados496.

Ver também§ 1850§ 433§ 411

  1. 495Cf. Is 53, 10-12.
  2. 496Cf. Concílio de Trento, Sess. 6ª, Decretum de iustificatione, c. 7: DS 1529.
NA CRUZ, JESUS CONSUMA O SEU SACRIFÍCIO
616

É o «amor até ao fim»497 que confere ao sacrifício de Cristo o valor de redenção e reparação, de expiação e satisfação. Ele conheceu-nos e amou-nos a todos no oferecimento da sua vida498. «O amor de Cristo nos pressiona, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram» (2 Cor 5, 14). Nenhum homem, ainda que fosse o mais santo, estava em condições de tornar sobre si os pecados de todos os homens e de se oferecer em sacrifício por todos. A existência, em Cristo, da pessoa divina do Filho, que ultrapassa e ao mesmo tempo abrange todas as pessoas humanas e O constitui cabeça de toda a humanidade, é que torna possível o seu sacrifício redentor por todos.

Ver também§ 478§ 468§ 519

  1. 497Cf. Jo 13, 1.
  2. 498Cf. Gl 2, 20; Ef 5, 2. 25.
617

«Sua sanctissima passione in ligno crucis nobis justificationem meruit – Pela sua santíssima paixão no madeiro da cruz, Ele mereceu-nos a justificação» – ensina o Concílio de Trento499, sublinhando o carácter único do sacrifício de Cristo como fonte de salvação eterna500. E a Igreja venera a Cruz cantando: «O crux, ave, spes unica! – Avé, ó cruz, esperança única!»501.

Ver também§ 1992§ 1235

  1. 499Concílio de Trento, Sess. 6ª. Decretum de iustificatione, c. 1: DS 1529.
  2. 500Cf. Heb 5, 9.
  3. 501Aditamento litúrgico ao Hino «Vexilla Regis»: Liturgia Horarum, editio typica. N. 2 (Typis Polyglottis Vaticanis 1974) p. 313: v. 4, p. 1129 [a versão litúrgica em português difere um pouco: «Cruz do Senhor, és única esperança!»: Liturgia das Horas. v. 2 (Gráfica de Coimbra 1983) p. 366; v. 4. p. 1267].
A NOSSA PARTICIPAÇÃO NO SACRIFÍCIO DE CRISTO
618

A cruz é o único sacrifício de Cristo, mediador único entre Deus e os homens502. Mas porque, na sua pessoa divina encarnada. «Ele Se uniu, de certo modo, a cada homem»503, «a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal, por um modo só de Deus conhe­cido»504. Convida os discípulos a tomarem a sua cruz e a segui-Lo505 porque sofreu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigamos os seus passos506. De facto, quer associar ao seu sacrifício redentor aqueles mesmos que são os primeiros beneficiários507. Isto realiza-se, em sumo grau, em sua Mãe, associada, mais intimamente do que ninguém, ao mistério do seu sofrimento redentor508:

Há uma só escada verdadeira fora do paraíso; fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu»509.

Ver também§ 1368§ 1460§ 307§ 2100§ 964

  1. 502Cf. 1 Tm 2, 5.
  2. 503II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 22: AAS 58 (1966) 1042.
  3. 504Cf. II Concílio do Vaticano, Const. past. Gaudium et spes, 22: AAS 58 (1966) 1043.
  4. 505Cf. Mt 16, 24.
  5. 506Cf. 1 Pe 2, 21.
  6. 507Cf. Mc 10, 39; Jo 21, 18-19; Cl 1, 24.
  7. 508Cf. Lc 2, 35.
  8. 509Santa Rosa de Lima: P. Hansen. Vita mirabilis [...] venerabilis sororis Rosae de sancta Maria Limensis (Romae 1664), p. 137.
Resumindo:
619

«Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras» (1 Cor 15, 3).

620

A nossa salvação procede da iniciativa amorosa de Deus em nosso favor, pois «foi Ele que nos amou a nós e enviou o seu Filho como vítima de propiciação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10). «Foi Deus que, em Cristo, reconciliou consigo o mundo» (2 Cor 5, 19).

