Sentar-se à direita do Pai significa a inauguração do Reino messiânico, cumprimento da visão do profeta Daniel a respeito do Filho do Homem: «Foi-Lhe entregue o domínio, a majestade e a realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu domínio é um domínio eterno, que não passará jamais, e a sua realeza não será destruída» (). A partir deste momento, os Apóstolos tornaram-se as testemunhas do «Reino que não terá fim» (602).
A ascensão de Cristo marca a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus, de onde há-de voltar603 mas que, entretanto, O oculta aos olhos dos homens604.
Jesus Cristo, cabeça da Igreja, precede-nos no Reino glorioso do Pai, para que nós, membros do seu corpo, vivamos na esperança de estarmos um dia eternamente com Ele.
Jesus Cristo, tendo entrado, uma vez por todas, no santuário dos céus, intercede incessantemente por nós, como mediador que nos garante permanentemente a efusão do Espírito Santo.
«Cristo morreu e voltou à vida para ser Senhor dos mortos e dos vivos» (). A ascensão de Cristo aos céus significa a sua participação, na sua humanidade, no poder e autoridade do próprio Deus. Jesus Cristo é Senhor: Ele possui todo o poder nos céus e na Terra. Está «acima de todo o principado, poder, virtude e soberania», porque o Pai «tudo submeteu a seus pés»(). Cristo é o Senhor do cosmos605 e da história, N'Ele, a história do homem, e até a criação inteira, encontram a sua «recapitulação»606, o seu acabamento transcendente.
Como Senhor, Cristo é também a cabeça da Igreja, que é o seu corpo607. Elevado ao céu e glorificado, tendo assim cumprido plenamente a sua missão, continua na terra por meio da Igreja. A redenção é a fonte da autoridade que Cristo, em virtude do Espírito Santo, exerce sobre a Igreja608. «O Reino de Cristo já está misteriosamente presente na Igreja»609, «gérmen e princípio deste mesmo Reino na Terra»610.
Depois da ascensão, o desígnio de Deus entrou na sua consumação. Estamos já na «última hora» ()611. «Já chegou pois, a nós, a plenitude dos tempos, a renovação do mundo já está irrevogavelmente adquirida e, de certo modo, encontra-se já realmente antecipada neste tempo: com efeito, ainda aqui na Terra, a Igreja está aureolada de uma verdadeira, embora imperfeita, santidade»612. O Reino de Cristo manifesta já a sua presença pelos sinais miraculosos613 que acompanham o seu anúncio pela Igreja614.
Já presente na sua Igreja, o Reino de Cristo, contudo, ainda não está acabado «em poder e glória» ()615 pela vinda do Rei à terra. Este Reino ainda é atacado pelos poderes do mal616, embora estes já tenham sido radicalmente vencidos pela Páscoa de Cristo. Até que tudo Lhe tenha sido submetido617, «enquanto não se estabelecem os novos céus e a nova terra, em que habita a justiça, a Igreja peregrina, nos seus sacramentos e nas suas instituições, que pertencem à presente ordem temporal, leva a imagem passageira deste mundo e vive no meio das criaturas que gemem e sofrem as dores do parto, esperando a manifestação dos filhos de Deus»618. Por este motivo, os cristãos oram, sobretudo na Eucaristia619, para que se apresse o regresso de Cristo620, dizendo-Lhe: «Vem, Senhor» ()621.
Cristo afirmou, antes da sua ascensão, que ainda não era a hora do estabelecimento glorioso do Reino messiânico esperado por Israel622, o qual devia trazer a todos os homens, segundo os profetas623, a ordem definitiva da justiça, do amor e da paz. O tempo presente é, segundo o Senhor, o tempo do Espírito e do testemunho624 mas é também um tempo ainda marcado pela «desolação»625 e pela provação do mal626, que não poupa a Igreja627 e inaugura os combates dos últimos dias628. É um tempo de espera e de vigília629.
A partir da ascensão, a vinda de Cristo na glória está iminente630 mesmo que não nos «pertença saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade» ()631. Este advento escatológico pode realizar-se a qualquer momento632, ainda que esteja «retido», ele e a provação final que o há-de preceder633.
A vinda do Messias glorioso está pendente, a todo o momento da história634, do seu reconhecimento por «todo o Israel»635, do qual «uma parte se endureceu»636 na «incredulidade» () em relação a Jesus. E Pedro quem diz aos judeus de Jerusalém, após o Pentecostes: «Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que os pecados vos sejam perdoados. Assim, o Senhor fará que venham os tempos de alívio e vos mandará o Messias Jesus, que de antemão vos foi destinado. O céu tem de O conservar até à altura da restauração universal, que Deus anunciou pela boca dos seus santos profetas de outrora» (). E Paulo faz-se eco destas palavras: «Se da sua rejeição resultou a reconciliação do mundo, o que será a sua reintegração senão uma ressurreição de entre os mortos?» (). A entrada da totalidade dos judeus637 na salvação messiânica, a seguir à «conversão total dos pagãos»638, dará ao povo de Deus ocasião de «realizar a plenitude de Cristo» (), na qual «Deus será tudo em todos» ().
Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes639. A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra640, porá a descoberto o «mistério da iniquidade», sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado641.