621

Jesus ofereceu-Se livremente para nossa salvação. Este dom, significa-o e realiza-o Ele, de antemão, durante a Ultimo Ceia: «Isto é o meu Corpo, que vai ser entregue por vós» (Lc 22, 19).

622

Nisto consiste a redenção de Cristo: Ele «veio dar a sua vida em resgate pela multidão»(Mt 20, 28), quer dizer; veio «amuar os seus até ao fim» (Jo 13, 1), para que fossem libertos da má conduta herdada dos seus pais510.

  1. 510Cf. 1 Pe 1, 18.
623

Pela sua obediência amorosa ao Pai, «até d morte de cruz» (Fl 2, 8), Jesus cumpriu a missão expiatória511 do Servo sofredor, que justifica as multidões, tomando sobre Si o peso das suas faltas (Is 53, 11)512.

  1. 511Cf. Is 53, 10.
  2. 512Cf. Is 53, 11; Rm 5, 19.
PARÁGRAFO 3
JESUS CRISTO FOI SEPULTADO
624

«Pela graça de Deus, ele experimentou a morte, para proveito de todos» (Heb 2, 9). No seu plano de salvação, Deus dispôs que o seu Filho, não só «morresse pelos nossos pecados» (1 Cor 15, 3), mas também «saboreasse a morte», isto é, conhecesse o estado de morte, o estado de separação entre a sua alma e o seu corpo, durante o tempo compreendido entre o momento em que expirou na cruz e o momento em que ressuscitou. Este estado de Cristo morto é o mistério do sepulcro e da descida à mansão dos mortos. É o mistério do Sábado Santo, em que Cristo, depositado no túmulo513, manifesta o repouso sabático de Deus514 depois da realização515 da salvação dos homens, que pacifica todo o universo516.

Ver também§ 1005§ 362§ 349

  1. 513Cf. Jo 19, 42.
  2. 514Cf. Heb 4, 4-9.
  3. 515Cf. Jo 19, 30.
  4. 516Cf. Cl 1, 18-20.
O CORPO DE CRISTO NO SEPULCRO
625

A permanência do corpo de Cristo no túmulo constitui o laço real entre o estado passível de Cristo antes da Páscoa e o seu estado glorioso actual de ressuscitado. É a mesma pessoa do «Vivente» que pode dizer: «Estive morto e eis-Me vivo pelos séculos dos séculos» (Ap 1, 18):

«É este o mistério do desígnio de Deus àcerca da morte e da ressurreição dos mortos: se Ele não impediu que a morte separasse a alma do corpo, segundo a ordem necessária da natureza: mas juntou-os de novo um ao outro pela ressurreição, a fim de ser Ele próprio na sua pessoa o ponto de encontro da morte e da vida, suspendendo em Si a decomposição da natureza produzida pela morte e tornando-Se, Ele próprio, princípio de reunião para as partes separadas»517.

  1. 517São Gregório de Nissa, Oratio catechetica, 16, 9: TD 7, 90 (PG 45, 52).
626

Uma vez que o «Príncipe da Vida», a quem deram a morte518, é precisamente o mesmo «Vivente que ressuscitou»519, é forçoso que a pessoa divina do Filho de Deus tenha continuado a assumir a alma e o corpo, separados um do outro pela morte:

«Embora Cristo, enquanto homem tenha sofrido a morte e a sua santa alma tenha sido separada do seu corpo imaculado, nem por isso a divindade se separou, de nenhum modo, nem da alma nem do corpo: e nem por isso a Pessoa única foi dividida em duas. Tanto o corpo como a alma tiveram existência simultânea, desde o início, na Pessoa do Verbo; e, apesar de na morte terem sido separados, nenhum dos dois deixou de subsistir na Pessoa única do Verbo»520.

Ver também§ 470§ 650

  1. 518Cf. Act 3, 15.
  2. 519Cf. Lc 24, 5-6.
  3. 520São João Damasceno, Expositio fidei, 71 [De Fide orthodoxa 3, 27]. PTS 12, 170 (PG 94, 1098).
«NÃO DEIXAREIS O VOSSO SANTO SOFRER A CORRUPÇÃO»
627

A morte de Cristo foi uma verdadeira morte, na medida em que pôs fim à sua existência humana terrena. Mas por causa da união que a Pessoa do Filho manteve com o seu corpo, este não se tornou um despojo mortal como os outros, porque «não era possível que Ele ficasse sob o domínio» da morte (Act 2, 24) e, por isso, «o poder divino preservou o corpo de Cristo da corrupção»521. De Cristo pode dizer-se ao mesmo tempo: «Foi cortado da terra dos vivos» (Is 53, 8) e: «A minha carne repousará na esperança, porque Tu não abandonarás a minha alma na mansão dos mortos, nem deixarás que o teu santo conheça a corrupção» (Act 2, 26-27)522. A ressurreição de Jesus «ao terceiro dia» (1 Cor 15, 4; Lc 24, 46)523 era disso sinal, até porque se julgava que a corrupção começava a manifestar-se a partir do quarto dia524.

Ver também§ 1009§ 1683

  1. 521São Tomás de Aquino, Summa theologiae, 3, 51, 3. ad 2: ED. Leon. 11, 490.
  2. 522Cf. Sl 16, 9-10.
  3. 523Cf. Mt 12, 40: Jo 2, 1; Os 6, 2.
  4. 524Cf. Jo 11, 39.
«SEPULTADOS COM CRISTO...»
628

O Baptismo, cujo sinal original e pleno é a imersão, significa eficazmente a descida ao túmulo, por parte do cristão que morre para o pecado com Cristo, com vista a uma vida nova. «Fomos sepultados com Ele, pelo Baptismo, na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova» (Rm 6, 4)525.

Ver também§ 537§ 1214

  1. 525Cf. Cl 2, 12: Ef 5, 26.
629

Para benefício de todos os homens, Jesus experimentou a morte526. Foi, de verdade, o Filho de Deus feito homem que morreu e foi sepultado.

  1. 526Cf. Heb 2, 9.
630

Durante a permanência de Cristo no túmulo, a sua pessoa divina continuou a assumir tanto a alma como o corpo, apesar de sepa­rados entre si pela morte. Por isso, o corpo de Cristo morto «não sofreu a corrupção» (Act 13,37).

ARTIGO 5
«JESUS CRISTO DESCEU À MANSÃO DOS MORTOS, AO TERCEIRO DIA RESSUSCITOU DOS MORTOS»
631

«Jesus desceu às regiões inferiores da Terra. Aquele que desceu é precisamente o mesmo que subiu» (Ef 4, 9-10). O Símbolo dos Apóstolos confessa, num mesmo artigo da fé, a descida de Cristo a mansão dos mortos e a sua ressurreição dos mortos ao terceiro dia, porque, na sua Páscoa, é da profundidade da morte que Ele faz jorrar a vida:

«Christus, Filius tuus,

qui, regressos ab inferis,

humano generi serenus illuxit,

et vivit et regnat in saecula saeculorum. Amen».

«Jesus Cristo, vosso Filho,

que, ressuscitando de entre os mortos,

iluminou o género humano com a sua luz e a sua paz

e vive glorioso pelos séculos dos séculos. Ámen»527.

  1. 527Vigília Pascal, Precónio Pascal («Exsultet»): Missale Romanum, editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1970), p. 273 e 275 [Missal Romano, Gráfica de Coimbra 1992, p. 292 e 295].
PARÁGRAFO 1
CRISTO DESCEU À MANSÃO DOS MORTOS
632

As frequentes afirmações do Novo Testamento, segundo as quais Jesus «ressuscitou de entre os mortos» (1 Cor 15, 20)528, pressupõem que, anteriormente à ressurreição, Ele tenha estado na mansão dos mortos529 este o sentido primeiro dado pela pregação apostólica à descida de Jesus à mansão dos mortos: Jesus conheceu a morte, como todos os homens, e foi ter com eles à morada dos mortos. Porém, desceu lá como salvador proclamando a Boa-Nova aos espíritos que ali estavam prisioneiros530.

  1. 528Cf. Act 3, 15; Rm 8, 11.
  2. 529Cf. Heb 13, 20.
  3. 530Cf. 1 Pe 3, 18-19.
633

A morada dos mortos, a que Cristo morto desceu, é chamada pela Escritura os infernos, Sheol ou Hades531, porque aqueles que aí se encontravam estavam privados da visão de Deus532. Tal era o caso de todos os mortos, maus ou justos, enquanto esperavam o Redentor533, o que não quer dizer que a sua sorte fosse idêntica, como Jesus mostra na parábola do pobre Lázaro, recebido no «seio de Abraão»534. «Foram precisamente essas almas santas, que esperavam o seu libertador no seio de Abraão, que Jesus Cristo libertou quando desceu à mansão dos mortos»535. Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados536, nem para abolir o inferno da condenação537, mas para libertar os justos que O tinham precedido538.

Ver também§ 1033

  1. 531Cf. Fl 2, 10; Act 2, 24: Ap 1, 18; Ef 4, 9.
  2. 532Cf. Sl 6, 6; 88, 11-13.
  3. 533Cf. Sl 89, 49; 1 Sm 28, 19: Ez 32, 17-32.
  4. 534Cf. Lc 16, 22-26,
  5. 535CatRom 1. 6. 3. p. 71.
  6. 536Cf. Concílio de Roma (ano 745), De descensu Christi ad inferos: DS 587.
  7. 537Cf. Bento XII, Libellus, Cum dudum (1341). 18: DS 1011; Clemente VI, Ep. Super quibusdam (ano 1351), c. 15, 13: DS 1077.
  8. 538Cf. IV Concílio de Toledo (ano 633). Capitulum, 1: DS 485; Mt 27, 52-53.
634

«A Boa-Nova foi igualmente anunciada aos mortos...» (1 Pe 4, 6). A descida à mansão dos mortos é o cumprimento, até à plenitude, do anúncio evangélico da salvação. É a última fase da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta no seu significado real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, porque todos aqueles que se salvaram se tornaram participantes da redenção.

Ver também§ 605

635

Cristo, portanto, desceu aos abismos da morte539, para que «os mortos ouvissem a voz do Filho do Homem e os que a ouvissem, vivessem» (Jo 5, 25). Jesus, «o Príncipe da Vida»540, «pela sua morte, reduziu à impotência aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertou quantos, por meio da morte, se encontravam sujeitos à servidão durante a vida inteira» (Heb 2, 14-15). Desde agora, Cristo ressuscitado «detém as chaves da morte e do Hades» (Ap 1, 18) e «ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos» (Fl 2, 10).

«Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o rei dorme. A terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos [...]. Vai à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Quer visitar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte. Vai libertar Adão do cativeiro da morte. Ele que é ao mesmo tempo seu Deus e seu filho [...] "Eu sou o teu Deus, que por ti me fiz teu filho [...] Desperta tu que dormes, porque Eu não te criei para que permaneças cativo no reino dos mortos: levanta-te de entre os mortos; Eu sou a vida dos mortos"»541.

  1. 539Cf Mt 12, 40; Rm 10, 7; Ef 4, 9.
  2. 540Cf. Act 3, 15.
  3. 541Antiga homilia para Sábado Santo: PG 43. 440.452.461 [Sábado Santo, 2ª Leitura do Ofício de Leituras: Liturgia das Horas, s. 2 (Gráfica de Coimbra 1983) p. 454-4551.
636

Na expressão «Jesus desceu à mansão dos mortos», o Símbolo confessa que Jesus morreu realmente, e que, por ter morrido por nós, venceu a morte e o Diabo «que tem o poder da morte» (Heb 2, 14).

637

Cristo morto, na sua alma unida à pessoa divina, desceu à morada dos mortos. E abriu aos justos, que O tinham precedido, as portas do céu.

PARÁGRAFO 2
AO TERCEIRO DIA, RESSUSCITOU DOS MORTOS
638

«Nós vos anunciamos a Boa-Nova de que a promessa feita aos nossos pais, a cumpriu Deus para nós, seus filhos, ao ressuscitar Jesus» (Act 13, 32-33). A ressurreição de Jesus é a verdade culminante da nossa fé em Cristo, acreditada e vivida como verdade central pela primeira comunidade cristã, transmitida como fundamental pela Tradição, estabelecida pelos documentos do Novo Testamento, pregada como parte essencial do mistério pascal, ao mesmo tempo que a cruz:

«Cristo ressuscitou dos mortos.

Pela Sua morte venceu a morte,

e aos mortos deu a vida»542.

Ver também§ 90§ 651§ 991

  1. 542Liturgia bizantina, Tropário no dia de Páscoa: «Pentêkostárion» (Romae 1884) p.6.
I. Acontecimento histórico e transcendente
639

O mistério da ressurreição de Cristo é um acontecimento real, com manifestações historicamente verificadas, como atesta o Novo Testamento. Já São Paulo, por volta do ano 56, pôde escrever aos Coríntios: «Transmiti-vos, em primeiro lugar, o mesmo que havia recebido: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras: a seguir, apareceu a Pedro, depois aos Doze» (1 Cor 15, 3-4). O Apóstolo fala aqui da tradição viva da ressurreição, de que tinha tomado conhecimento após a sua conversão, às portas de Damasco543.

  1. 543Cf. Act 9, 3-18.
O TÚMULO VAZIO
640

«Por que motivo procurais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou» (Lc 24, 5-6). No quadro dos acontecimentos da Páscoa, o primeiro elemento que se nos oferece é o sepulcro vazio. Isso não é, em si, uma prova directa. A ausência do corpo de Cristo do sepulcro poderia explicar-se doutro modo544. Apesar disso, o sepulcro vazio constitui, para todos, um sinal essencial. A descoberta do facto pelos discípulos foi o primeiro passo para o reconhecimento do facto da ressurreição. Foi, primeiro, o caso das santas mulheres545, depois o de Pedro546. «O discípulo que Jesus amava» (Jo 20, 2) afirma que, ao entrar no sepulcro vazio e ao descobrir «os lençóis no chão» (Jo 20, 6), «viu e acreditou»547; o que supõe que ele terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio "', que a ausência do corpo de Jesus não podia ter sido obra humana e que Jesus não tinha simplesmente regressado a uma vida terrena, como fora o caso de Lázaro549.

Ver também§ 999

  1. 544Cf. Jo 20, l3; Mt 28, 11-15.
  2. 545Cf. Lc 24, 3. 22-23.
  3. 546Cf. Lc 24, 12.
  4. 547Cf. Jo 20, 8.
  5. 549Cf. Jo 11, 44.
AS APARIÇÕES DO RESSUSCITADO
641

Maria Madalena e as santas mulheres, que vinham para acabar de embalsamar o corpo de Jesus550, sepultado à pressa por causa do início do «Sábado», no fim da tarde de Sexta-feira Santa551, foram as primeiras pessoas a encontra-se com o Ressuscitado552. Assim, as mulheres foram as primeiras mensageiras da ressurreição de Cristo para os próprios Apóstolos553. Em seguida, foi a eles que Jesus apareceu: primeiro a Pedro, depois aos Doze554. Pedro, incumbido de consolidar a fé dos seus irmãos555, vê, portanto, o Ressuscitado antes deles e é com base no seu testemunho que a comunidade exclama: «Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão» (Lc 24, 34.36).

Ver também§ 553§ 448

  1. 550Cf. Mc 16, l ; Lc 24, 1.
  2. 551Cf. Jo 19, 31.42.
  3. 552Cf. Mt 28, 9-10; Jo 20, 11-18.
  4. 553Cf. Lc 24, 9-10.
  5. 554Cf. 1 Cor 15, 5.
  6. 555Cf. Lc 22, 31-32.
642

Tudo quanto aconteceu nestes dias pascais empenha cada um dos Apóstolos – e muito particularmente Pedro – na construção da era nova, que começa na manhã do dia de Páscoa. Como testemunhas do Ressuscitado, eles são as pedras do alicerce da sua Igreja. A fé da primeira comunidade dos crentes está fundada no testemunho de homens concretos, conhecidos dos cristãos e, a maior parte, vivendo ainda entre eles. Estas «testemunhas da ressurreição de Cristo»556 são, em primeiro lugar, Pedro e os Doze. Mas há outros: Paulo fala claramente de mais de quinhentas pessoas às quais Jesus apareceu em conjunto, além de Tiago e de todos os Apóstolos557.

Ver também§ 659§ 881§ 860

  1. 556Cf. Act 1, 22.
  2. 557Cf. 1 Cor 15, 4-8.
643

Perante estes testemunhos, é impossível interpretar a ressurreição de Cristo fora da ordem física e não a reconhecer como um facto histórico. Resulta, dos factos, que a fé dos discípulos foi submetida à prova radical da paixão e morte de cruz do seu Mestre, por este de antemão anunciada558. O abalo provocado pela paixão foi tão forte que os discípulos (pelo menos alguns) não acreditaram imediatamente na notícia da ressurreição. Longe de nos apresentar uma comunidade tomada de exaltação mística, os evangelhos apresentam-nos os discípulos abatidos (de «rosto sombrio»: Lc 24, 17) e apavorados559. Foi por isso que não acreditaram nas santas mulheres, regressadas da sua visita ao túmulo, e «as suas narrativas pareceram-lhe um desvario» (Lc 24, 11)560. Quando Jesus apareceu aos onze, na tarde do dia de Páscoa, «censurou-lhes a falta de fé e a teimosia em não quererem acreditar naqueles que O tinham visto ressuscitado» (Mc 16, 14).

  1. 558Cf. Lc 22, 31-32.
  2. 559Cf. Jo 20, 19.
  3. 560Cf. Mc 16, 11.13.
644

Mesmo confrontados com a realidade de Jesus Ressuscitado, os discípulos ainda duvidam561 de tal modo isso lhes parecia impossível: julgavam ver um fantasma562. «Por causa da alegria, estavam ainda sem querer acreditar e cheios de assombro» (Lc 24, 41). Tomé experimentará a mesma provação da dúvida563, e quando da última aparição na Galileia, referida por Mateus, «alguns ainda duvidavam» (Mt 28, 17).É por isso que a hipótese, segundo a qual a ressurreição teria sido um «produto» da fé (ou da credulidade) dos Apóstolos, é inconsistente. Pelo contrário, a sua fé na ressurreição nasceu — sob a acção da graça divina da experiência directa da realidade de Jesus Ressuscitado.

  1. 561Cf. Lc 24,38.
  2. 562Cf. Lc 24, 37.
  3. 563Cf. Jo 20, 24-27.
O ESTADO DA HUMANIDADE RESSUSCITADA DE CRISTO
645

Jesus Ressuscitado estabeleceu com os seus discípulos relações directas, através do contacto físico564 e da participação na refeição565. Desse modo, convida-os a reconhecer que não é um espírito566, e sobretudo a verificar que o corpo ressuscitado, com o qual se lhes apresenta, é o mesmo que foi torturado e crucificado, pois traz ainda os vestígios da paixão567. No entanto, este corpo autêntico e real possui, ao mesmo tempo, as propriedades novas dum corpo glorioso: não está situado no espaço e no tempo, mas pode, livremente, tornar-se presente onde e quando quer568, porque a sua humanidade já não pode ser retida sobre a terra e já pertence exclusivamente ao domínio divino do Pai569. Também por este motivo, Jesus Ressuscitado é soberanamente livre de aparecer como quer: sob a aparência dum jardineiro570 ou «com um aspecto diferente» (Mc 16, 12) daquele que era familiar aos discípulos; e isso, precisamente, para lhes despertar a fé571.

Ver também§ 999

  1. 564Cf. Lc 24, 39; Jo 20, 27.
  2. 565Cf. Lc 24, 30.41-43: Jo 21, 9.13-15.
  3. 566Cf. Lc 24, 39.
  4. 567Cf. Lc 24, 40: Jo 20, 20.27.
  5. 568Cf. Mt 28, 9.16-17; Lc 24, 15.36; Jo 20, 14.19-26; 21, 4.
  6. 569Cf. Jo 20, 17.
  7. 570Cf. Jo 20, 14-15.
  8. 571Cf. Jo 20, 14.16; 21, 4.7.
646

A ressurreição de Cristo não foi um regresso à vida terrena, como no caso das ressurreições que Ele tinha realizado antes da Páscoa: a filha de Jairo, o jovem de Naim e Lázaro. Esses factos eram acontecimentos milagrosos, mas as pessoas miraculadas reencontravam, pelo poder de Jesus, uma vida terrena «normal»: em dado momento, voltariam a morrer. A ressurreição de Cristo é essencialmente diferente. No seu corpo ressuscitado, Ele passa do estado de morte a uma outra vida, para além do tempo e do espaço. O corpo de Cristo é, na ressurreição, cheio do poder do Espírito Santo; participa da vida divina no estado da sua glória, de tal modo que São Paulo pode dizer de Cristo que Ele é o «homem celeste»572.

Ver também§ 934§ 549

  1. 572Cf. 1 Cor 15, 35-50.
A RESSURREIÇÃO COMO ACONTECIMENTO TRANSCENDENTE
647

«Oh noite bendita! – canta o «Exultet» pascal – única a ter conhecimento do tempo e da hora em que Cristo ressuscitou do sepulcro»573. Com efeito, ninguém foi testemunha ocular do acontecimento da ressurreição propriamente dita e nenhum evangelista o descreve. Ninguém pôde dizer como ela se deu, fisicamente. Ainda menos a sua essência mais íntima, a passagem a uma outra vida, foi perceptível aos sentidos. Acontecimento histórico comprovado pelo sinal do túmulo vazio e pela realidade dos encontros dos Apóstolos com Cristo Ressuscitado, nem por isso a ressurreição deixa de estar, naquilo em que transcende e ultrapassa a história, no próprio centro do mistério da fé. Foi por isso que Cristo Ressuscitado não Se manifestou ao mundo574, mas aos discípulos, «aos que com Ele tinham subido da Galileia a Jerusalém» e que «são agora testemunhas de Jesus junto do povo» (Act 13, 31).

Ver também§ 1000

  1. 573Vigília Pascal, Precónio Pascal («Exsultet» ): Missale Romanum, editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1970), p. 272 [Missal Romano, Gráfica de Coimbra 1992, p. 290 e 294].
  2. 574Cf. Jo 14, 22.
II. A ressurreição – obra da Santíssima Trindade
648

A ressurreição de Cristo é objecto de fé, na medida em que é uma intervenção transcendente do próprio Deus na criação e na história. Nela, as três pessoas divinas agem em conjunto e manifestam a sua originalidade própria: realizou-se pelo poder do Pai, que «ressuscitou» (Act 2, 24) Cristo seu Filho, e assim introduziu de modo perfeito a sua humanidade – com o seu corpo – na Trindade. Jesus foi divinamente revelado «Filho de Deus em todo o seu poder, pela sua ressurreição de entre os mortos» (Rm 1, 4). São Paulo insiste na manifestação do poder de Deus575 por obra do Espírito, que vivificou a humanidade morta de Jesus e a chamou ao estado glorioso de Senhor.

Ver também§ 258§ 989§ 663§ 445§ 272

  1. 575Cf. Rm 6, 4; 2 Cor 13, 4: Fl 3. 10; Ef 1, 19-22; Heb 7, 16.
649

Quanto ao Filho, Ele opera a sua própria ressurreição em virtude do seu poder divino. Jesus anuncia que o Filho do Homem deverá sofrer muito, e depois ressuscitar (no sentido activo da palavra576). Aliás, é d'Ele esta afirmação explícita: «Eu dou a minha vida para retomá-la [...] Tenho o poder de a dar e o poder de a retomar» (Jo 10, 17-18). «Nós cremos que Jesus morreu e depois ressuscitou» (1 Ts 4, 14).

  1. 576Cf. Mc 8, 31; 9. 9.31; 10. 34.
650

Os Santos Padres contemplam a ressurreição a partir da pessoa divina de Cristo, que ficou unida à sua alma e ao seu corpo, separados entre si pela morte: «Pela unidade da natureza divina, que continua presente em cada uma das duas partes do homem, estas unem-se de novo. Assim, a morte é produzida pela separação do composto humano e a ressurreição pela união das duas partes separadas»577.

Ver também§ 626§ 1005

  1. 577São Gregório de Nissa, De tridui inter mortem et resurrectionem Domini nostri Iesu Christi spatio: Gregorii Nysseni opera, ed. W. Jaeger — H. Langerbeck, V. 9 (Leiden 1967) p. 293- 294 (PG 46, 417B): cf. também Statuta Ecelesiae Antigua: DS 325: Anastásio II, Ep. In prolixitate epistulae: DS 359: Santo Hormisda. Ep. Inter ea quae: DS 369: XI Concílio de Toledo, Symbolum: DS 539.
III. Sentido e alcance salvífico da ressurreição
651

«Se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é vã e também é vã a vossa fé» (1 Cor 15, 14). A ressurreição constitui, antes de mais, a confirmação de tudo quanto Cristo em pessoa fez e ensinou. Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram a sua justificação se, ressuscitando, Cristo deu a prova definitiva, que tinha prometido, da sua autoridade divina.

Ver também§ 129§ 274

652

A ressurreição de Cristo é o cumprimento das promessas do Antigo Testamento578 e do próprio Jesus, durante a sua vida terrena579. A expressão «segundo as Escrituras»580 indica que a ressurreição de Cristo cumpriu essas predições.

Ver também§ 994§ 601

  1. 578Cf. Lc 24, 26-27. 44-48.
  2. 579Cf. Mt 28, 6; Mc 16, 7; Lc 24, 6-7.
  3. 580Cf. 1 Cor 15, 3-4: Símbolo Niceno-Constantinopolitano: DS 150.
653

A verdade da divindade de Jesus é confirmada pela ressurreição. Ele tinha dito: «Quando elevardes o Filho do Homem, então sabereis que "Eu Sou"» (Jo 8, 28). A ressurreição do Crucificado demonstrou que Ele era verdadeiramente «Eu Sou», o Filho de Deus e Ele próprio Deus. São Paulo pôde declarar aos judeus: «E nós vos anunciamos a Boa-Nova de que a promessa feita aos nossos pais, cumpriu-a Deus para os filhos deles ao ressuscitar Jesus, como justamente está escrito no Salmo segundo: "Tu és meu Filho, Eu gerei-Te hoje"» (Act 13, 32-33)581. O mistério da ressurreição de Cristo está estreitamente ligado ao mistério da Encarnação do Filho de Deus. É dele o cumprimento, segundo o desígnio eterno de Deus.

Ver também§ 445§ 461§ 422

  1. 581Cf. Sl, 2, 7.
654

Existe um duplo aspecto no mistério pascal: pela sua morte, Cristo liberta-nos do pecado; pela sua ressurreição, abre-nos o acesso a uma nova vida. Esta é, antes de mais, a justificação, que nos repõe na graça de Deus582, «para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos [...], também nós vivamos uma vida nova» (Rm 6, 4). Esta consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça583; realiza a adopção filial, porque os homens tornam-se irmãos de Cristo, como o próprio Jesus chama aos discípulos depois da ressurreição: «Ide anunciar aos meus irmãos» (Mt 28, 10)584. Irmãos, não por natureza, mas por dom da graça, porque esta filiação adoptiva proporciona uma participação real na vida do Filho, plenamente revelada na sua ressurreição.

Ver também§ 1987§ 1996

  1. 582Cf. Rm 4, 25.
  2. 583Cf. Ef 2, 4-5; 1 Pe 1, 3.
  3. 584Cf. Jo 20, 17.
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